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(Foto: Tupungato/iStock)

Perspectivas para a América Latina e o Caribe: Uma recuperação estagnada

29 de julho de 2019

A atividade econômica na América Latina e Caribe permanece avançando lentamente. O PIB real deve crescer 0,6% em 2019 — a taxa mais baixa desde 2016 — para então subir para 2,3% em 2020.

Esse fraco dinamismo reflete surpresas negativas no primeiro semestre de 2019, a elevada incerteza em torno das políticas econômicas em algumas das grandes economias da região, o aumento das tensões comerciais entre os EUA e a China, e um crescimento mundial um pouco menor.

Crescimento mais lento

A atividade econômica anêmica no primeiro semestre deste ano reflete em grande parte fatores temporários, como condições climáticas adversas que reduziram a produção da mineração no Chile e a safra agrícola no Paraguai. A atividade mineradora no Brasil moderou-se após o desastre da barragem de Brumadinho, enquanto o crescimento no México enfraqueceu-se devido a uma execução orçamentária abaixo do esperado, a greves e à escassez de combustível.

A elevada incerteza acerca das políticas econômicas em algumas economias de grande porte na região também contribuiu para o fraco dinamismo do crescimento. No Brasil, as preocupações com o cronograma e abrangência da tão necessária reforma da previdência — um projeto de lei tramita atualmente no Congresso — mantiveram a incerteza em torno das políticas acima das médias históricas.

De maneira análoga, no México, a incerteza permanece alta devido à reversão de certas políticas, sobretudo no que diz respeito às reformas nos setores de energia e educação. Além disso, continua a preocupação com a saúde financeira e as perspectivas da Pemex. Já na Argentina, a incerteza diminuiu e, mais recentemente, a inflação começou a cair, em meio a uma retomada da atividade econômica.

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O crescimento mundial mais fraco e a persistência das tensões comerciais entre os EUA e a China também prejudicaram a América Latina através do seu impacto sobre os preços das commodities e sobre as exportações [atualização do WEO].

Riscos: externos e internos

Os riscos para as perspectivas econômicas continuam a apontar no sentido de uma deterioração, incluindo-se uma nova escalada das tensões comerciais entre os EUA e a China, uma desaceleração nas principais economias e condições financeiras mundiais mais restritivas.

Os principais riscos internos incluem um novo aumento da incerteza em torno das políticas econômicas, a reversão das reformas e a ocorrência de desastres naturais. Embora os fluxos de carteira tenham sido fortes no início deste ano, recuaram em maio e junho e podem cair ainda mais caso os riscos de deterioração venham a se materializar.

Em vista das fracas perspectivas de crescimento e dos consideráveis riscos de deterioração da conjuntura, as políticas econômicas precisarão encontrar um equilíbrio entre o apoio ao crescimento e a reconstrução de suas margens de manobra.

Políticas: uma abordagem equilibrada

A consolidação fiscal continua a ser uma prioridade em muitos países da região, dados os níveis elevados de endividamento público. Isso provavelmente reduzirá o crescimento, mas seus efeitos contracionistas podem ser atenuados se o investimento público e as despesas sociais bem focalizadas forem preservadas e, ao mesmo tempo, aumentarem a arrecadação e cortarem gastos não prioritários.

À luz da desaceleração do crescimento mundial e de uma tendência de os principais bancos centrais das economias avançadas adotarem uma orientação mais expansionista, a política monetária pode continuar a apoiar o crescimento na região, sobretudo se forem levados em conta as expectativas de inflação bem ancoradas, os hiatos do produto negativos e as pressões inflacionárias de modo geral moderadas na maioria dos países. Contudo, convém continuar a monitorar a alavancagem das empresas e dos domicílios para proteger a estabilidade financeira.

Além das políticas para apoiar uma recuperação cíclica, as reformas estruturais continuam a ser um imperativo e devem ser aceleradas para impulsionar o crescimento potencial. Entre elas, destacam-se uma maior abertura das economias ao comércio e ao investimento direto estrangeiro, uma flexibilização da regulamentação nos mercados de produtos e de trabalho, o aumento da concorrência e a melhoria da qualidade do capital físico e humano.

América do Sul:

Na Argentina, a economia está se recuperando gradualmente da recessão do ano passado. Segundo as projeções, o crescimento do PIB aumentará para -1,3% em 2019 e 1,1% em 2020 graças à retomada da produção agrícola e à reconstrução gradativa do poder de compra do consumidor, após a forte compressão dos salários reais do ano passado. A expectativa é que a inflação continue a cair. No entanto, dado que a inflação mostrou-se mais persistente do que o esperado, os juros reais terão de permanecer mais elevados por mais tempo, o que explica uma revisão para baixo do crescimento do PIB em 2020.

No Brasil, o crescimento deve permanecer moderado, na casa de 0,8% em 2019, e acelerar para 2,4% em 2020, desde que uma reforma robusta da previdência seja aprovada, a confiança seja retomada, o investimento se recupere e a política monetária permaneça acomodatícia. Além do êxito na aprovação da reforma da previdência, uma redução contínua do déficit fiscal nos próximos anos continua a ser fundamental para a sustentabilidade da dívida pública. Para impulsionar o crescimento potencial, o Brasil precisa de reformas estruturais decisivas, como uma reforma tributária, privatizações, a liberalização do comércio e medidas para aumentar a eficiência da intermediação financeira.

