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Como ajudar, e não atrapalhar, o crescimento mundial

5 de junho de 2019

Ao se reunirem nesta semana em Fukuoka, os ministros das finanças e governadores dos bancos centrais do G-20 poderiam buscar inspiração em sua cidade anfitriã. Conhecida como a “cidade das startups” do Japão, Fukuoka despontou nas últimas décadas ao abraçar o comércio, a inovação e a abertura.

Precisamos mais do que nunca desse espírito positivo, para ajudar areduzir as tensões comerciais e eliminar outros obstáculos à retomada de um crescimento mais elevado e mais sustentável. O objetivo deve ser ajudar, e não atrapalhar, o crescimento mundial.

Sinais de estabilização

Em abril, afirmei que a economia mundial estava em um “momento delicado”. O FMI reduziu sua previsão do crescimento mundial para 3,3% em 2019, em grande parte devido a fatores temporários e específicos de cada país e aos efeitos palpáveis das tensões comerciais. Ao mesmo tempo, projetamos uma retomada do crescimento no segundo semestre deste ano e uma nova aceleração para 3,6% em 2020, a mesma taxa de crescimento de 2018.

Nossa expectativa era que a atividade econômica mundial também fosse beneficiada pelo ritmo mais paciente de normalização monetária adotado pelo Fed nos EUA e pelo Banco Central Europeu, bem como pelo aumento do estímulo fiscal na China. De fato, essas medidas de política proporcionaram um apoio vital nos últimos meses, contribuindo para a flexibilização das condições financeiras e o aumento dos fluxos de capital para os mercados emergentes.

Os dados econômicos mais recentes efetivamente indicam que ocrescimento mundial pode estar se estabilizando, e de forma ampla como havíamos previsto. Por exemplo, embora a atividade econômica no primeiro trimestre tenha sido decepcionante em alguns países de mercados emergentes da Ásia e da América Latina, o crescimento foi mais forte do que o esperado nos Estados Unidos, na área do euro e no Japão.

Então, temos algumas boas novas, mas o caminho rumo a um crescimento mais forte continua precário. Por quê?

Obstáculos consideráveis

Quero destacar alguns dos obstáculos consideráveis que poderiam dificultar a retomada do crescimento:

Antes de mais nada, a retomada prevista do crescimento está cercada de incertezas . Será possível manter o ímpeto do primeiro trimestre nas economias avançadas? As melhorias previstas anteriormente em algumas economias sob pressão vão se materializar ou vão demorar mais do que o esperado? Como um Brexit sem acordo afetaria a confiança? E o recente aumento dos preços do petróleo vai deprimir ainda mais a atividade econômica?

Outro obstáculo éa vulnerabilidade subjacente da economia mundial. Os níveis de dívida privada, por exemplo, subiram a tal ponto que uma mudança repentina nas condições financeiras poderia desencadear saídas de capital disruptivas nos mercados emergentes.

Sabemos também que muitas economias estão enfrentando perspectivas de crescimento decepcionantes no médio prazo, não só em decorrência do envelhecimento da população e da baixa produtividade, mas também devido aos efeitos corrosivos de uma desigualdade econômica excessiva.

O agravamento das tensões comerciais

O mais importante é que crescem as preocupações quanto ao impacto das tensões comerciais atuais. O risco é que as tarifas mais recentes aplicadas pelos Estados Unidos e a China possam reduzir ainda mais o investimento, a produtividade e o crescimento. A proposta americana de impor novas tarifas ao México também é preocupante.

De fato, há fortes indícios de que os Estados Unidos, a China e a economia mundial saem perdendo em consequência das tensões comerciais atuais (ver gráfico).

Estimamos que as tarifas recém-anunciadas e contempladas entre os EUA e a China poderiam subtrair cerca de 0,3% do PIB mundial em 2020, com mais da metade do impacto decorrendo dos efeitos sobre a confiança das empresas e do sentimento negativo dos mercados financeiros.

No geral, estimamos que as tarifas impostas por EUA e China, incluídas as adotadas no ano passado, poderiam reduzir o PIB mundial em 0,5% em 2020 (ver gráfico, painel inferior). Trata-se de uma perda equivalente a cerca de US$ 455 bilhões, superior ao tamanho da economia da África do Sul.

