(foto: UNPhoto/Martine Perret)

Como as pandemias deixam os pobres mais pobres

11 de maio de 2020

A crise da COVID-19 já é amplamente considerada a pior calamidade econômica desde a Grande Depressão. Em janeiro, o FMI previa que a renda mundial iria crescer 3%; suas atuais previsões são de uma queda de 3%, muito pior do que durante a Grande Recessão de 2008–09. E por trás desse número sombrio há uma possibilidade ainda mais desoladora: a julgar por pandemias anteriores, o golpe será muito pior para os segmentos mais pobres e vulneráveis da sociedade. De fato, uma sondagem recente entre economistas de prestígio revelou que a grande maioria acredita que a pandemia de COVID-19 irá exacerbar a desigualdade, em parte devido a seu impacto desproporcional sobre os trabalhadores pouco qualificados.

Nossos dados corroboram essa preocupação com o efeito distributivo negativo da pandemia. Constatamos que as grandes epidemias deste século elevaram a desigualdade de renda e prejudicaram as perspectivas de emprego daqueles com educação básica, porém praticamente não afetaram aqueles com curso superior.


 

Concentramos nossa atenção em cinco grandes eventos – SARS (2003), H1N1 (2009), MERS (2012), Ebola (2014) e Zika (2016) – e acompanhamos seus efeitos distributivos nos cinco anos posteriores a cada evento. Em média, o coeficiente de Gini – um indicador de desigualdade de uso corrente – aumentou a um ritmo constante na sequência desses eventos. Nosso cálculo do coeficiente de Gini tem como base a renda líquida, ou seja, a renda de mercado após a dedução de impostos e transferências. Os resultados mostram que a desigualdade aumenta apesar dos esforços do governo para redistribuir a renda dos ricos para os pobres a fim de mitigar os efeitos das pandemias. Após cinco anos, o coeficiente de Gini líquido aumenta quase 1,5%, o que representa um impacto elevado, uma vez que a evolução desse indicador ao longo do tempo é lenta.

 

Esses efeitos duradouros das pandemias decorrem da perda de emprego e outros choques na renda (p.ex. diminuição das remessas) e da deterioração das perspectivas de emprego. Nossos resultados mostram que as pandemias produzem efeitos bastante díspares sobre o emprego das pessoas com diferentes graus de escolaridade, um dos indicadores dos níveis de qualificação. A disparidade é nítida: em relação à população, o emprego daqueles com alto nível de escolaridade quase não é afetado, enquanto o emprego daqueles com escolaridade básica cai drasticamente, mais de 5% ao final de cinco anos.

 

Medidas de política econômica

 

Embora a pandemia esteja produzindo um efeito adverso sobre quase todos na sociedade, é preciso que as políticas se concentrem especificamente em evitar danos prolongados (ou “cicatrizes”) nos meios de subsistência dos menos favorecidos. Se não for feito um esforço enérgico e bem direcionado, é provável que voltemos a ver um aumento da desigualdade, que já representava “um dos desafios mais complexos e desconcertantes da economia mundial”, nas palavras da Diretora-Geral do FMI.

 

Em termos concretos, o que pode ser feito? Ter acesso a benefícios como licença médica, seguro desemprego e assistência de saúde é bom para todos ao lidar com os efeitos da pandemia, mas é fundamental para os segmentos mais pobres da sociedade, que não possuem economias e, assim, vivem em condições precárias. Esse tipo de “New Deal” é importante em setores da economia, e em regiões, em que o trabalho informal e por conta própria é generalizado e os sistemas de proteção social são escassos. Expandir os sistemas de assistência social, introduzir novas transferências, reforçar os programas de obras públicas para oferecer novas vagas de emprego, proporcionar oportunidades de financiamento para manter os postos de trabalho, aplicar medidas tributárias progressivas (talvez por meio de uma “sobretaxa de solidariedade”) – são todos elementos que provavelmente irão compor a combinação de políticas para atenuar as consequências distributivas devastadoras da pandemia.

 

As autoridades econômicas devem aproveitar esta oportunidade para promover mudanças fundamentais, para que, no futuro, diante de choques inevitáveis – por exemplo, por causa dos efeitos das alterações climáticas – as sociedades contem com mecanismos de compartilhamento de riscos e de assistência social que protejam os mais vulneráveis muito melhor do que fazem hoje.

 

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Davide Furceri é Subchefe de Divisão no Departamento de Estudos do FMI. É doutor em Economia pela Universidade de Illinois. Antes de ingressar no FMI, foi economista na Divisão de Política Fiscal do Banco Central Europeu e na Divisão de Análise Macroeconômica do Departamento de Economia da OCDE. É autor de numerosos artigos em importantes revistas acadêmicas e voltadas para políticas, sobre uma vasta gama de tópicos sobre macroeconomia, finanças públicas, macroeconomia internacional e reformas estruturais.

Prakash Loungani é Diretor Adjunto e Gestor Sênior de Recursos Humanos e Orçamento do Gabinete de Avaliação Independente (IEO) do FMI. É coautor de Confronting Inequality: How Societies Can Choose Inclusive Growth (Columbia University Press, 2019). Anteriormente, foi chefe da Divisão de Macroeconomia do Desenvolvimento do Departamento de Estudos do FMI e copresidente do grupo de trabalho do FMI sobre emprego e crescimento em 2011–2015. É professor adjunto da Carey School of Business da Universidade Johns Hopkins e pesquisador associado sênior do Policy Center for the New South, um centro de estudos com sede em Rabat, Marrocos.

 

Jonathan D. Ostry é Subdiretor do Departamento de Estudos do FMI e pesquisador associado do Center for Economic Policy Research (CEPR). Suas responsabilidades recentes incluem a liderança de equipes que tratam dos seguintes temas: exercícios de alerta precoce do FMI e do Conselho de Estabilidade Financeira sobre riscos macrofinanceiros sistêmicos mundiais; exercícios de vulnerabilidades para países avançados e de mercados emergentes; supervisão multilateral de taxas de câmbio, incluído o trabalho do CGER, o grupo consultivo do FMI sobre taxas de câmbio, e a avaliação do equilíbrio externo; arquitetura financeira internacional e reforma do conjunto de instrumentos do FMI; gestão da conta de capital (controles de capital e ferramentas prudenciais para gerir a entrada de capital) e questões ligadas à globalização financeira; sustentabilidade fiscal, e o nexo entre desigualdade de renda e crescimento econômico. Anteriormente, liderou a divisão que produz a principal publicação do FMI sobre a supervisão multilateral, o World Economic Outlook, e dirigiu equipes dedicadas à Austrália, Japão, Nova Zelândia e Singapura. É autor de numerosos livros sobre questões macroeconômicas internacionais e de artigos em publicações especializadas. Seus livros mais recentes são Taming the Tide of Capital Flows (MIT Press, 2017) e Confronting Inequality (Columbia University Press, 2018). Seu trabalho é amplamente citado na mídia impressa e eletrônica, como a BBC, The Economist, Financial Times, Wall Street Journal, New York Times, Washington Post, Business Week e National Public Radio. Seu trabalho sobre desigualdade e crescimento insustentável foi também citado pelo Presidente Barack Obama. Formou-se (com distinção) pela Queen’s University do Canadá aos 18 anos, com graduação e mestrado pela Universidade de Oxford (Balliol College) e pós-graduação pela London School of Economics (mestrado, 1984) e Universidade de Chicago (doutorado, 1988). Seu nome figura no Who’s Who in Economics (2003).


Departamento de Comunicação do FMI
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