A escalada das tensões comerciais é a maior ameaça no curto prazo para o crescimento mundial (imagem: wildpixel/Getty Images by iStock)

A escalada das tensões comerciais é a maior ameaça no curto prazo para o crescimento mundial (imagem: wildpixel/Getty Images by iStock)

A expansão da economia mundial: ainda forte, porém menos uniforme, mais frágil e ameaçada

16 de julho de 2018

Em meio a crescentes tensões em torno do comércio internacional, a ampla expansão da economia mundial que começou há cerca de dois anos estabilizou e se tornou menos equilibrada. Continuamos a projetar taxas de crescimento mundial de apenas cerca de 3,9% neste ano e no seguinte, mas julgamos que o risco de resultados piores aumentou, mesmo no curto prazo.

O crescimento permanece de modo geral forte nas economias avançadas, mas desacelerou em muitas delas, como em alguns países da área do euro, no Japão e no Reino Unido. Em contrapartida, nos Estados Unidos, o PIB continua a crescer mais rápido do que seu potencial, e a geração de emprego ainda é robusta, impulsionada, em grande medida, pelos recentes cortes de impostos e pela elevação dos gastos públicos. Até mesmo o crescimento americano, porém, deve desacelerar nos próximos anos, à medida que a longa recuperação cíclica chegue ao fim e cessem os efeitos do estímulo fiscal temporário. Nossa projeção para as economias avançadas é de crescimento de 2,4% em 2018, 0,1 ponto percentual a menos que a nossa projeção do World Economic Outlook de abril. Nossas previsões para essas economias em 2019 permanecem inalteradas, com crescimento de 2,2%.

Para o grupo de economias em desenvolvimento e de mercados emergentes, ainda projetamos taxas de crescimento de 4,9% em 2018 e 5,1% em 2019. Esses números agregados, no entanto, ocultam diversas mudanças nas avaliações de cada país.

A China continua a crescer em linha com as nossas projeções anteriores. Para algumas das grandes economias da América Latina, Europa emergente e Ásia, projetamos taxas de crescimento inferiores a nossas previsões de abril. Interrupções na oferta e tensões geopolíticas ajudaram a elevar os preços do petróleo, beneficiando os exportadores emergentes do produto (por exemplo, os fornecedores do Oriente Médio e a Rússia), mas prejudicando os importadores (a Índia, por exemplo). Para o conjunto das economias de mercados emergentes, as revisões para mais e para menos se compensam de modo geral.

O crescimento global na África Subsaariana será superior ao crescimento da população nos próximos anos, possibilitando um aumento da renda per capita em muitos países; todavia, apesar de certa recuperação dos preços das commodities, o crescimento ainda ficará aquém dos níveis observados durante o boom das commodities dos anos 2000. Desdobramentos adversos na África mdashhere— conflitos civis ou choques relacionados ao clima, por exemplo mdashhere— poderiam intensificar as pressões emigratórias, sobretudo em direção à Europa.

Política do Fed, tensões comerciais

Como sempre, a política do Federal Reserve é fundamental para a evolução financeira mundial. Dado o forte nível do emprego nos EUA e a estabilização da inflação, o Fed deve continuar a elevar as taxas de juros nos próximos dois anos, tornando sua política monetária mais restritiva em comparação à de outras economias avançadas e fortalecendo o dólar. A moeda americana já teve uma ampla valorização desde abril, e as condições financeiras se tornaram um pouco mais restritivas para as economias emergentes e de fronteira. Apesar desse aperto, essas condições financeiras permanecem relativamente benignas no contexto histórico. Até o momento, os mercados continuam a diferenciar os tomadores, e as pressões sobre a conta de capital têm sido mais intensas para as economias com debilidades evidentes (por exemplo, incerteza política ou desequilíbrios macroeconômicos). Contudo, caso o Fed resolva elevar os juros a um ritmo mais rápido do que o previsto atualmente, uma gama mais ampla de países pode sentir pressões mais intensas.

Mas o risco de uma escalada ainda maior das tensões comerciais atuais mdashhere— com efeitos adversos sobre a confiança, os preços dos ativos e o investimento mdashhere— é a maior ameaça para o crescimento mundial no curto prazo. Os desequilíbrios da conta corrente mundial devem aumentar devido ao crescimento relativamente elevado da demanda nos Estados Unidos, o que pode agravar os atritos. Os Estados Unidos lançaram medidas comerciais que afetam um amplo grupo de países, e enfrentam retaliações ou ameaças de retaliação da China, da União Europeia, dos seus parceiros do NAFTA e do Japão, entre outros. Nossos modelos sugerem que, se as atuais ameaças à política comercial forem cumpridas e a confiança das empresas vier a cair por causa disso, a produção mundial poderá ficar cerca de 0,5% abaixo das projeções atuais até 2020. Os Estados Unidos, como foco da retaliação mundial, veriam uma parcela relativamente grande das suas exportações serem taxadas nos mercados mundiais nesse conflito comercial mais amplo, o que coloca o país numa posição especialmente vulnerável.