Chart 1

Essas são feridas autoinfligidas, que devem ser evitadas. Mas como? Eliminando as barreiras comerciais adotadas recentemente e abstendo-se de impor novas barreiras de qualquer tipo.

O fato é que as medidas protecionistas não só estão prejudicando o crescimento e o emprego, mas também tornando os bens de consumo comercializáveis menos acessíveis, o que afeta desproporcionalmente as famílias de baixa renda.

O G-20 pode ajudar

Então como as autoridades do G-20 podem ajudar a remover esses obstáculos e apoiar a retomada do crescimento?

A prioridade imediata é resolver as tensões comerciais atuais e, ao mesmo tempo, acelerar a modernização do sistema de comércio internacional. Isso passa pela formação de um consenso entre os países sobre como fortalecer as regras da OMC, especialmente sobre os subsídios, a propriedade intelectual e o comércio de serviços. O objetivo é criar um sistema comercial mais aberto, mais estável e mais transparente, bem equipado para atender às necessidades das economias do século XXI.

Por exemplo, estudos do FMI mostram que a liberalização do comércio de serviços poderia acrescentar cerca de US$ 350 bilhões ao PIB mundial no longo prazo. Ganhos como esse são cruciais para que o comércio cumpra sua função de elevar o padrão de vida e gerar novos empregos com salários melhores.

Enquanto os países consertam o sistema comercial, precisam também colaborar para reformar a tributação das empresas internacionais, fortalecer a rede de proteção financeira mundial e enfrentar a ameaça existencial da mudança climática.

Aumentar a resiliência e a inclusão

Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer que a dívida pública elevada e os juros baixos deixaram muitos países com uma margem de manobra limitada. Vencer esse desafio exige políticas fiscais calibradas cuidadosamente, para encontrar o ponto de equilíbrio entre o crescimento, a sustentabilidade da dívida e os objetivos sociais.

Também precisamos enfrentar os deslocamentos causados pelo comércio e pela inovação tecnológica e, ao mesmo tempo, fazer mais para apoiar os que foram deixados para trás.

E precisamos de mais reformas estruturais: da redução de barreiras à entrada no varejo e nos serviços profissionais, até o incentivo à maior participação das mulheres na força de trabalho. É claro que cada país ajustará as reformas de modo a atender às suas necessidades específicas, mas estimamos que medidas como essas, se adotadas em conjunto, poderiam dar ao PIB do G-20 um impulso de 4% no longo prazo .

É importante ressaltar que também tornariam o crescimento mais resiliente e inclusivo.

Se o crescimento titubear, a saída é a coordenação

Mesmo com todo esse esforço para apoiar a recuperação, os países precisam se perguntar: “mas e se…?”

Quando a próxima contração chegar, o que é inevitável, as autoridades talvez precisem lançar mão de todas as ferramentas de política para maximizar seu efeito combinado. Isso significa apoiar a demanda por meio da aplicação firme de um relaxamento da política monetária e de um estímulo fiscal, sempre que possível. Significa também usar essas políticas de apoio para intensificar o impacto das reformas estruturais onde a demanda é fraca.

Nossa nota sobre o G-20 simula um choque econômico negativo e as respostas de política subsequentes (ver gráfico, painel superior). Em um cenário, o produto do G-20 se recupera muito mais rápido e de uma forma mais sustentável se forem usadas todas as ferramentas de política.

Além disso, a coordenação das políticas não deve cessar na fronteira. Nossa simulação de uma desaceleração mostra que, se todos os países agirem de forma decisiva para estimular seu próprio crescimento, as repercussões positivas se reforçarão mutuamente. E como todos estarão trabalhando para acelerar o crescimento, todos serão beneficiados pelos esforços dos demais para produzir um efeito global bem maior (ver gráfico, painel inferior).

Chart 2

Conclusão

Naturalmente, a cooperação internacional não é necessária apenas em uma possível contração. Ela é fundamental agora, porque todos os países continuam a enfrentar um momento delicado. Como diz o provérbio japonês: “ Atravesse um rio raso como se ele fosse profundo”.

Para os países do G-20, atravessar o rio significa trabalhar em parceria para ajudar, e não atrapalhar, a esperada aceleração do crescimento .

Ao adotar o “espírito de abertura” de Fukuoka, as autoridades podem ajudar a remover os obstáculos e posicionar a economia mundial em uma trajetória mais duradoura e inclusiva.