Alguns dizem que é preciso escolher: salvar vidas ou salvar empregos – este é um falso dilema

3 de abril de 2020

À medida que o mundo responde à pandemia de COVID-19, muitos países confrontam a necessidade de conter a propagação do vírus à custa da paralisação de suas sociedades e economias.

Parece uma escolha difícil: salvar vidas ou salvar empregos. Trata-se de um falso dilema – controlar a propagação do vírus é antes de tudo um pré-requisito para salvar as economias.

Isso é o que aproxima a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) – a OMS existe para proteger a saúde das pessoas e é quem deve ditar as prioridades nesta área; o FMI existe para proteger a saúde da economia mundial, aconselhar sobre prioridades econômicas e conceder empréstimos.

Nosso apelo conjunto aos governantes, sobretudo nos países emergentes, é para que reconheçam que proteger a saúde pública e ajudar as pessoas a voltar ao trabalho são objetivos indissociáveis.

Tanto a OMS quanto o FMI estão na linha de frente da crise, em suas respectivas especialidades. No curto período desde que a COVID-19 começou a se alastrar pelo mundo, a procura por empréstimos do FMI disparou. Nunca, nos 75 anos de história da instituição, tantos países – 85 até agora –recorreram a financiamentos de emergência do FMI, que estáo sendo disponibilizados em tempo recorde: os primeiros pedidos já foram aprovados e os recursos desembolsados para prestar assistência urgentemente necessária para proteger os países do aumento dramático de despesas num momento de queda abrupta da atividade econômica e da receita.

À medida que os recursos começam a chegar para reforçar orçamentos severamente pressionados nos países mais necessitados, nosso apelo conjunto é para que a saúde esteja no topo da lista de prioridades. Pagar salários de médicos e enfermeiros, apoiar hospitais e prontos‑socorros, montar hospitais de campanha, comprar equipamentos de proteção e suprimentos médicos essenciais, realizar campanhas de conscientização do público sobre medidas simples como lavar as mãos – são todos investimentos fundamentais para proteger as pessoas contra a pandemia.

Os sistemas de saúde de muitos países estão despreparados para atender o enorme fluxo de pacientes da COVID-19, e é fundamental fortalecê-los. E isto pode e deve ser feito ao mesmo tempo em que se tomam medidas mais amplas para reduzir o desemprego, minimizar as falências e, com o tempo, assegurar a recuperação.

As medidas econômicas complementam – e não substituem – os gastos com a saúde, e se destinam a prestar auxílio direto às famílias e empresas mais afetadas, por meio de transferências monetárias, subsídios salariais e redução da jornada de trabalho, reforço do seguro-desemprego e das redes de proteção social e limites ao aumento dos custos financeiros.

Reconhecemos o quanto é difícil encontrar o ponto de equilíbrio. A atividade econômica está em queda livre, por causa do aumento no número de infecções e das medidas tomadas para combater a pandemia, que afetam trabalhadores, empresas e cadeias de suprimentos; o desemprego e a incerteza provocam redução de consumo; há menos crédito disponível e o colapso do preço do petróleo atinge os exportadores de commodities – e tudo isso causa repercussões globais.

Em países em que a economia informal é grande, as famílias dependem da renda diária para sobreviver. Nos bairros mais pobres e densamente povoados, o distanciamento social é impossível.

Contudo, estamos convencidos de que as medidas econômicas de emergência só funcionarão se os países encontrarem esse equilíbrio. A OMS pode ajudar em áreas essenciais de coordenação, como garantir a produção e distribuição eficiente e justa de equipamento médico, ao facilitar acordos de compra antecipada, por exemplo.

A OMS tem trabalhado com fornecedores de equipamento de proteção pessoal para profissionais da saúde, para garantir o funcionamento das cadeias de suprimentos. E esta é uma área em que a colaboração com outras organizações internacionais pode ser muito eficaz – por exemplo, aproveitar a capacidade do Banco Mundial de agregar demanda para adquirir suprimentos médicos em grandes quantidades.

O FMI, por sua vez, vai ajudar dobrando suas linhas de crédito de emergência, de US$ 50 bilhões para US$ 100 bilhões – para que os países possam acessar o dobro do que teriam obtido no passado. O total de fundos disponíveis para empréstimo chega a US$ 1 trilhão, graças à atuação decisiva dos países membros.

O FMI está também ampliando sua capacidade de aliviar o serviço de dívida de seus países membros mais pobres por meio do Fundo Fiduciário para Alívio e Contenção de Catástrofes, que está recebendo doações generosas. E, juntamente com o Banco Mundial, o Fundo defende o congelamento do serviço da dívida dos países mais pobres junto a credores bilaterais oficiais, enquanto a economia mundial estiver paralisada pela pandemia.

A evolução da crise sanitária e o destino da economia global estão indissoluvelmente ligados. Combater a pandemia é uma condição necessária para a recuperação econômica. Por isso, a OMS e o FMI estão trabalhando juntos e com outros organismos internacionais para ajudar os países a suprir suas necessidades mais básicas.

O tempo é curto, e os recursos, escassos. Por isso, é necessário trabalhar juntos e nos concentrarmos nas prioridades certas para salvar vidas e economias. Nosso apelo conjunto é para que, num dos momentos mais sombrios da humanidade, os líderes dos países emergentes façam o for preciso para proteger seus cidadãos.

  • Kristalina Georgieva é Diretora-Geral do FMI; Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus é Diretor-Geral da OMS.