(foto: ampueroleonardo/iStock by Getty Images)

Perspectivas para a América Latina e o Caribe: a pandemia se intensificou

29 de junho de 2020

A América Latina e Caribe é o novo epicentro global da pandemia de COVID-19. O custo humano tem sido trágico, com mais de 100 mil vidas perdidas. O impacto econômico também tem sido elevado. Na atualização do World Economic Outlook , estimamos que a economia da região encolha 9,4% em 2020, uma projeção quatro pontos percentuais inferior à de abril e a pior recessão já registrada. O prognóstico para 2021 é de uma ligeira recuperação, para +3,7%.

A pandemia

As taxas de infecção e mortalidade per capita da COVID-19 estão se aproximando das observadas na Europa e nos Estados Unidos, com o número total de casos na América Latina e Caribe chegando a quase 25% do total mundial.

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Nessas circunstâncias, os países devem ser muito cautelosos ao considerar a reabertura de suas economias, e deixar que a ciência e os dados norteiem esse processo. De fato, muitos países da região têm níveis elevados de informalidade e não estão preparados para lidar com novos surtos, devido à alta ocupação de leitos de UTI e baixa capacidade de teste e rastreamento.

Evolução econômica recente

Dados econômicos mais fracos e surtos de COVID-19 mais prolongados explicam as significativas revisões em baixa de nossas projeções em relação a abril. O crescimento no primeiro trimestre foi pior do que o esperado na maioria dos países, enquanto os indicadores de alta frequência – como a produção industrial, o consumo de eletricidade, as vendas no varejo e o emprego – sugerem que a queda da atividade no segundo trimestre será mais profunda do que o previsto em abril. A propagação ainda rápida da pandemia indica que as medidas de distanciamento social precisarão ser mantidas por um período mais longo, deprimindo a atividade econômica no segundo semestre de 2020 e gerando mais sequelas para o futuro.

Apesar das perspectivas negativas, as condições financeiras externas vêm-se distendendo nas últimas semanas, refletindo em grande parte as medidas firmes tomadas pelos bancos centrais das economias avançadas, que permitiram a alguns países emitir dívida no exterior. No entanto, as condições financeiras ainda são mais rigorosas do que antes da pandemia e a previsão é que permaneçam voláteis no futuro.

Os riscos de deterioração da conjuntura continuam elevados. A pandemia pode piorar e se prolongar, o que irá deprimir a atividade econômica, pressionar os balanços empresariais, aumentar a pobreza e a desigualdade e reacender as tensões sociais em toda a região. Mas podem também ocorrer surpresas positivas. Alguns indicadores de alta frequência recentes das economias avançadas têm sido melhores do que o esperado. O crescimento mundial poderia superar as expectativas, apoiando as exportações, os preços das commodities e o turismo.

Políticas prioritárias

De imediato, a prioridade da política fiscal é continuar a proteger vidas e meios de subsistência, o que, dado o espaço fiscal limitado na região, exigirá uma redefinição dos gastos prioritários e um aumento da sua eficiência. As autoridades precisarão encontrar formas criativas de alcançar diversos segmentos da sociedade, sobretudo onde a informalidade é alta. As consequências da pandemia e das respectivas políticas de resposta também irão gerar preocupações quanto à sustentabilidade da dívida a médio prazo em vários países. O compromisso com um plano de médio prazo de consolidação fiscal e de reformas estruturais para reforçar o crescimento será fundamental para atenuar essas preocupações.

A política monetária deve permanecer acomodatícia em vista das perspectivas de inflação moderada, dos hiatos do produto negativos e do desemprego elevado. Mais cortes de juros e medidas direcionadas a mercados específicos devem ser estudadas sempre que necessário e possível, a fim de apoiar a atividade econômica e assegurar o funcionamento adequado dos mercados financeiros.

