(foto: Massimo Giachetti by Getty Images)

A COVID-19 atinge mais duramente os pobres, mas a testagem em grande escala poderia ser útil

3 de dezembro de 2020

Em todo o mundo, as infecções e mortes por COVID-19 são mais numerosas nos bairros pobres do que nos mais ricos. A pandemia e os esforços para controlá-la têm afetado desproporcionalmente os pobres, tanto dentro dos países como entre eles. Procurar entender melhor o que explica as diferenças nos impactos sobre a saúde entre os grupos de renda pode oferecer informações às autoridades sobre o que pode ser feito a esse respeito.

Em um estudo recente do FMI , construímos uma conexão mais precisa entre a riqueza e a saúde relacionada com a pandemia. A análise baseada em modelos mostra que a testagem mais ampla e rápida poderia fornecer informações vitais para conter melhor a propagação do vírus, beneficiando a todos, mas, em especial, os pobres. Nosso estudo vai além da maioria dos modelos epidemiológicos ao analisar o comportamento e as escolhas individuais baseadas na renda, em vez de enfocar apenas a idade, o gênero e outros dados demográficos.

É provável que as vacinas comecem a ser disponibilizadas gradativamente nos próximos meses e anos, mas, nesse meio tempo, as taxas de infecção continuam a aumentar em alguns países a um ritmo mais veloz do que no início da pandemia. As quarentenas, o distanciamento físico e o uso de máscaras têm sido as ferramentas mais comuns para conter o avanço da pandemia. Contudo, testes baratos e rápidos podem ser outra arma nessa luta.

A renda é importante

O comportamento e as escolhas que deixam os mais pobres na linha de frente da infecção durante uma pandemia costumam ser fruto da necessidade. Primeiro, muitos trabalhadores com baixos salários estão empregados em serviços considerados essenciais durante a pandemia (como supermercados e serviços de entrega) ou têm poucas opções de trabalho remoto. Segundo, é maior a probabilidade de os bairros mais pobres terem uma densidade demográfica maior, o que favorece o contágio. Terceiro, as pessoas nas comunidades mais pobres também tendem a ter poucas reservas de emergência, o que limita a possibilidade de trabalhar menos horas para reduzir o risco de contaminação (por exemplo, trabalhadores autônomos na economia informal).

Os mais abastados podem reduzir seu risco de infecção porque têm a opção de trabalhar menos e limitar o tempo que passam na rua. O efeito dessas escolhas é profundo. As simulações do modelo indicam que, enquanto pouco mais de 10% das famílias ricas chegam a ser infectados pelo vírus, mais da metade das famílias pobres seriam infectadas ao longo de um período de dois anos. Isso também se reflete na incidência de mortes: o modelo sugere que a probabilidade de membros de famílias pobres morrerem é cerca de quatro vezes maior. Esses números sugerem que recai sobre os pobres a maior parte dos custos da pandemia em termos de saúde.

Os testes são importantes

Duas medidas de política essenciais podem ajudar a aliviar o grande impacto da epidemia sobre os pobres até que vacinas e tratamentos eficazes estejam amplamente disponíveis e sejam oferecidos a todos que necessitem.

Primeiro, o apoio direcionado à renda das famílias mais pobres ajudará diretamente a proteger o consumo dessas pessoas contra o grande choque econômico adverso. Segundo, informações mais precisas sobre a propagação e a contenção da pandemia por meio de uma testagem ampla reforça a capacidade de identificar e isolar novos casos, reduzindo os riscos de infecção. Os testes rápidos desenvolvidos recentemente são baratos — a Organização Mundial da Saúde conseguiu negociá-los recentemente a US$ 5 por teste e, com o aumento da demanda e da produção, os preços podem cair para US$ 1 ou menos. A simplicidade desses testes significa que qualquer família ou empresa poderia usá-los (sem a necessidade de equipamentos médicos ou de avaliação por um laboratório), dispensando qualquer tipo de processamento ou registro centralizado. Embora uma estratégia de testagem em massa talvez não impeça todos os surtos, de modo geral poderia reduzir a propagação da pandemia e mantê-la sob controle, sobretudo quando combinada com o uso de máscaras, a lavagem correta das mãos e o distanciamento físico.

O uso de testes para identificar e isolar casos positivos é ainda mais eficaz no controle da pandemia em países com uma proporção maior de famílias mais pobres. Nosso estudo mostra que, se metade dos infectados assintomáticos fosse identificada, as mortes seriam reduzidas em pelo menos três quartos no prazo de um ano. Os pobres seriam os mais beneficiados, pois sua taxa de mortalidade em decorrência da COVID-19 cairia em aproximadamente três quartos com avanços nos testes em massa, em comparação com uma queda pela metade no caso dos mais ricos.

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Diferentemente da imposição de quarentenas, dispor de informações melhores por meio da testagem ampla sem dúvida impulsiona a economia, pois reduz o risco de infecção nas interações com outras pessoas. Quando nenhum infectado assintomático é testado e o vírus se propaga sem ser detectado, a queda no PIB da economia representativa é de 15% no primeiro ano. Quando os riscos de infecção são maiores, as pessoas optam por se afastar e reduzem a atividade econômica tanto quanto possível. A perda cai para apenas 3,3% do PIB se 50% dos assintomáticos forem identificados por meio de testes e isolados para reduzir o contágio. Isso pode ser conseguido com um teste que tenha uma taxa de verdadeiro positivo (sensibilidade) de 80% se cerca de 60% de toda a população puder ser testada semanalmente.

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Como os testes rápidos têm o potencial de evitar grandes perdas do PIB e seus custos são comparativamente baixos e decrescentes, o retorno da testagem ampla da população combinada com o uso de máscaras é enorme. Essa abordagem também poderia reduzir algumas das desigualdades agravadas pela pandemia, ajudando as famílias pobres e mais vulneráveis a suportar melhor a crise.

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Michal Andrle é economista sênior do Departamento de Estudos do FMI. Seus estudos se concentram na modelagem macroeconômica e política monetária, precificação de ativos e aprendizado estatístico. Antes de ingressar no FMI, foi economista no Departamento de Estudos do Banco Central Europeu e no Banco Nacional e Ministério das Finanças da República Tcheca.

John Bluedorn é Subchefe da Divisão encarregada do relatório World Economic Outlook do Departamento de Estudos do FMI. Anteriormente, foi economista sênior na Unidade de Reformas Estruturais do Departamento de Estudos, membro da equipe do FMI para a área do euro no Departamento Europeu e, como economista, contribuiu para diversos capítulos do World Economic Outlook. Antes de ingressar no FMI, lecionou na Universidade de Southampton, no Reino Unido, após receber uma bolsa de pós‑doutorado na Universidade de Oxford. Já publicou sobre uma série de temas em finanças internacionais, macroeconomia e desenvolvimento. Doutorou-se pela Universidade da Califórnia, Berkeley.

Allan Dizioli é economista da Divisão de Modelagem Econômica do Departamento de Estudos do FMI.Suas pesquisas se concentram na modelagem macroeconômica e do trabalho, política monetária e economia da saúde. Já publicou artigos sobre a economia da saúde e os mercados de trabalho. Anteriormente, trabalhou como economista no Banco Central Europeu. Doutorou-se pela Universidade da Pensilvânia.

Departamento de Comunicação do FMI
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