No Chile, o crescimento deve permanecer robusto, na casa de 3,2% em 2019 e 3,4% em 2020, apoiado por uma política monetária expansionista e pela anunciada aceleração dos projetos de investimento. Entretanto, o balanço de riscos continua a apontar para uma deterioração, sobretudo à luz da debilidade dos dados de atividade econômica recentes e do desempenho das exportações. A convergência gradual da inflação para a meta do Banco Central deve ser facilitada pela recente flexibilização da política monetária, enquanto a política fiscal deve continuar a ser orientada pela meta para o saldo estrutural das autoridades. Considerando a elevada incerteza mundial, chegar a um amplo acordo sobre as reformas pendentes será crucial para apoiar a confiança interna.

Na Colômbia, a recuperação deve continuar em 2019 apesar dos ventos externos contrários. A política monetária acomodatícia, as despesas dos governos subnacionais em um ano de eleição, a migração da Venezuela, a implementação continuada de projetos de infraestrutura 4G e o impacto positivo das recentes reformas fiscais sobre o investimento apoiarão a demanda interna e elevarão o crescimento para cerca de 3,5% em 2019-20. A inflação deve permanecer próxima da meta, apesar dos choques de oferta temporários. A expectativa é que a meta para o déficit público recém-anunciada pelo governo [link to recent Colombia blog] para 2019 seja cumprida. Contudo, a redução dos impostos sobre a pessoa jurídica a partir de 2020, embora impulsione o investimento e o crescimento, pode resultar numa queda da arrecadação.

No Peru, as projeções de crescimento foram revisadas para baixo, ainda que ligeiramente, para 3,7% em 2019, devido ao fraco desempenho no primeiro trimestre. Os riscos de deterioração continuam a ser importantes, incluindo-se a queda dos preços das commodities, a continuação das tensões comerciais e a baixa execução do investimento público. Segundo as projeções, o crescimento se estabilizará em torno de 4,0% no médio prazo, com uma demanda interna privada robusta compensando uma consolidação fiscal gradual. A inflação deve se manter dentro do intervalo de 1% a 3% fixado pela autoridade monetária.

Na Venezuela, a crise econômica e humanitária continua a se agravar. O PIB real deve cair 35% em 2019, elevando o declínio acumulado estimado para mais de 60% desde 2013. Segundo as projeções, a hiperinflação vai continuar e a migração para o exterior vai se intensificar, e a previsão é que o total de migrantes da Venezuela ultrapasse os 5 milhões até o fim de 2019. Esse êxodo está gerando efeitos secundários consideráveis em outros países da região.

México, América Central e Caribe

No México, o crescimento foi revisado para 0,9% em 2019 devido à queda do dinamismo e à elevada incerteza em torno das políticas econômicas, mas a previsão é que atinja 1,9% em 2020 à medida que as condições se normalizem. O cumprimento da meta para o déficit fiscal em 2019 — bem como a aprovação de um orçamento prudente para 2020 — será importante para provar o compromisso do governo de manter a responsabilidade fiscal e evitar um aumento da relação dívida pública/PIB. O avanço de reformas estruturais que aumentem a produtividade continua a ser crucial para impulsionar o crescimento potencial do México a médio prazo.

Na América Central, Panamá e República Dominicana , a previsão é que o crescimento continue em 2019-20, apesar das revisões para baixo. As condições externas tiveram uma melhora marginal com o declínio dos juros mundiais. No entanto, os termos de troca não se recuperaram da queda do ano passado. As perspectivas de crescimento na Costa Rica e no Panamá foram reduzidas para 2019, refletindo um enfraquecimento da atividade maior do que o previsto até agora neste ano.

A Guatemala está sendo beneficiada por um impulso fiscal, enquanto Honduras ainda está enfrentando termos de troca desfavoráveis. Em El Salvador, o crescimento continua a ser impelido pelo investimento, enquanto a continuação das tensões políticas na Nicarágua está prejudicando consideravelmente a atividade no país. Uma forte contração das condições financeiras externas e uma nova escalada das tensões do comércio mundial ainda despontam como riscos proeminentes de deterioração da conjuntura.

No Caribe, as perspectivas econômicas estão melhorando de modo geral, mas com uma variação substancial entre os países. A previsão é que o crescimento das economias dependentes do turismo se fortaleça e atinja 2% em 2019-20, apoiado por um crescimento ainda forte nos EUA — o principal mercado para o turismo na região — e pela continuação da reconstrução após os furacões de 2017.

Com a melhoria da produção de energia e o aumento dos preços das commodities, os países exportadores desses produtos devem registrar uma modesta recuperação do crescimento, exceto a Guiana, onde o início da produção de petróleo em 2020 dará um impulso substancial à economia.

De forma mais geral, o crescimento regional continua a ser prejudicado por problemas estruturais persistentes, como a dívida pública elevada, o fraco acesso a financiamento, o alto desemprego e a vulnerabilidade aos choques relacionados às commodities e ao clima.

Table

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Alejandro Werner assumiu o cargo de Diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional em janeiro de 2013. Cidadão mexicano, construiu uma carreira de destaque nos setores público e privado, assim como no meio acadêmico. Foi Subsecretário da Fazenda e Crédito Público do México de dezembro de 2006 a agosto de 2010, professor de Economia no Instituto de Empresa de Madri, Espanha, de agosto de 2010 a julho de 2011 e Chefe do Setor Corporativo e de Investimentos do BBVA-Bancomer de agosto de 2011 ao fim de 2012.

Foi também Diretor de Estudos Econômicos do Banco do México e professor no Instituto Tecnológico Autônomo do México (ITAM). É autor de numerosos trabalhos e foi apontado Jovem Líder Mundial pelo Fórum Econômico Mundial em 2007. Doutorou-se pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em 1994.