As medidas para manter as relações de emprego, como o apoio à folha de pagamento e o financiamento do capital de giro, serão importantes para evitar o fechamento de empresas que, em outras condições, seriam viáveis, reduzir o desemprego no longo prazo, apoiar a retomada, minimizar as cicatrizes e aumentar o crescimento potencial. As políticas de contenção e mitigação devem ser devidamente calibradas para evitar uma segunda onda da pandemia e controlar surtos localizados.

Perspectivas nacionais e regionais

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Na Argentina, a previsão é de uma queda do PIB de cerca de 10% em 2020, com riscos mais elevados. O crescimento foi revisto em baixa porque o prolongamento da quarentena na área metropolitana de Buenos Aires, a queda da demanda externa e o recuo dos preços das commodities devem mais do que neutralizar o pacote de apoio fiscal, que continua restrito pelas opções de financiamento limitadas. Além disso, as incertezas relacionadas ao processo de reestruturação da dívida continuam a pesar sobre a confiança.

O prognóstico para o PIB real do Brasil é de uma queda de 9% em 2020 em meio a grande incerteza, seguida por uma recuperação de 3,6% em 2021. As autoridades econômicas responderam de forma vigorosa à pandemia por meio de cortes firmes nos juros e pacotes fiscais e de liquidez consideráveis, com transferências diretas de renda para grupos vulneráveis. No entanto, a retirada desse estímulo pesará sobre o crescimento em 2021, em meio a uma economia interna que ainda sofria as consequências da recessão de 2015–16. Nesse contexto, uma política monetária acomodatícia será essencial para apoiar a recuperação cíclica, enquanto a retomada da agenda de reformas fiscais e estruturais do governo é fundamental para preservar a sustentabilidade fiscal e impulsionar o crescimento potencial e a confiança dos investidores.

No Chile, o PIB real deve cair 7,5% em 2020 e se recuperar em 5,0% em 2021. Após um desempenho resiliente no primeiro trimestre, a previsão é de uma forte contração da atividade econômica no segundo trimestre devido às rígidas medidas de distanciamento social e, em menor grau, ao enfraquecimento da demanda externa dos parceiros comerciais. A retomada da atividade deve ter início no terceiro trimestre e continuar em 2021, apoiada por medidas sem precedentes nos setores fiscal, monetário e financeiro.

A Colômbia tomou medidas no início da propagação do vírus para tentar limitá‑la, mas as perturbações econômicas associadas à pandemia (como a queda dos preços do petróleo) devem acarretar a primeira recessão em duas décadas. Após um primeiro trimestre fraco, a previsão é que o PIB se contraia 7,8% em 2020, mas o crescimento deve se recuperar para 4,0% em 2021, à medida que a situação da saúde se estabilize dentro e fora do país. Em resposta, o banco central cortou os juros de referência e apoiou a liquidez do mercado, enquanto a regra fiscal foi suspensa por dois anos para proporcionar flexibilidade suficiente para responder às crises sanitária e econômica.

As consequências da pandemia para o México são agravadas pela queda dos preços do petróleo, volatilidade dos mercados financeiros internacionais, perturbações nas cadeias globais de valor e enfraquecimento da confiança do empresariado, que já vinha se refletindo também no recuo do investimento antes da COVID-19. O PIB real deve cair 10,5% em 2020, com o crescimento em 2021 possivelmente recuperando uma parte modesta do produto perdido. A política monetária deve ser distendida ainda mais para absorver o choque na demanda causado pela crise e preservar o funcionamento dos mercados financeiros. Contudo, a resposta fiscal é a menor entre os países do G-20 e, por isso, corre-se o risco de uma contração mais profunda e de uma retomada mais lenta, com cicatrizes econômicas significativas. O México deve elevar os gastos agora para proteger vidas e meios de subsistência e formular um plano de reforma fiscal credível de médio prazo que proporcione mais espaço para políticas de curto prazo e feche as brechas fiscais.

