Como a indústria de tortilhas pode ajudar a explicar o problema da produtividade no México

21 de agosto de 2018

O México poderia produzir mais tortilhas, mas tem sido prejudicado pelo fraco crescimento da produtividade.

Nosso mais recente estudo examinou as razões para isso e constatou que o cerne do dilema da baixa produtividade nacional está na alocação de recursos — ou seja, em como os fatores de produção como o capital e a mão de obra são distribuídos entre as empresas na economia mexicana.

A boa notícia é que o aumento da produtividade não depende do acesso a tecnologias melhores.

Políticas que permitam aos produtores mais eficientes do México atrair capital e mão de obra suficientes — ao reduzir a informalidade do trabalho e fortalecer o acesso a serviços financeiros — podem contribuir para o crescimento global da produtividade, até mesmo no setor de tortilhas.

O paradoxo da produtividade

Então por que estamos preocupados com a produtividade no México?

A partir de meados dos anos 1990, o México implementou reformas abrangentes que liberalizaram a economia e abriram as portas para o investimento estrangeiro e cadeias produtivas mundiais. Essas políticas ajudaram o país a enfrentar muitos choques econômicos graves, como a mais recente incerteza em torno da relação comercial bilateral com os Estados Unidos.

Contudo, o México não tem crescido no mesmo ritmo que outros países da região nas últimas décadas e, na verdade, vem experimentando um declínio da produtividade. Com políticas econômicas sólidas, não é fácil entender por que o crescimento da produtividade mexicana tem sido tão fraco, o que levou os economistas a classificá-lo como um paradoxo.

Parte da explicação poderia ser que as empresas mexicanas não conseguiram atrair rapidamente tecnologias de fronteira mundiais — como as melhores práticas na gestão de operações complexas ou as mais modernas máquinas industriais.

Mas é pouco provável que o problema se resuma a isso, uma vez que o México vem provando de forma clara que é um destino atraente para o investimento estrangeiro desde os anos 1990. Por exemplo, um estudo sugere que o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) por si só pode ter resultado num aumento de cerca de 60% nos fluxos de entrada de investimento direto estrangeiro — que provavelmente serviria para a transferência de tecnologia.

Uma explicação complementar poderiam ser as distorções e imperfeições de mercado que resultam na má alocação de recursos entre as empresas dentro do México. Trata-se de um fenômeno por meio do qual as distorções de mercado permitem que empresas menos produtivas aumentem sua participação no mercado às custas de empresas mais eficientes. E crescem as evidências de que a má alocação está, de fato, no cerne do problema da produtividade no México.

Produzir mais tortilhas

A indústria de tortilhas pode ajudar a ilustrar por que a alocação de recursos é importante para o crescimento da produtividade no México.

Poucos duvidariam que os mais eficientes produtores de tortilha do México empregam as melhores tecnologias e práticas empresariais do mundo em matéria de tortilhas. No entanto, nossa análise mostra que a produtividade no setor de tortilhas e panificação poderia ser cerca de 150% maior se os recursos fossem alocados de forma eficiente entre as empresas.

Comparemos essa situação com a Suécia, onde a alocação de recursos no setor de tortilhas e panificação é bem mais eficiente que a do México: utilizando a mesma quantidade de capital e de mão de obra, e com empresas igualmente produtivas, o México produziria menos tortilhas e outros produtos de panificação do que a Suécia. Isso porque as distorções permitem que empresas menos produtivas desviem capital e mão de obra dos seus concorrentes mais produtivos.

Melhorar a alocação de recursos

Nossa análise mostra também que, de modo geral, a produtividade poderia ser mais do que o dobro no México se o capital e a mão de obra fossem distribuídos de forma eficiente, ou seja, se a contratação de mais um trabalhador ou o acréscimo de um peso ao capital empregado por uma empresa produzisse um retorno idêntico em todas as empresas de cada setor.

Além disso, a má alocação de recursos afeta a produtividade e o crescimento na esfera subnacional. De fato, a má alocação está fortemente correlacionada com a renda per capita em cada estado, sugerindo que ela ajuda a explicar não apenas por que a produtividade global do México é baixa, mas também por que existem grandes discrepâncias regionais de renda.

Nossa análise revela ainda alguns dos fatores subjacentes à má alocação no México. Por exemplo, a informalidade do trabalho está associada a níveis mais elevados de má alocação, provavelmente porque as empresas informais obtêm vantagens injustas em termos de custo por não pagarem a parcela que lhes caberia dos impostos. Essas empresas em geral menos produtivas conseguirão vender mais produtos, contratar mais pessoas e atrair mais capital do que fariam se atuassem no mercado formal.

Outro fator importante é a corrupção, pois ao pagar propina uma empresa também obtém uma vantagem injusta, que lhe permite pagar menos impostos ou ganhar uma licitação. Essa vitória injusta em uma licitação constituiria, por si só, um caso de má alocação de recursos.

Também apontamos outros fatores da má alocação, como níveis elevados de criminalidade e concentração de mercado, e a falta de amplo acesso a serviços financeiros e de telecomunicações, além do isolamento geográfico de algumas empresas. Nossa análise sugere que enfrentar essas distorções geraria benefícios econômicos significativos em termos de produtividade.

O caminho a seguir

Para acelerar o crescimento no México, será necessário perseverar na agenda de reformas estruturais para aumentar a produtividade.

Os reformistas da década de 1990 começaram liberalizando a economia e alcançando a estabilidade macroeconômica; as reformas recém-promulgadas no âmbito do Pacto pelo México têm como objetivo desfazer os monopólios estatais, promover a concorrência nas indústrias de rede e atacar as deficiências no mercado de trabalho, na educação e na governança.

Apesar desses avanços importantes, é preciso redobrar os esforços para garantir o cumprimento da agenda de reformas.

Nossa análise sugere a necessidade de fortalecer o Estado de direito para erradicar a corrupção e o crime, reduzir a informalidade do trabalho e ampliar o acesso a novas infraestruturas de transporte, bem como a serviços financeiros e de telecomunicações.

Vencer esses desafios ajudará a acelerar o crescimento da produtividade, inclusive ao reduzir a má alocação de recursos, e a elevar o padrão de vida no México.

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Florian Misch é economista no Departamento de Finanças Públicas do FMI, onde contribuiu para o Fiscal Monitor e uma série de projetos analíticos; trabalhou em questões fiscais em países europeus e também no México. Antes de ingressar no FMI, foi subchefe de departamento em um importante centro de estudos na Alemanha e trabalhou como consultor para várias instituições, como o Banco Mundial, a Agência de Cooperação Internacional Alemã (GIZ) e o Tesouro da Nova Zelândia. É doutor em Economia pela Universidade de Nottingham.

Christian Saborowski é economista sênior no Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, onde faz parte da equipe do Fundo encarregada do México. Anteriormente, trabalhou nas equipes do Brasil e da Grécia com questões do setor externo e de reestruturação da dívida, além de haver contribuído para uma série de projetos analíticos predominantemente sobre temas ligados às finanças internacionais e à economia monetária. Doutorou-se pela Universidade de Warwick.