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(foto: Gremlin/iStock by Getty Images)

A economia dos dados

23 de setembro de 2019

Olhe para a economia mundial e você verá uma empresa americana trabalhando na próxima geração de veículos autônomos, uma financeira chinesa concedendo empréstimos a pequenos comerciantes que não costumavam ter acesso a crédito, e pesquisadores de uma empresa farmacêutica suíça desenvolvendo um tratamento para um problema crônico de saúde.

O que todas essas atividades econômicas valiosas têm em comum, apesar de estarem ocorrendo em diferentes continentes e em diferentes setores da economia?

Se tivéssemos feito essa pergunta às empresas internacionais há 30 anos, a resposta provavelmente teria sido “quase nada”. Hoje, porém, a resposta é clara. Todas elas dependem de um insumo indispensável: dados. Muitos e muitos dados.

Muitas das maiores empresas do mundo, tanto de tecnologia quanto de outros setores, adotaram modelos de negócios que giram em torno dos dados. O valor de empresas que fazem uso intensivo de dados, como Alibaba, Alphabet e Facebook, disparou. Alguns se perguntam se os dados seriam o novo petróleo.

Em nosso novo artigo, exploramos alguns insights da economia para pensar sobre as implicações da proliferação de dados e o que isso significa para as políticas modernas nessa área. A cooperação entre os órgãos reguladores, nos planos nacional e internacional, será fundamental para enfrentar os desafios associados ao aumento do fluxo de dados.

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Primeiro, a economia

Dados são informações. Assim, o ato de coletá-los e comercializá-los cria e transfere informações entre empresas e consumidores — para o bem e para o mal. Em dispositivos móveis em todo o mundo, as redes sociais e as empresas de busca rastreiam seus usuários para oferecer serviços novos e individualizados que tenham mais chance de agradá-los.

O acesso a um maior volume de dados está ajudando a nivelar o campo de jogo, seja para uma pequena startup que obtém um empréstimo, seja para um consumidor que procura se informar antes de comprar um carro usado. Mas pode também significar que a cobertura de um plano de saúde ou o crédito imobiliário para a compra de um imóvel podem ser rejeitados por causa de características pessoais.

Os dados são hoje um insumo básico na produção econômica moderna, ao lado da terra, do capital, da mão de obra e do petróleo. Alimentam algoritmos de inteligência artificial cujas previsões impulsionam aplicações que vão de veículos autônomos a testes de medicamentos; da concessão de crédito à segmentação de anúncios.

Mas os dados são diferentes de outros insumos, como o petróleo, em muitos sentidos importantes. Os mesmos dados podem ser usados por muitas pessoas simultaneamente sem que se esgotem, o que significa que a sua acumulação favorece o aumento da produtividade e o crescimento a longo prazo. O valor dos dados é liberado quando eles podem ser acessados por muitas empresas ou pesquisadores, que então concorrem para inovar e gerar conhecimento.

Outra diferença é que, quando duas empresas trocam dados pessoais de alguém, a transação afeta a privacidade da pessoa e pode deixá-la em uma desvantagem estratégica. Se essa pessoa não for compensada ou mesmo informada desse intercâmbio, o mercado de dados pode gerar danos desnecessários que nos deixam em uma situação pior.

Por último, prevenir o roubo ou o uso indevido de dados por terceiros custa caro. Será que as empresas gastarão o suficiente para proteger os dados que coletarem? Preservar a reputação constitui um forte incentivo para evitar uma grande violação de dados, mas é pouco provável que cada empresa considere de que modo suas decisões afetam a confiança do público na economia de dados como um todo.

Rumo a políticas de dados mais modernas

A proliferação de dados na economia oferece uma tremenda oportunidade para impulsionar o crescimento por meio da eficiência e da inovação. Mas para fazer isso sem comprometer outros objetivos, como a privacidade, a equidade e a estabilidade, argumentamos que os governos precisam modernizar as políticas atuais para fazer face a três desafios crescentes.

· Primeiro, os mercados de dados são muito obscuros — embora a maioria de nós participe da economia de dados todos os dias, não sabemos exatamente como nossos dados são usados, transferidos e processados. Isso resulta na coleta de um enorme volume de dados, mas em pouquíssima privacidade. As políticas públicas devem esclarecer os direitos e obrigações em matéria de dados para que o mercado funcione de maneira eficiente.

· Segundo, as empresas que acumulam grandes conjuntos de dados têm um incentivo para guardá-los para si. Isso pode reprimir a concorrência e reduzir os benefícios sociais que poderiam advir de um acesso mais amplo aos dados. Os governos podem implementar uma série de políticas de estímulo ao compartilhamento de dados para promover a concorrência e a inovação, ao mesmo tempo em que se respeita a privacidade.

· Terceiro, não está claro se as empresas estão fazendo o suficiente para proteger os dados em seu poder contra roubo e uso indevido. Isso ameaça a confiança do público e cria riscos para a estabilidade, que devem ser mitigados por políticas para assegurar o investimento suficiente em cibersegurança.

Enfrentar esses desafios exigirá cooperação, tanto entre os órgãos nacionais como na esfera internacional. Tradicionalmente, as questões que envolvem crescimento, privacidade, concorrência e estabilidade têm sido tratadas por ministérios e órgãos reguladores distintos. Uma política de dados eficaz exigirá uma abordagem integrada para administrar trade-offs complexos.

A cooperação mundial também se faz necessária para afastar o risco de fragmentação da economia digital, com o acesso aos dados limitado pelas fronteiras nacionais. Se os países não confiarem na forma como seus parceiros globais lidam com os dados, podem decidir erguer barreiras digitais para impedir o compartilhamento internacional de dados, minando a inovação e a eficiência.

A economia dos dados aponta para um futuro promissor, desde que formulemos as políticas certas hoje.

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Yan Carrière-Swallow é economista na Unidade Macrofinanceira do Departamento de Estratégia, Políticas e Avaliação do FMI. Seus estudos abrangem temas diversos da macroeconomia internacional, com foco nos mercados emergentes e suas políticas. Antes de ingressar no FMI em 2012, foi economista do Banco Central do Chile, em Santiago.

Vikram Haksar é Diretor Adjunto no Departamento de Estratégia, Políticas e Avaliação do FMI. Nessa função, atualmente lidera o trabalho sobre finanças e tecnologia, análise macrofinanceira e políticas para avaliar e tratar os riscos para a estabilidade financeira. Foi autor principal dos mais importantes documentos do FMI sobre as fintechs e, mais recentemente, da Agenda Fintech de Bali. Antes disso, dirigiu trabalhos de revisão sobre a supervisão mundial, as perspectivas do G-20 e a análise do contágio. Anteriormente, foi o chefe da missão do FMI para o Brasil durante a “guerra cambial” e liderou a equipe do FMI que estruturou o acordo de US$ 70 bilhões com o México no âmbito da Linha de Crédito Flexível em 2009, na esteira da quebra do Lehman Brothers. Trabalhou com economias emergentes da Ásia — como a Tailândia durante a crise asiática — e da Europa Oriental e foi o representante residente do Fundo nas Filipinas. Doutorou-se pela Universidade de Cornell.