(foto: GomezDavid/iStock by Getty Images)

As geleiras das finanças mundiais: A composição em moedas das reservas dos bancos centrais

17 de dezembro de 2020

As moedas detidas pelos bancos centrais como reservas cambiais têm se mantido basicamente estáveis ao longo de décadas. Pode-se dizer que, na melhor das hipóteses, a composição dessas reservas varia a um ritmo glacial. Contudo, as mudanças geopolíticas e revoluções tecnológicas estão remodelando a economia mundial e o uso internacional das moedas. Essas forças, bem como as consequências da pandemia de COVID-19, poderiam acelerar ainda mais as transformações nas reservas dos bancos centrais.

O status quo

Atualmente, existem cerca de 180 moedas nacionais, mas apenas algumas são usadas amplamente em transações internacionais, como o faturamento e pagamento de importações, a emissão de dívida e o investimento no exterior. Essas moedas são o dólar norte-americano, o euro e, em menor grau, o iene japonês, a libra esterlina e algumas poucas outras. Quando ocorre uma crise, as empresas e os investidores normalmente buscam a segurança do dólar.

Os bancos centrais há muito tempo mantêm reservas internacionais nessas mesmas moedas. Isso não chega a surpreender, pois as reservas se destinam a apoiar transações internacionais como as citadas acima, permitindo às autoridades nacionais financiar as necessidades da balança de pagamentos, intervir nos mercados cambiais e fornecer divisas aos agentes nacionais.

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O ritmo lento de alteração das reservas

Com base em um novo conjunto de dados, um novo estudo do FMI analisou a composição e os fatores determinantes das reservas cambiais dos bancos centrais nas últimas décadas e a evolução desses fatores.

Uma constatação importante é que, dada a dominância internacional do dólar (e, em certa medida, do euro), as alterações nas reservas dos bancos centrais têm sido, até o momento, mínimas.

Por exemplo, apesar da participação crescente da China na economia global, o renminbi chinês conquistou apenas um espaço pequeno nas transações internacionais, como a emissão de dívida externa ou o comércio no mercado mundial de divisas.

O estudo também constatou que os vínculos financeiros parecem ser um fator fundamental para a composição das moedas de reserva, sobretudo na última década. Isso sugere que, enquanto o dólar continuar a dominar comércio e as finanças mundiais, sua predominância como moeda de reserva parece destinada a perdurar.

No entanto, assim como o lento avanço das geleiras às vezes sofre uma aceleração repentina, a composição das moedas de reserva pode passar por uma transformação inesperada, imprevista e acelerada.

O futuro das moedas de reserva

Nosso estudo sugere uma série de tendências econômicas e financeiras que poderiam impactar a composição das reservas no futuro. A evolução nos campos geopolítico e tecnológico pode revelar-se tão significativa quanto as considerações econômicas e, combinada com a atual pandemia de COVID-19, poderia acelerar futuras transformações. Entre os possíveis determinantes, destacam-se:

  • Mudanças nas finanças internacionais: a forte resposta à emissão de títulos em larga escala pela Comissão Europeia em outubro realça a demanda em potencial por alternativas à dívida denominada em dólar. Os países em desenvolvimento e de mercados emergentes também poderiam emitir mais dívida nas moedas de credores emergentes, como a China, para ajudar a suprir as crescentes necessidades de financiamento. Nosso estudo constata que a moeda de denominação da dívida pública é um determinante de especial importância das reservas dos países em desenvolvimento e de mercados emergentes e, provavelmente, reflete o desejo dos bancos centrais de se protegerem contra riscos associados às obrigações da dívida.
  • · Mudanças nos vínculos comerciais e práticas de faturamento também poderiam alterar a demanda por moedas internacionais. Tanto a pandemia quanto as recentes tensões comerciais puseram em relevo a fragilidade das cadeias produtivas globais. Os países estão agora mais interessados do que nunca em garantir suprimentos cruciais. Uma transição para a produção local reduziria a demanda por moedas internacionais. Por outro lado, a menor dependência de um único parceiro comercial poderia diversificar a demanda por moedas. A recente conclusão da Parceria Econômica Regional Abrangente na Ásia – um acordo de livre comércio entre quinze nações da região – pode significar um papel maior para moedas alternativas que atualmente representam uma pequena parcela das reservas internacionais.
  • A credibilidade das políticas dos países emissores de dívida é fundamental para a confiança em suas moedas. A pandemia de COVID-19 deixou bem claro que os emissores atuais e futuros precisam adotar políticas econômicas e sanitárias adequadas para preservar seu potencial de crescimento.
  • O uso internacional de moedas também pode refletir considerações estratégicas. Por exemplo, as decisões sobre a carteira de moedas de reserva podem ser influenciadas por considerações de política externa e laços de segurança. As consequências das tensões comerciais e sanções internacionais podem levar os países a estudar mudanças em suas reservas e estimular possíveis emissores a procurar internacionalizar suas moedas.
  • A pandemia acelerou os avanços nas tecnologias financeiras e de pagamento. A possível concorrência de emissores privados como o Diem, o sistema de pagamento do Facebook baseado em blockchain, incentivou os principais bancos centrais a acelerar o trabalho de desenvolvimento de suas próprias moedas digitais e na área de pagamentos transfronteiriços. O Banco Central Europeu e o Banco Popular da China, entre outros, estão explorando a emissão de suas próprias moedas digitais, o que poderia aumentar a demanda por suas moedas.

Plataformas tecnológicas mais avançadas também poderiam ajudar as novas moedas a superar algumas das vantagens das moedas tradicionais. Dependendo do grau de adoção e uso do dinheiro digital público ou privado , os bancos centrais talvez tenham de repensar o que constitui reservas, e como mantê-las, no futuro.

Atualmente, não há sinais de grandes alterações na composição das moedas de reserva dos bancos centrais. Contudo, o ritmo glacial de mudanças nas últimas décadas não deve ser tomado como uma indicação do futuro. Há uma incerteza considerável em torno das tendências econômicas e financeiras mundiais, bem como da evolução geopolítica e tecnológica. Assim, há margem para uma transformação mais dinâmica no futuro.

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Alina Iancu é Subchefe de Unidade no Departamento de Estratégia, Políticas e Avaliação do FMI, onde ajuda a supervisionar o trabalho sobre a estratégia do FMI, as relações com o G-20 e o CMFI e o sistema monetário internacional. Seu trabalho analítico e operacional concentra-se no sistema monetário internacional e na rede mundial de proteção financeira, bem como em questões macrofinanceiras. Antes de ingressar no FMI, foi analista de estudos na Franklin Templeton Investments e professora assistente na Universidade Drexel. É doutora em Economia pela Michigan State University.

Neil Meads é Economista Sênior no Departamento de Estratégia, Políticas e Avaliação do FMI, atuando como Assistente Especial do Diretor e na equipe do FMI encarregada da Romênia. Anteriormente, trabalhou em questões estratégicas para o sistema monetário internacional, incluindo o DES, e tem apoiado o trabalho do FMI em Ruanda. Começou sua carreira no Banco da Inglaterra, na área de política monetária. Seus estudos anteriores concentraram-se em temas como habitação, consumo e tomada de decisões de política monetária. É mestre em Economia pela Universidade de York.

Martin Mühleisen é ex-diretor do Departamento de Estratégia, Políticas e Avaliação (SPR) do FMI. Nessa função, liderou o trabalho sobre o direcionamento estratégico do FMI e a formulação, implementação e avaliação das políticas da instituição. Além disso, supervisionou as interações do FMI com outros organismos internacionais, como o G-20 e a ONU.

Yiqun Wu é Economista do Departamento de Estratégia, Políticas e Avaliação do FMI, onde analisa temas estratégicos para os recursos e a governança do Fundo, bem como o sistema monetário internacional. Suas atribuições anteriores incluem a supervisão econômica e programas de empréstimos do FMI em uma variedade de economias de baixa renda e de mercados emergentes na Ásia-Pacífico e na África. Sua experiência também abrange questões regionais da Ásia e Pacífico. É doutor em Economia pela State University of New York em Buffalo. Seus estudos e publicações cobrem uma ampla gama de temas em macroeconomia internacional, comércio e crescimento.

Departamento de Comunicação do FMI
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