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(foto: xavieramau/iStock by Getty Images)

O possível impacto da epidemia do coronavírus: o que sabemos e o que

13 de março de 2020

Todos reconhecemos que a situação criada com a propagação do coronavírus é muito grave e pode até piorar. Isso afeta a nós todos. Gostaria de falar sobre o que sabemos e o que ainda não sabemos sobre o coronavírus, e como a comunidade mundial pode apoiar aqueles afetados por esta crise de uma forma eficaz e coordenada.

O que sabemos

Sabemos que a doença está se alastrando rapidamente. Com mais de um terço de nossos países membros diretamente afetados, não se trata mais de uma questão regional – é um problema mundial que exige uma resposta mundial.

Sabemos também que, em algum momento, essa doença vai recuar, mas não sabemos quando isso acontecerá.

Sabemos que esse choque é um tanto incomum, pois afeta elementos significativos tanto da oferta como da demanda:

  • A oferta será abalada pela morbidade e mortalidade, mas também pelos esforços de contenção que restringem a mobilidade e pela elevação dos custos de fazer negócios devido a limitações das cadeias de produção e a um aperto do crédito.

  • A demanda também cairá devido à maior incerteza, ao comportamento mais precavido, aos esforços de contenção e à elevação dos custos financeiros, que reduzem a capacidade de gastar.

  • Esses efeitos serão sentidos além das fronteiras.

A experiência sugere que cerca de um terço dos prejuízos econômicos decorrentes da doença assumirá a forma de custos diretos, impostos pela perda de vidas, o fechamento de locais de trabalho e as quarentenas. Os dois terços restantes serão indiretos, refletindo uma retração na confiança dos consumidores e o comportamento das empresas, assim como um aperto nos mercados financeiros.

A boa notícia é que os sistemas financeiros estão mais resilientes do que antes da crise financeira mundial de 2008. Contudo, nosso maior desafio no momento é enfrentar a incerteza.

Em qualquer cenário, o crescimento da economia mundial em 2020 será inferior ao do ano passado. A magnitude e a duração dessa queda são difíceis de prever; dependem da epidemia, mas também da oportunidade e eficácia de nossas medidas.

Isso é ainda mais complexo no caso dos países com sistemas de saúde e capacidade de resposta mais fracos – o que requer um mecanismo de coordenação global para acelerar a recuperação da demanda e da oferta.

Como responder no plano interno

A prioridade em termos de resposta fiscal é assegurar os gastos de saúde de primeira ordem para proteger o bem-estar das pessoas, cuidar dos doentes e retardar a propagação do vírus. Nunca é demais reiterar a urgência de intensificar as medidas de saúde – e a necessidade de garantir a produção de suprimentos médicos para que a oferta atenda à demanda.

Segundo, talvez sejam necessárias medidas de política macrofinanceira para fazer face aos choques na oferta e na demanda acima referidos. O objetivo deve ser ações de resultados garantidos que atenuem e abreviem o impacto econômico. Tais ações devem ser oportunas e direcionadas para os setores, empresas e famílias mais atingidos.

Um enfraquecimento generalizado da demanda por meio dos canais de confiança e de efeitos secundários – como o comércio e o turismo, os preços das commodities e o aperto das condições financeiras – exigiria uma resposta adicional na forma de políticas para apoiar a demanda e assegurar uma oferta de crédito suficiente.

Terceiro, será também necessária liquidez suficiente para neutralizar os riscos para a estabilidade financeira.

Em suma: a situação está evoluindo rapidamente e devemos estar preparados para dar uma resposta mais agressiva e coordenada se as condições o exigirem. Nesse sentido, considero positiva a declaração feita ontem pelo G-7 de que estão prontos para cooperar mais em medidas oportunas e eficazes.

O que o FMI pode fazer

Da nossa parte, o FMI está pronto para ajudar seus países membros. O Fundo está disponibilizando cerca de US$ 50 bilhões por meio de seus mecanismos de financiamento de emergência de desembolso rápido para países de baixa renda e de mercados emergentes que possam solicitar apoio. Desse montante, US$ 10 bilhões estão disponíveis a juro zero para os países membros mais pobres por meio da Linha de Crédito Rápido.

Muitos países membros estão em situação de risco, como aqueles com sistemas de saúde precários, os que não têm margem de manobra suficiente para aplicar políticas, os exportadores de commodities expostos a choques nas relações de troca, além de outros especialmente vulneráveis a efeitos secundários.

Preocupo-me em especial com nossos países membros de baixa renda e os mais vulneráveis, pois as necessidades de financiamento desses países podem crescer rapidamente à medida que o custo econômico e humano do vírus aumente.

Nossos especialistas estão trabalhando para identificar os países vulneráveis e estimar as possíveis necessidades de financiamento caso a situação se deteriore ainda mais.

O FMI dispõe de recursos para apoiar os países membros:

  • Graças à generosidade de nossos acionistas, nossa capacidade total de financiamento é de cerca de US$ 1 trilhão.

  • No caso dos países de baixa renda, dispomos de até US$ 10 bilhões (50% da cota dos países membros habilitados) em financiamento de emergência de desembolso rápido que pode ser acessado sem formalizar um programa com o FMI.

  • Outros países membros podem ter acesso a financiamento de emergência por meio do Instrumento de Financiamento Rápido. Neste caso, poderíamos disponibilizar cerca de US$ 40 bilhões para países de mercados emergentes que solicitem nosso apoio financeiro.

  • Temos também o Fundo Fiduciário para Alívio e Contenção de Catástrofes (CCRT, na sigla em inglês), que oferece aos países habilitados acesso imediato a donativos para alívio da dívida com o FMI. O CCRT mostrou-se eficaz durante o surto do ebola em 2014, mas seus recursos atuais somam pouco mais de US$ 200 milhões, para fazer face a necessidades que podem ultrapassar US$ 1 bilhão. Instei os países membros a ajudar a garantir a recomposição total desse instrumento financeiro, para que esteja pronto para a crise atual.

    Em poucas palavras, o FMI está totalmente empenhado em apoiar nossos países membros, sobretudo os mais vulneráveis; dispomos das ferramentas para ajudá-los e estamos trabalhando em estreita coordenação com nossas instituições parceiras.

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Kristalina Georgieva (biografia disponível na página principal)