Brandemburgo, Alemanha: em três países avançados – Alemanha, Reino Unido e     França – as emissões caíram apesar do aumento da renda (foto:     Caro/Kaiser/Newscom)

Brandemburgo, Alemanha: em três países avançados – Alemanha, Reino Unido e França – as emissões caíram apesar do aumento da renda (foto: Caro/Kaiser/Newscom)

A prosperidade é verde

21 de maio de 2018

O crescimento econômico tradicionalmente se move no mesmo sentido que a poluição. Mas será que os países conseguem romper esse vínculo e crescer enquanto reduzem a poluição?

Nosso estudo (baseado em um trabalho conjunto com Gail Cohen e Ricardo Marto) mostra que sim, houve progressos nessa área. Os dados são claros: as economias avançadas estão começando a exibir sinais de desvinculação (aceleração do crescimento com diminuição da poluição), mas as economias de mercados emergentes ainda não chegaram lá. 

O gráfico resume nossas constatações sobre a ligação entre a tendência (a relação de longo prazo) das emissões de gases de efeito estufa e a tendência da renda. Nossa análise abrange os 20 maiores emissores de gases de efeito estuda do mundo de 1990 até o presente. Ao longo desse período, a renda cresceu (isto é, a tendência é positiva), apesar de algumas quedas devido a recessões e crises financeiras ocasionais. Mas o que ocorreu com as tendências das emissões?

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As barras do gráfico mostram o aumento percentual das emissões tendenciais para cada aumento de 1% da renda tendencial (os economistas chamam essas estimativas de elasticidades). Vejamos primeiro os três casos mais à direita do gráfico — Alemanha, Reino Unido e França. As estimativas das elasticidades desse grupo são negativas: as emissões caíram apesar do aumento da renda. Assim, esses países conseguiram desvincular as emissões e o produto. Nossos resultados mostram que isso se deve tanto a políticas ativas adotadas por esses países para descarbonizar suas economias quanto à transformação estrutural dessas economias rumo a uma contribuição maior do setor de serviços.

Os três casos seguintes, Ucrânia, Rússia e Itália, não deixam muito clara a relação entre emissões e renda. Embora as estimativas pontuais estejam próximas de zero, os intervalos de confiança não permitem descartar valores muito mais altos nem muito mais baixos (nesses casos ambíguos, as barras são mostradas em um tom mais claro).

Os quatro casos seguintes no gráfico são todos de economias avançadas: Estados Unidos, Austrália, Japão e Canadá. As estimativas das elasticidades são positivas, porém pequenas, entre 0,1 e 0,4, o que significa que esses países não conseguiram alcançar a desvinculação, embora as emissões estejam crescendo a um ritmo muito mais lento do que a renda. Nos Estados Unidos, houve um grande avanço desde meados da década de 2000, quando a trajetória das emissões primeiro desacelerou para, em seguida, começar a cair, sobretudo devido ao aumento do uso de gás natural na geração de eletricidade.

Os países restantes no gráfico são economias de mercados emergentes. Nesse grupo, as estimativas das elasticidades são todas positivas e superiores a 0,6. Será que esses países seguirão o mesmo caminho das economias avançadas? Há motivos para otimismo. Primeiro, as estimativas das elasticidades, embora altas, são mais baixas do que nas décadas de 1970 e 1980. Segundo, em um estudorelacionado, descobrimos que, em países como a China, as províncias mais ricas estão começando a mostrar alguns sinais de desvinculação.

Ao oferecer dados sobre o avanço da desvinculação, nossa intenção não é minimizar os desafios. O controle de emissões, embora louvável, talvez não seja suficiente para alcançar a meta de limitar a elevação das temperaturas mundiais a menos de 2 graus Celsius. Assim, como o FMI vem defendendo há muito tempo, os países devem estudar a possibilidade de precificar o carbono – ou seja, impor taxas sobre o conteúdo de carbono dos combustíveis fósseis ou de suas emissões – para acelerar o progresso rumo a um mundo verde.

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João Tovar Jalles é economista da Divisão de Macroeconomia do Desenvolvimento do Departamento de Estudos do FMI. Anteriormente, trabalhou quatro anos no Departamento de Finanças Públicas. João já soma mais de 60 publicações e seu trabalho se concentra principalmente em temas fiscais, mas também em questões como reformas estruturais, previsões, energia, emprego, crescimento empírico e criminalidade. Antes de ingressar no FMI, trabalhou na OCDE e no BCE. No meio acadêmico, foi professor convidado da Sciences Po (França) e professor assistente da Universidade de Aberdeen (Reino Unido).

Prakash Loungani é chefe da Divisão de Macroeconomia do Desenvolvimento do Departamento de Estudos do FMI e foi copresidente do grupo de trabalho do FMI sobre emprego e crescimento, de 2011 a 2015. Também é professor adjunto de administração na Owen School da Universidade Vanderbilt, onde leciona no programa de MBA Executivo desde 2001, e é pesquisador sênior do OCP Policy Center.