Puerto Madero, Buenos Aires, Argentina: os países do G-20 precisam agir com rapidez e em conjunto para impulsionar o crescimento inclusivo (foto:  Florian Kopp imageBROKER/Newscom).

Puerto Madero, Buenos Aires, Argentina: os países do G-20 precisam agir com rapidez e em conjunto para impulsionar o crescimento inclusivo (foto: Florian Kopp imageBROKER/Newscom).

G-20: Dar um impulso ao crescimento inclusivo

28 de novembro de 2018

Puerto Madero, Buenos Aires, Argentina: os países do G-20 precisam agir com rapidez e em conjunto para impulsionar o crescimento inclusivo (foto: Florian Kopp imageBROKER/Newscom).

Enquanto os líderes do G-20 se reúnem na Argentina, a economia mundial atravessa um momento crítico. Tivemos um bom período de crescimento sólido pelos padrões históricos, mas agora alguns riscos significativos estão se materializando e nuvens mais escuras estão surgindo no horizonte.

Os dados econômicos mais recentes tem sido decepcionantes, mas não devemos titubear. Antes, devemos ser ambiciosos e implementar um conjunto multifacetado de reformas que poderiam acrescentar 4% ao crescimento do PIB dos países do G-20.

Para sermos bem sucedidos, precisamos agir com rapidez — e em conjunto.

Sinais de moderação do crescimento

O World Economic Outlook publicado pelo FMI em outubro previa um crescimento mundial de 3,7% em 2018 e 2019 – um recuo de 0,2 ponto percentual em relação às estimativas de julho, devido, sobretudo, às crescentes pressões externas e financeiras sobre os mercados emergentes e a um aumento palpável das tensões comerciais.

Dados recentes indicam que esses ventos contrários poderiam ter moderado o ímpeto de crescimento ainda mais do que prevíamos. Por exemplo, o crescimento no terceiro trimestre tem sido surpreendentemente baixo nas economias de mercados emergentes, como a China, e na área do euro. Além disso, um Brexit sem acordo poderia afetar ainda mais a confiança.

No médio prazo, sobretudo nas economias avançadas, prevemos uma moderação do crescimento devido à baixa produtividade e a fatores demográficos adversos. Isso abrange os EUA, tão logo o recente processo de estímulo fiscal chegue ao fim.

Além disso, em muitos países, a desigualdade excessiva não só está prejudicando muitas pessoas, mas também pode vir a solapar o apoio público a reformas que elevariam a produtividade.

O que pode ser feito para enfrentar esses desafios? Gostaria de destacar três prioridades.

Primeiro, fortalecer nossas defesas

As autoridades podem começar por gerar mais margem de manobra fiscal, de modo a dispor dos recursos necessários para aumentar o apoio à economia caso o crescimento se enfraqueça consideravelmente. Isso implica realizar uma consolidação fiscal significativa de imediato — sobretudo nos países altamente endividados, como a Itália, e em várias economias emergentes.

Em termos de política monetária, o processo atual de normalização das taxas de juros em muitas economias avançadas deve continuar a seguir uma trajetória gradual, bem comunicada e baseada em dados. Além de favorecer seus interesses próprios, isso também ajudaria a evitar turbulências desnecessárias para as demais economias.

A boa notícia é que a normalização da política monetária indica um crescimento relativamente forte nas economias avançadas. Nos últimos meses, porém, o aperto das condições monetárias — combinado com o aumento das tensões comerciais — intensificou as pressões externas sobre algumas economias de mercados emergentes (ver gráfico). Como elas podem reagir?

Os países com metas de inflação bem ancoradas devem recorrer à flexibilidade do câmbio para mitigar as pressões externas. Caso essas pressões ameacem provocar um impacto negativo, pode-se recorrer também a medidas de gestão do fluxo de capitais como parte de um conjunto de políticas mais amplo.

Segundo, trabalhar em equipe para vencer

Sabemos que, as crescentes barreiras comerciais são, em última análise, contraproducentes para todos os envolvidos. Assim, é imperioso que todos os países evitem impor novas barreiras comerciais e, em paralelo, abandonem as tarifas adotadas recentemente.

