(foto: Bulat Silvia iStock by Getty Images)

Manter medidas de política robustas para combater a incerteza contínua

19 de novembro de 2020

Os líderes do G-20 se reúnem virtualmente esta semana, enquanto a economia mundial passa por um momento crítico. Os países começaram a se reerguer das profundezas da crise da COVID-19, mas o novo aumento das infecções em muitas economias demonstra o quanto essa escalada será difícil e incerta.

A boa notícia é o progresso considerável no desenvolvimento de vacinas. Ainda que com muitas ressalvas, esses avanços alimentam a esperança de derrotar o vírus, que já ceifou mais de um milhão de vidas e provocou a perda de dezenas de milhões de empregos.

A notícia não muito boa é a gravidade da pandemia e seu impacto econômico adverso. No mês passado, o FMI projetou uma contração histórica do PIB mundial em 2020, de 4,4%. E nossa expectativa é de uma recuperação parcial e desigual no próximo ano, com crescimento de 5,2%.

Os dados divulgados desde nossas últimas projeções confirmam que a recuperação global continua em marcha. Para muitas economias, como os Estados Unidos, o Japão e a área do euro, a atividade econômica no terceiro trimestre se mostrou mais forte do que o esperado.

Entretanto, como salienta a nota do FMI para a cúpula dos líderes do G-20, os dados mais recentes sobre os setores de serviços que exigem contato intensivo apontam para uma desaceleração do ímpeto das economias onde a pandemia está recrudescendo.

Em outras palavras, embora haja uma solução médica para a crise no horizonte, o caminho econômico adiante continua difícil e sujeito a reveses.

O lado positivo é que uma contenção do vírus mais rápida do que se esperava e o desenvolvimento de melhores tratamentos permitiriam um retorno mais rápido às atividades normais, limitariam as sequelas econômicas e impulsionariam o crescimento.

O lado negativo é que se os novos surtos exigirem restrições de mobilidade mais rigorosas, ou se o desenvolvimento, a produção e a distribuição generalizada de vacinas e tratamentos forem mais demorados, o distanciamento social continuará por mais tempo. O resultado seria um crescimento menor, uma dívida pública maior e sequelas mais graves no potencial a longo prazo da economia – basta imaginar os danos que um longo período de perda de empregos podem causar para o capital humano dos trabalhadores.

É por isso que precisamos manter medidas de política robustas para combater a incerteza contínua .

O sucesso depende de nossa ação rápida e conjunta. A meu ver, há três prioridades cruciais: i) vencer a crise sanitária, ii) fortalecer a ponte econômica para a recuperação e iii) estabelecer as bases de uma economia melhor para o século XXI.

Em primeiro lugar, vencer a crise sanitária.

O aumento das infecções é um poderoso lembrete de que nenhum lugar terá uma recuperação econômica sustentável se não derrotarmos a pandemia em todo o mundo. Os gastos públicos com tratamento, testes e rastreamento de contatos são agora mais importantes do que nunca.

O mesmo ocorre com a cooperação transfronteiriça para reduzir o risco de um abastecimento inadequado de vacinas, tratamentos e testes. É necessário, portanto, intensificar os esforços multilaterais para a fabricação, compra e distribuição dessas soluções sanitárias, especialmente em nações mais pobres. Também é preciso eliminar as recentes restrições ao comércio de todos os bens e serviços médicos, inclusive em relação a vacinas.

Estimamos que um progresso mais rápido com soluções médicas amplamente compartilhadas poderia adicionar quase US$ 9 trilhões à renda mundial até 2025. Isso ajudaria a reduzir a disparidade de renda entre as nações mais pobres e mais ricas em um momento em que a desigualdade entre os países deve aumentar.

Em segundo lugar, fortalecer a ponte econômica para a recuperação.

Liderado pelos países do G-20, o mundo adotou medidas sem precedentes e sincronizadas que serviram de sustentáculo para a economia mundial, que incluem US$ 12 trilhões em medidas fiscais e apoio massivo à liquidez por parte dos bancos centrais. As condições de financiamento foram flexibilizadas para todos, exceto os tomadores de mais alto risco.

Dada a gravidade da crise, precisamos aprofundar essas medidas. Muitas nações em desenvolvimento continuam a enfrentar uma situação precária, em grande parte devido à capacidade mais limitada de responder à crise; em escala mundial, as incertezas econômicas e financeiras permanecem elevadas . Por exemplo, avaliações de ativos elevadas apontam para uma desconexão entre os mercados financeiros e a economia real, com riscos inerentes para a estabilidade financeira.

Além disso, o apoio prestado pela política fiscal vem diminuindo gradualmente . Muitas medidas vitais, como transferência de renda para as famílias, programas de retenção de emprego e seguros-desemprego ampliados, expiraram ou devem expirar até o final deste ano, e isso enquanto se projeta que o desemprego causado pela crise continuará a ser considerável. Só no setor do turismo mundial, estima-se que até 120 milhões de postos de trabalho estejam em risco.

Como podemos então reduzir a incerteza e fortalecer a ponte para a recuperação?

