A dívida dos governos, empresas e famílias nas economias com setores financeiros de importância sistêmica aumentou desde a crise financeira mundial (foto: Richard B. Levine/Newscom).

A dívida dos governos, empresas e famílias nas economias com setores financeiros de importância sistêmica aumentou desde a crise financeira mundial (foto: Richard B. Levine/Newscom).

O sistema financeiro está mais forte, mas surgiram novas vulnerabilidades na década desde a crise

9 de outubro de 2018

Embora a expansão mundial tenha estacionado, as políticas monetárias flexíveis continuam a apoiar o crescimento. Mas isso não é motivo para dormirmos tranquilos. O capítulo 1 do mais recente Global Financial Stability Report conclui que os riscos de curto prazo para o sistema financeiro aumentaram um pouco nos últimos seis meses. As tensões comerciais se agravaram, as incertezas políticas aumentaram em vários países e algumas economias de mercados emergentes estão enfrentando pressões do mercado financeiro.

Numa perspectiva de mais longo prazo, os riscos permanecem elevados. É inegável que o sistema financeiro está mais forte hoje do que antes da crise financeira mundial, graças a uma década de reformas e recuperação. Contudo, as vulnerabilidades continuam a se acumular e o novo sistema financeiro ainda não foi testado. São necessárias algumas medidas adicionais para aumentar sua resiliência.

Antes de discutirmos medidas de política específicas, vamos examinar mais de perto o cenário financeiro mundial. Até esta altura, o forte apetite pelo risco continua a sustentar o aumento de preços dos ativos nos principais mercados financeiros, e as condições financeiras se mantêm relativamente favoráveis, apesar das elevações da taxa de juros pelo Fed, o banco central dos EUA. Contudo, o fortalecimento do dólar e a alta dos juros nos EUA tornaram o endividamento externo mais caro para os mercados emergentes, sobretudo para os países com maior necessidade de crédito e condições econômicas ou quadros de política mais frágeis.

Novas vulnerabilidades

Se as pressões sobre as economias de mercados emergentes se ampliarem e se intensificarem, os riscos para a estabilidade financeira aumentarão consideravelmente. Nossa análise sugere que, no médio prazo, há uma probabilidade de 5% de as economias de mercados emergentes experimentarem saídas de fluxos de carteira de dívida de US$ 100 bilhões ou mais – uma cifra bem próxima da magnitude das saídas registradas durante a crise.

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Existem outros fatores que poderiam acarretar um aumento acentuado dos riscos para a estabilidade, como uma escalada mais ampla das tensões comerciais, o Brexit sem acordo, novas preocupações com a política fiscal em alguns países altamente endividados da área do euro e uma normalização mais rápida do que a esperada da política monetária nas economias avançadas.

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Qualquer um desses fatores poderia expor as vulnerabilidades financeiras que cresceram ao longo de anos de política monetária acomodatícia. Em economias com setores financeiros de importância sistêmica global, a dívida de governos, empresas e famílias aumentou de cerca de 200% do PIB há uma década para quase 250% atualmente. As economias de mercados emergentes estão contraindo mais empréstimos nos mercados internacionais e enfrentam o risco de não conseguirem refinanciar uma parte substancial de sua dívida em moeda estrangeira. Os bancos estão expostos a esses devedores altamente endividados, e alguns bancos internacionais detêm grandes volumes de ativos mais ilíquidos e opacos. As avaliações dos ativos ainda são excessivas em vários setores e regiões, e os padrões de subscrição estão se deteriorando.

Esse acúmulo de vulnerabilidades torna ainda mais urgente a necessidade de as autoridades econômicas intensificarem os esforços para fortalecer o sistema financeiro:

  • Políticas microprudenciais, ou no nível das empresas, devem ter como objetivo reforçar os balanços dos bancos contra os riscos de solvência e liquidez.

  • Ferramentas macroprudenciais de base ampla, como uma reserva de capital anticíclica (que visa aumentar o capital dos bancos quando o endividamento está aumentando na economia), devem ser usadas mais ativamente nos países onde as condições financeiras permanecem acomodatícias e as vulnerabilidade elevadas. A estabilidade financeira também exige novas ferramentas macroprudenciais para atacar as vulnerabilidades que estão fora do setor bancário – por exemplo, para assegurar a solidez dos padrões de subscrição na intermediação do crédito não bancário e para abordar os riscos de liquidez dos gestores de ativos.

  • Nas economias de mercados emergentes, ainda é crucial reduzir as vulnerabilidades e manter políticas robustas e quadros de política sólidos, o que abrange a construção e manutenção de reservas cambiais suficiente e o uso criterioso dessas reservas.

  • As autoridades regulatórias e de supervisão precisam saber reagir às novas ameaças, incluindo os riscos cibernéticos. Devem também apoiar a possível contribuição da tecnologia financeira para a inovação, a eficiência e a inclusão, assegurando também a proteção do sistema financeiro contra riscos.

Não é hora de complacência. Devem ser tomadas medidas mais proativas para salvaguardar a estabilidade financeira. Como observado no capítulo 2 do Global Financial Stability Report , já divulgado, deve-se concluir a agenda de reformas da regulação financeira e evitar uma reversão das reformas. Por último, a cooperação internacional é fundamental para manter a estabilidade financeira mundial e promover o crescimento econômico sustentável.

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Tobias Adrian é o Conselheiro Financeiro e Diretor do Departamento de Mercados Monetários e de Capitais do FMI. Nessa função, dirige o trabalho do FMI relacionado à supervisão do setor financeiro, às políticas monetária e macroprudencial, à regulação financeira, à gestão da dívida e aos mercados de capitais. Além disso, supervisiona as atividades de fortalecimento das capacidades nos países membros do FMI. Antes de ingressar no FMI, foi Vice-presidente Sênior do Federal Reserve Bank de Nova York e Diretor Adjunto do Grupo de Estudos e Estatística.

Tobias Adrian lecionou na Universidade de Princeton e na Universidade de Nova York e colaborou com numerosos artigos em publicações especializadas de economia e finanças, como American Economic Review,Journal of Finance, Journal of Financial Economics e Review of Financial Studies. Tem um doutorado do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), um mestrado da London School of Economics, um diploma da Universidade Goethe de Frankfurt e um mestrado da Universidade Dauphine de Paris. Recebeu seu diploma de bacharelado (A bitur) em Literatura e Matemática da Humboldtschule Bad Homburg.