Temos uma oportunidade única de melhorar o sistema de comércio mundial. Estudos do FMI sugerem que a liberalização do comércio de serviços poderia acrescentar cerca de 0,5%, ou US$ 350 bilhões, ao PIB do G-20 no longo prazo.

Ao mesmo tempo, ações concertadas por parte de cada país podem fortalecer suas próprias economias, reduzir os desequilíbrios globais e impulsionar a economia mundial. Por exemplo, a Alemanha poderia usar seu espaço fiscal para fortalecer seu potencial de crescimento, ao aumentar o investimento e incentivar a participação na força de trabalho; os EUA poderiam ajudar se reduzissem seu déficit fiscal, e a China poderia contribuir se continuasse a reequilibrar sua economia.

Após uma década de condições financeiras relativamente brandas, muitos países também precisam enfrentar níveis recordes de endividamento: um total de US$ 182 trilhões em todo o mundo, segundo estimativas do FMI. Além disso, é mister aumentar a transparência sobre a magnitude e as condições dos empréstimos, sobretudo nos países de baixa renda.

Em termos mais gerais, os riscos no setor financeiro exigem iniciativa – por exemplo, ao evitar um retrocesso na regulamentação do setor financeiro aprovada após a crise.

Terceiro, acelerar o ritmo

O tema da presidência do G-20 na Argentina – Construir o consenso para um desenvolvimento equitativo e sustentável – é uma prioridade fundamental. No momento, porém, o progresso é lento demais. O que podemos fazer para acelerá-lo?

A maioria das economias avançadas do G-20 poderia se beneficiar do relaxamento das restrições no mercado de produtos para estimular a inovação e reduzir os preços. Facilitar o acesso a serviços profissionais seria de especial importância, por exemplo, no Japão e em muitos países da área do euro. Aumentar o apoio à pesquisa seria vital no Canadá, Alemanha e Reino Unido, entre outros.

A maioria dos países de mercados emergentes do G-20 também se beneficiaria de reformas nos mercados de produtos e de trabalho. Economias como Brasil, China, Índia e Rússia teriam a ganhar se conseguissem abrir mão de impostos distorcivos.

E praticamente em todo o mundo, aumentar a participação da mulher na força de trabalho não apenas impulsionaria o crescimento , mas também ajudaria a tornar as sociedades mais justas e inclusivas.

Essas são apenas algumas das medidas que, se aplicadas em conjunto, poderiam aumentar o PIB do G-20 em 4% , segundo nossos cálculos.

Conclusão

Nos dez anos transcorridos desde a primeira Cúpula dos Líderes do G-20, os esforços realizados pelo grupo foram cruciais para ajudar a economia mundial a se recuperar.

Ainda assim, começa-se a vislumbrar novamente nuvens mais escuras no horizonte.

Enfrentar esse desafio significa aplicar políticas que façam sentido nos planos nacional e internacional. Isso também significa fortalecer a rede de proteção financeira mundial, com um FMI bem aparelhado e dotado dos recursos necessários para assegurar que a instituição cumpra seu papel de ajudar os países a prevenir e enfrentar crises futuras.

A reunião do G-20 em Buenos Aires é o momento oportuno para agirmos de forma rápida e em conjunto.

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Christine Lagarde é Diretora-Geral do Fundo Monetário Internacional. Após cumprir seu primeiro mandato de cinco anos, foi renomeada para um segundo mandato em julho de 2016. Cidadã francesa, foi Ministra das Finanças da França de junho de 2007 a julho de 2011, tendo servido também como Ministra de Estado de Comércio Exterior por dois anos.

Christine Lagarde teve uma longa e destacada carreira como advogada especializada em direito concorrencial e trabalhista. Foi sócia do escritório de advocacia internacional Baker & McKenzie, do qual foi eleita presidente em outubro de 1999. Ocupou o cargo máximo do escritório até junho de 2005, quando foi indicada para sua primeira pasta ministerial na França. É formada pelo Instituto de Ciências Políticas (IEP) e pela Faculdade de Direito da Universidade Paris X, onde lecionou antes de ingressar no Baker & McKenzie em 1981.