(Imagem: Stefan Lipsky/FMI)

A longa sombra da Covid-19: As repercussões sociais de pandemias

3 de fevereiro de 2021

Em 1832, a grande pandemia de cólera chegou a Paris. Em poucos meses, a doença provocou 20 mil mortes entre uma população de 650 mil habitantes. A maior parte das vítimas estava concentrada no centro da cidade, onde muitos trabalhadores pobres viviam em condições esquálidas, atraídos para a capital francesa por causa da Revolução Industrial. A propagação da doença exacerbou as tensões entre as classes sociais: os ricos culpavam os pobres por alastrar a doença; os pobres diziam estar sendo envenenados. Não tardou até que a animosidade e a ira fossem dirigidas ao impopular rei. O funeral do general Lamarque – vítima da pandemia e defensor de causas populares – foi o estopim de grandes manifestações contrárias ao governo nas ruas bloqueadas por barricadas (cenas imortalizadas por Victor Hugo no romance Os Miseráveis). Alguns historiadores afirmam que a interação entre a epidemia e as tensões preexistentes foi a principal causa do que ficaria conhecido como a Revolta de Paris de 1832, que, por sua vez, pode explicar a subsequente repressão do governo e a rebelião popular na capita francesa no século XIX.

Desde a Praga de Justinian o e a Peste Negra até a Gripe Espanhola de 1918 , a história está repleta de exemplos de surtos de doenças que deixaram uma longa sombra de repercussões sociais, que moldaram as políticas, subverteram a ordem social e, em alguns casos, acabaram provocando instabilidade social. Por quê? Uma possível explicação é que uma epidemia pode revelar ou agravar fissuras pré‑existentes na sociedade, como redes de proteção social inadequadas, desconfiança nas instituições ou uma percepção de indiferença, incompetência ou corrupção do governo. Historicamente, os surtos de doenças contagiosas levaram também a hostilidades étnicas ou religiosas ou ao agravamento de tensões entre as classes econômicas.

Apesar dos numerosos exemplos, os dados quantitativos sobre a ligação entre epidemias e conflitos sociais são escassos, limitando-se a episódios específicos. Um estudo recente do FMI preenche essa lacuna, oferecendo evidências internacionais desse vínculo nas últimas décadas.

Um dos principais desafios para a pesquisa sobre conflitos sociais é identificar quando ocorreram os episódios de tensão. Embora estejam disponíveis fontes de informação sobre os conflitos, muitas delas são de baixa frequência ou sua cobertura é irregular. Para superar essas dificuldades, um estudo recente do FMI utiliza um indicador baseado na cobertura de imprensa sobre conflitos sociais para criar um Índice de Tensão Social Reportada ( Reported Social Unrest Index – RSUI). Esse novo índice proporciona uma medida mensal uniforme de conflitos sociais em 130 países, desde 1985 até o presente. Os picos no índice coincidem com as descrições narrativas de conflitos em diversos estudos de casos, um sinal de que o índice captura eventos reais e não flutuações no sentimento ou na atenção da mídia.

A partir desse índice, o estudo do FMI constatou que os países com epidemias mais graves e mais frequentes também registraram, em média, mais conflitos.

 

As cicatrizes sociais que se manifestam na forma de conflitos podem não ser imediatamente visíveis durante e logo após uma pandemia. De fato, as crises humanitárias tendem a impedir a comunicação e os deslocamentos necessários para organizar grandes protestos. Além disso, a opinião pública pode favorecer a coesão e a solidariedade em tempos difíceis. Em alguns casos, os atuais regimes podem tirar proveito de uma emergência para consolidar o poder e reprimir dissidências. A experiência com a Covid-19 até o momento é coerente com esse padrão histórico. O número de episódios de grande tensão social no mundo todo caiu para o nível mais baixo em quase cinco anos. As principais exceções são os Estados Unidos e o Líbano , mas, mesmo nesses casos, os maiores protestos estão associados a problemas que a pandemia de Covid-19 pode ter exacerbado, mas que não foram diretamente causados por ela.

Contudo, ao examinar um período que se estende além das consequências imediatas de epidemias, o risco de tensões sociais dispara a mais longo prazo. Com base na informação sobre os tipos de conflitos, o estudo do FMI concentra-se na forma que eles geralmente assumem após uma epidemia. Essa análise mostra que, com o tempo, aumenta o risco de tumultos e manifestações contra o governo. Além disso, o estudo revela indícios de um risco mais elevado de grave crise governamental – um acontecimento que ameaça derrubar o governo e que costuma ocorrer nos dois anos seguintes a uma epidemia grave.

Se a história serve como guia, é possível que os conflitos ressurjam após a pandemia recuar. As ameaças podem ser maiores nos locais onde a crise tenha exposto ou exacerbado problemas preexistentes , como a falta de confiança nas instituições, a má gestão pública, a pobreza ou a desigualdade .

Este artigo foi publicado originalmente em IMF Research Perspectives .

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Philip Barrett é economista no Departamento de Estudos do FMI. Desde que ingressou no FMI em 2016, trabalhou no Departamento de Finanças Públicas e no Departamento do Oriente Médio e Ásia Central, onde foi membro da equipe responsável pelo Afeganistão e o Irã. Seus estudos abrangem temas como política fiscal, conflitos sociais e mudanças climáticas. Doutorou-se pela Universidade de Chicago.

Sophia Chen é economista no Departamento de Estudos do FMI. Anteriormente, foi economista no Departamento da Europa, como parte da equipe responsável pelo programa do FMI com Chipre. Seus estudos tratam de questões como as interligações macrofinanceiras, a atividade bancária, as finanças empresariais e a política fiscal. Doutorou-se em Economia pela Universidade de Michigan.

Nan Li é economista sênior no Departamento da África do FMI e editora associada do IMF Economic Review. Seus estudos se concentram nas áreas de finanças internacionais, comércio e crescimento econômico. Anteriormente, trabalhou no Departamento de Estudos e no Instituto do FMI para o Desenvolvimento de Capacidades, e foi professora assistente na Universidade Estadual de Ohio. Doutorou-se em Economia pela Universidade de Stanford e é autora de vários artigos publicados em periódicos acadêmicos.

Departamento de Comunicação do FMI
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