1. Evitando a suspensão prematura das políticas de apoio . Em algumas economias, há margem para oferecer mais apoio fiscal no próximo ano além do que está atualmente orçado. No caso dos países com espaço fiscal limitado, será fundamental priorizar e realocar gastos para proteger os mais vulneráveis. Igualmente importante é a continuidade da acomodação monetária e das medidas de liquidez para garantir o fluxo de crédito, especialmente para as pequenas e médias empresas, complementado por políticas adequadas no setor financeiro. Isso ajudaria a apoiar o crescimento, o emprego e a estabilidade financeira.

2. Preparando-se agora para uma iniciativa sincronizada de investimento em infraestrutura assim que a pandemia estiver mais contida , para estimular o crescimento, limitar as sequelas e abordar os objetivos relacionados ao clima. Nos casos em que há ampla capacidade ociosa, esse tipo de investimento do setor público pode ajudar as economias a avançarem no sentido do pleno emprego, fortalecendo simultaneamente a produtividade do setor privado.

Além disso, um novo estudo do corpo técnico do FMI revela a possibilidade de grandes ganhos quando os países do G-20 investem ao mesmo tempo. Se aqueles com o maior espaço fiscal aumentassem simultaneamente os gastos com infraestrutura em 0,5% do PIB em 2021 e 1% do PIB nos anos seguintes — e se as economias com espaço fiscal mais restrito investissem um terço desse valor —, poderiam elevar o PIB mundial em cerca de 2% até 2025. Uma abordagem não sincronizada resultaria em apenas 1,2% de aumento.

Ou seja, se os países agirem sozinhos, teriam que gastar cerca de dois terços a mais para alcançar os mesmos resultados. Em resumo: podemos criar o impulso para o crescimento, o emprego e enfrentar a mudança do clima de forma muito mais eficaz se trabalharmos juntos.

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Em terceiro lugar, estabelecer as bases de uma economia melhor para o século XXI.

A incerteza mais relevante que temos hoje pela frente é: como aproveitar este momento de ruptura para construir uma economia melhor para todos? Esse foi o foco dos líderes mundiais reunidos no Fórum da Paz em Paris na semana passada, e será a prioridade dos líderes do G-20.

Todos reconhecemos que a sustentabilidade ambiental deve ser um pilar fundamental de uma economia mais resiliente e inclusiva. Requer uma poderosa combinação de medidas, inclusive um impulso ao investimento verde e o aumento gradual dos preços de carbono. Estimamos que esse tipo de pacote de políticas poderia elevar o PIB mundial e criar cerca de 12 milhões de novos empregos ao longo de uma década, abrindo ao mesmo tempo um caminho para zerar a emissão líquida de carbono até meados do século.

Mas uma coisa é clara: se quisermos tirar proveito do crescimento verde e materializar todo o potencial da economia digital, devemos apoiar os trabalhadores para que possam fazer a transição de setores em retração para setores em expansão. Os gastos sociais são certamente indispensáveis, como maior investimento em treinamento, requalificação e formação de boa qualidade. Isso é particularmente importante para os trabalhadores com baixa ou média qualificação, entre os quais mulheres e jovens estão super-representados. Esse grupo foi mais duramente atingido pela crise.

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Outro pilar básico é a sustentabilidade fiscal. Um dos principais legados da crise é uma dívida pública mundial recorde. Será fundamental abordar essa situação no médio prazo, inclusive por meio da reformulação dos sistemas tributários para mobilizar receitas de forma equitativa. Mas muitos países de baixa renda às voltas com uma carga pesada da dívida precisam de ações urgentes agora, como o acesso a mais subvenções, crédito concessional e alívio da dívida.

O G-20 tem sido determinante nesse aspecto. Sua iniciativa de suspender o serviço da dívida deu a muitos países de baixa renda um uma pausa temporária para “respirar” na luta contra o vírus. E o novo Quadro Comum , acordado com o apoio do Clube de Paris, vai mais longe: se plenamente implementado, permitirá que as nações mais pobres solicitem um alívio permanente da dívida, garantindo ao mesmo tempo que todos os credores negociem em igualdade de condições.

Por fim, é preciso apoiar o mundo além do G-20! As iniciativas multilaterais são vitais para ajudar as economias mais pobres durante a crise. Igualmente importante é prosseguir nos esforços para fortalecer o comércio baseado em normas, promover um sistema internacional de tributação em que todos pagam uma cota justa e reforçar a rede de segurança financeira mundial. Sem isso, a desigualdade será exacerbada, e a economia mundial enfrentará desafios ainda maiores no período que está por vir.

No FMI, estamos respondendo a essa crise de uma forma sem precedentes, com mais de US$ 100 bilhões em novos financiamentos para 82 países e a redução do serviço da dívida para nossos membros mais pobres. Pretendemos fazer ainda mais para ajudar nossos 190 países membros a superarem essa crise e a construírem uma economia melhor após a pandemia.

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Kristalina Georgieva

Departamento de Comunicação do FMI
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