Incerteza política, mercados complacentes

Outros riscos se tornaram mais proeminentes desde a nossa avaliação de abril. A incerteza política cresceu na Europa, onde a União Europeia enfrenta desafios políticos fundamentais relativos à política migratória, à governança fiscal, às normas relativas ao estado de direito e à arquitetura institucional da área do euro. As condições do Brexit ainda não foram definidas apesar de meses de negociações. As possíveis transições políticas na América Latina nos próximos meses aumentam a incerteza. Por último, embora alguns perigos geopolíticos pareçam estar em remissão, seus fatores subjacentes ainda estão em ação em muitos casos.

Os mercados financeiros parecem estar bastante complacentes diante dessas contingências, com avaliações elevadas e spreads comprimidos em muitos países. Ao mesmo tempo, porém, os níveis elevados de dívida pública e privada criam uma vulnerabilidade generalizada. Não há dúvida de que o dinamismo dos preços dos ativos encontra respaldo não apenas nas condições financeiras brandas, mas também no cenário de crescimento mundial satisfatório de modo geral. Assim, esses preços são suscetíveis a reajustes repentinos caso o crescimento e os lucros previstos para as empresas estanquem. Para apoiar o crescimento no médio prazo mdashhere— com a previsão de taxas de crescimento tendenciais menores para as economias avançadas e muitos exportadores de commodities nesse período mdashhere—, as autoridades terão de promover reformas já, para elevar o potencial de crescimento e a resiliência, ao mesmo tempo em que reconstituem as reservas fiscais e conduzem a política monetária com cuidado para manter as expectativas de inflação bem ancoradas nas metas.

Equidade econômica, cooperação global

Os governos também precisam dar mais atenção à equidade econômica entre os cidadãos e, sobretudo, à proteção dos mais pobres. O mal-estar político generalizado por trás de muitos dos atuais riscos de políticas, inclusive comerciais, tem como raiz as experiências de crescimento não inclusivo e transformação estrutural de vários países, agravadas pela crise financeira de 2007-09 e pelas dificuldades que se seguiram. É urgente abordar as tendências subjacentes por meio de políticas favoráveis à equidade e ao crescimento e, ao mesmo tempo, assegurar que estejam disponíveis ferramentas macroeconômicas para combater a próxima desaceleração econômica. Caso contrário, o futuro político só tende a escurecer.

Enquanto buscam superar esses desafios, os países precisam resistir à visão voltada para dentro e lembrar que a cooperação multilateral é vital para resolver uma série de problemas de interesse comum. O fortalecimento do sistema multilateral de comércio, a redução do excesso de desequilíbrios mundiais, a política de estabilidade financeira, a política tributária internacional, as ameaças cibernéticas e terroristas, o controle das doenças e o aquecimento global são exemplos de questões que preocupam a todos e exigem mais do que a ação nacional. Reduzir a corrupção, que solapa a confiança no governo em muitos países, também exige um esforço verdadeiramente mundial. Por último, surtos recorrentes de pressões migratórias internacionais, que recentemente se revelaram um grande fator de desestabilização política, não podem ser evitados sem uma ação cooperativa para melhorar a segurança internacional, apoiar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e resistir à mudança climática e seus efeitos.

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Maurice Obstfeld é o Conselheiro Econômico e Diretor do Departamento de Estudos do FMI, destacado da Universidade da Califórnia, Berkeley, onde é professor de economia (“Class of 1958”) e antigo diretor da Faculdade de Economia (1998-2001). Professor em Berkeley desde 1991, ocupou anteriormente o cargo de professor titular na Universidade de Columbia (1979-1986) e na Universidade da Pensilvânia (1986-1989), e de professor-convidado em Harvard (1989-90). Recebeu o seu doutoramento em economia no MIT em 1979, depois de frequentar a Universidade da Pensilvânia (licenciatura, 1973) e o King’s College, Universidade de Cambridge (mestrado, 1975).

De julho de 2014 a agosto de 2015, Obstfeld foi membro do Conselho de Consultores Econômicos do Presidente Obama. De 2002 a 2014, ocupou o cargo de consultor honorário do Instituto de Estudos Econômicos do Banco do Japão. É também membro da Sociedade Econométrica e da Academia de Artes e Ciências dos Estados Unidos. Recebeu, entre outras, as seguintes distinções: o prêmio Tjalling Koopmans da Universidade de Tilburg, o prêmio John von Neumann do Rajk Laszlo College of Advanced Studies (Budapeste) e o prêmio do Instituto Bernhard Harms da Universidade de Kiel. Tem participado em diversas conferências de renome, incluindo a conferência anual Richard T. Ely da Associação Econômica Americana, a conferência L. K. Jha Memorial do Banco da Reserva da Índia e a conferência Frank Graham Memorial da Universidade de Princeton. Obstfeld foi membro da Comissão Executiva e Vice-Presidente da Associação Econômica Americana. Atuou como consultor e ministrou cursos no FMI, assim como em inúmeros bancos centrais de todo o mundo.

É também coautor de duas obras fundamentais sobre economia internacional, International Economics (10.ª edição, 2014, com Paul Krugman e Marc Melitz) e Foundations of International Macroeconomics (1996, com Kenneth Rogoff), assim como de mais de uma centena de artigos sobre taxas de câmbio, crises financeiras internacionais, mercados mundiais de capitais e política monetária.