No Peru, a projeção de crescimento para 2020 sofreu uma forte correção para baixo, para -14%, uma vez que a demanda externa mais fraca e um período de quarentena mais longo do que o esperado mais do que neutralizaram, pelo menos até agora, o apoio econômico significativo do governo e se traduziram em grandes perdas de emprego. Com a suspensão das restrições da quarentena no segundo semestre, espera-se uma recuperação gradual da atividade econômica, que alcançaria uma expansão de 6,5% em 2021. Contudo, os riscos de queda continuam proeminentes e estão ligados, sobretudo, aos desafios internos e externos enfrentados na tentativa de controlar a pandemia de COVID-19.

A América Central, oPanamá e a República Dominicana (ACPRD) passarão por uma profunda recessão em 2020 e uma recuperação gradual a partir de 2021. O crescimento está sendo afetado por quarentenas nos países e repercussões internacionais que se fazem sentir por meio do comércio, turismo e remessas. A contração do comércio terá um impacto especialmente forte no Panamá, em El Salvador e na Nicarágua; o colapso do turismo, na República Dominicana e na Costa Rica; e a queda das remessas, no Triângulo do Norte e na Nicarágua. Fatores idiossincráticos também estão em ação, sobretudo os desastres naturais em El Salvador. Um fator paliativo é que a queda dos preços do petróleo está melhorando as relações de troca.

Para mitigar o impacto da pandemia, os países da ACPRD elevaram os gastos sociais e em saúde dirigidos aos desempregados e às famílias vulneráveis. Sempre que possível, a flexibilização da política monetária e as garantias de crédito estão sendo utilizadas para apoiar o financiamento das empresas, e os adiamentos do pagamento de impostos e o apoio a setores específicos no orçamento procuram aliviar as restrições de liquidez em alguns países.

As economias do Caribe conseguiram achatar a curva da COVID-19, mas as principais fontes de atividade econômica entraram em colapso. Com o turismo praticamente paralisado e os principais mercados de origem nas economias avançadas mergulhando em uma recessão mais profunda, a região provavelmente sofrerá uma contração muito acentuada e prolongada da atividade econômica. Apesar da reabertura das fronteiras em alguns países do Caribe a partir de junho, a previsão é que os fluxos de turistas internacionais retornem aos níveis anteriores à crise apenas gradativamente ao longo dos próximos três anos. Além disso, a queda acentuada dos preços do petróleo está prejudicando os exportadores de commodities devido à perda de exportações e de receitas fiscais. A temporada de furacões que está em curso representa ainda mais riscos.

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O apoio do FMI

O FMI agiu rapidamente para apoiar seus países membros com a mobilização significativa de financiamento de emergência. Dos 70 empréstimos aprovados desde o início da pandemia, somando US$ 25 bilhões, 17 foram destinados a países da região, em um total de US$ 5,2 bilhões. Além disso, foi aprovado o acesso à Linha de Crédito Flexível para o Chile e o Peru e renovado o acesso para a Colômbia. Com a inclusão do México, o apoio total concedido à região por meio da Linha de Crédito Flexível totaliza US$ 107 bilhões.

O FMI está pronto para mobilizar seu poderio financeiro, o assessoramento em políticas e os recursos de capacitação para ajudar a América Latina e o Caribe a alcançar uma recuperação mais robusta.

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Alejandro Werner assumiu o cargo de Diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional em janeiro de 2013. Cidadão mexicano, construiu uma carreira de destaque nos setores público e privado, assim como no meio acadêmico. Foi Subsecretário da Fazenda e Crédito Público do México de dezembro de 2006 a agosto de 2010, professor de Economia no Instituto de Empresa de Madri, Espanha, de agosto de 2010 a julho de 2011 e Chefe do Setor Corporativo e de Investimentos do BBVA-Bancomer de agosto de 2011 ao fim de 2012.

Foi também Diretor de Estudos Econômicos do Banco do México e professor no Instituto Tecnológico Autônomo do México (ITAM). É autor de numerosos trabalhos e foi apontado Jovem Líder Mundial pelo Fórum Econômico Mundial em 2007. Doutorou-se pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em 1994.

Departamento de Comunicação do FMI
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