O investimento em educação é um importante contrapeso à desigualdade de         renda (foto: iStock by Getty Images).
O investimento em educação é um importante contrapeso à desigualdade de renda (foto: iStock by Getty Images).

Um mapeamento da polarização da renda nos Estados Unidos

22 de maio de 2018

A desigualdade de renda entre as famílias dos Estados Unidos é muito variada entre os 50 estados do país. Nos estados em que a situação é pior, boa parte da culpa é atribuída ao impacto da concorrência internacional e à automação.

Isso contribuiu para uma reação contra o livre comércio em nível nacional. Contudo, os estados dispõem de uma ferramenta eficaz para enfrentar a polarização da renda: o investimento em educação.

Em nosso estudo intitulado Hollowing Out: The Channels of Income Polarization in the United States , sobre os canais da polarização da renda nos Estados Unidos, mostramos que o número de famílias de renda média encolheu como proporção da população desde a década de 1960. Em 2016, as famílias que ganhavam entre 50% e 150% da renda média representavam apenas 48% do total, em comparação com 58% em 1968.


Dessas famílias que deixaram o grupo de renda média, a proporção que caiu para a categoria de baixa renda, em um fenômeno que descrevemos como esvaziamento ou polarização, foi maior do que a proporção das que avançaram para os níveis de renda mais altos.

Mas esses efeitos não foram sentidos de maneira uniforme nos 50 estados. Para destacar essas diferenças, criamos um índice de esvaziamento para cada um dos estados com referência ao período de 2000 a 2016.

O gráfico da semana, mostrado acima, divide os 50 estados dos EUA e o Distrito de Colúmbia em três grupos, com base no nível de esvaziamento da renda da classe média durante o período em tela.

Nosso estudo constatou que o avanço tecnológico, medido pela rotinização do trabalho, e o comércio internacional, medido pelo transferência dos empregos para o exterior, respondem, em partes razoavelmente iguais, por mais da metade do aumento da polarização da renda. As características das famílias, em especial a escolaridade mais alta, contribuíram de forma importante para compensar a polarização. Nossa análise de cada estado mostra como a interação entre essas forças teve resultados diferentes para as famílias de renda média em função de onde residiam.

Em Nevada e Arkansas, por exemplo, dois estados com o maior aumento da polarização no período de 2000 a 2016, a educação teve apenas um pequeno efeito compensatório, na medida em que a tecnologia e o comércio internacional reduziram o padrão de vida de algumas famílias de renda média.

No outro extremo, em estados como Massachusetts e Novo México, a tecnologia e a concorrência internacional tiveram um impacto menor sobre a polarização da renda em comparação com o ocorrido em Nevada e Arkansas. Enquanto isso, a educação contribuiu mais para manter as famílias na classe média, fazendo com que Massachusetts e Novo México figurassem entre os estados que experimentaram o menor aumento da polarização de renda no período em análise.

O avanço tecnológico e a globalização tiveram efeitos positivos, pois elevaram o padrão de vida, aumentaram a produtividade e aceleraram o crescimento. Todavia, nosso trabalho mostra que também geraram efeitos colaterais importantes e, em alguns casos, prejudiciais, sobre a distribuição de renda e o bem-estar das famílias. Contudo, esses não são os únicos fatores em ação. Em uma economia mundial em constante evolução, o investimento em educação pode preparar as famílias de renda média para resistir às forças que provocam o esvaziamento.

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Ali Alichi é Subchefe de Divisão no Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI. É um dos economistas encarregados dos Estados Unidos e chefia a missão de Aruba e Suriname. Antes disso, ocupou cargos em diversos departamentos do FMI, mais recentemente no Departamento de Estudos e no Departamento da Ásia e do Pacífico. É doutor em economia pela Universidade de Boston.

Rodrigo Mariscal é analista de estudos sênior no Instituto de Finanças Internacionais . Trabalhou no Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, no Banco Interamericano de Desenvolvimento e no Banco Central do México . É mestre em economia pelo Colegio de México . Seus estudos se concentram na macroeconomia, com ênfase na credibilidade dos regimes de inflação na América Latina, reestruturações da dívida soberana e preços de commodities. Investiga também outras áreas, como a distribuição de renda e a produtividade do trabalho na América do Norte.