(foto: Igor Alecsander/iStock by Getty Images)

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Como administrar recuperações divergentes

6 de abril de 2021

A pandemia de Covid-19 já completou um ano e a comunidade internacional ainda enfrenta pressões socioeconômicas extremas, com um número crescente de vidas perdidas e milhões de pessoas ainda desempregadas. Contudo, apesar da elevada incerteza sobre a trajetória da pandemia, é possível vislumbrar sinais cada vez mais claros de uma saída desta crise sanitária e econômica. Graças à engenhosidade da comunidade científica, centenas de milhões de pessoas estão sendo vacinadas, o que deve impulsionar a recuperação de muitos países ainda este ano. As economias continuam também a se adaptar a novas maneiras de trabalhar apesar da mobilidade reduzida, o que significa uma retomada mais robusta do que o previsto em várias regiões. As perspectivas mais positivas decorrem também do apoio fiscal adicional aplicado nas grandes economias, principalmente nos Estados Unidos.

Projetamos agora uma recuperação mais robusta da economia mundial em relação a nossas previsões de janeiro, com crescimento de 6% em 2021 (uma melhoria de 0,5 ponto percentual) e 4,4% em 2022 (uma melhoria de 0,2 ponto percentual), após uma contração histórica estimada em -3,3% em 2020.

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No entanto, o futuro ainda reserva desafios colossais. A pandemia ainda não foi vencida e o número de infecções está aumentando rapidamente em muitos países. Verifica-se também uma perigosa divergência na recuperação entre e dentro dos países: o desempenho tem sido pior naqueles onde a distribuição de vacinas é mais lenta, a margem para a aplicação de políticas é mais reduzida e a economia é mais dependente do turismo.

A revisão em alta das previsões de crescimento mundial em 2021 e 2022 resulta principalmente da melhoria das perspectivas nas economias avançadas, em especial os Estados Unidos (alta de 1,3 pontos percentuais). O país deve crescer 6,4% este ano e estima-se que será a única grande economia que em 2022 registrará um crescimento do PIB superior às previsões do cenário sem pandemia. Outras economias avançadas, como a área do euro, também devem se recuperar este ano, mas a um ritmo mais lento. Entre as economias de mercados emergentes e em desenvolvimento, projeta-se que a China cresça 8,4% este ano. A economia chinesa já havia retornado aos níveis do PIB pré-pandêmico em 2020, mas espera-se que muitos outros países só o façam em 2023.

Desafios colossais à frente

Essas trajetórias divergentes de recuperação provavelmente aumentarão a disparidade nos padrões de vida dos diferentes países em comparação com as expectativas pré-pandemia. Projeta-se que a perda média anual do PIB per capita no período 2020–24, em relação às previsões anteriores à pandemia, seja de 5,7% nos países de baixa renda e 4,7% nas economias de mercados emergentes; nas economias avançadas, a perda deve ser menor, de 2,3%. Essas perdas estão levando a uma reversão dos ganhos em termos de redução da pobreza: calcula-se hoje que 95 milhões de pessoas tenham engrossado o contingente de extrema pobreza em 2020 em comparação com as previsões pré-pandemia.

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Essa recuperação desigual também acontece dentro dos países, uma vez que os trabalhadores mais jovens e os menos qualificados são os mais impactados. As mulheres também foram mais afetadas, sobretudo nas economias de mercados emergentes e em desenvolvimento. Considerando que esta crise acelerou as forças transformadoras da digitalização e automação, é provável que muitos dos empregos perdidos sejam permanentemente eliminados, exigindo uma realocação dos trabalhadores entre os setores – o que muitas vezes resulta em grandes perdas salariais.

A reação rápida das políticas em todo o mundo, na forma de apoio fiscal da ordem de 16 trilhões de dólares, impediu um desfecho muito pior. Segundo nossas estimativas, o grave colapso ocorrido no ano passado poderia ter sido três vezes maior se não fosse pelo apoio fiscal.

Uma vez que conseguiu-se evitar uma crise financeira, espera-se que as perdas a médio prazo sejam menores do que após a crise financeira global de 2008, situando-se em cerca de 3%. Contudo, ao contrário daquela crise, desta vez as economias de mercados emergentes e países de baixa renda devem sofrer sequelas mais graves, em função da sua margem limitada para a aplicação de políticas de apoio.

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Nossas projeções incorporam um grau elevado de incerteza. Progressos mais céleres na vacinação poderiam resultar em previsões mais positivas, enquanto uma pandemia mais prolongada, com variantes do vírus mais resistentes às vacinas, poderia levar a fortes revisões em baixa. Uma recuperação em várias velocidades também traria riscos financeiros caso as taxas de juros nos Estados Unidos subissem mais de forma imprevista. Isso poderia causar uma reversão desordenada das avaliações inflacionadas dos preços dos ativos, um aperto drástico das condições financeiras e a deterioração das perspectivas de recuperação, sobretudo em algumas economias de mercados emergentes e em desenvolvimento altamente alavancadas.

Unir esforços para dar a todos uma oportunidade justa

As autoridades terão que continuar a apoiar suas economias, mesmo dispondo de uma margem de manobra menor para a aplicação de políticas e enfrentando níveis de dívida mais elevados do que antes da pandemia. Isto requer medidas mais bem direcionadas para deixar espaço para o apoio prolongado que for necessário. Uma recuperação em várias velocidades exige uma abordagem adaptada, com políticas bem calibradas conforme a fase da pandemia, a solidez da recuperação econômica e as características estruturais de cada país.

A ênfase neste momento deve a saída da crise sanitária, dando prioridade aos gastos com cuidados de saúde – vacinas, tratamentos e infraestrutura do sistema de saúde. O apoio fiscal deve ser dirigido às famílias e empresas mais atingidas. A política monetária deve continuar acomodatícia (onde a inflação estiver sob controle), mas deve utilizar de forma proativa as ferramentas macroprudenciais para enfrentar os riscos para a estabilidade financeira.

À medida que a pandemia for sendo vencida e as condições nos mercados de trabalho voltem ao normal, deve-se reduzir gradualmente as medidas como o incentivo à retenção de trabalhadores. A partir daí, deve-se passar a enfatizar a realocação de trabalhadores, seja por meio de subsídios específicos à contratação ou da requalificação de trabalhadores. Conforme forem retiradas as medidas excepcionais, como as moratórias de pagamento de empréstimos, é possível que aumentem subitamente os casos de insolvência de empresas, colocando em risco um em cada dez empregos em muitos países. Para limitar os danos a longo prazo, os países poderiam considerar a opção de converter o apoio anteriormente concedido à liquidez (na forma de empréstimos) em apoio às empresas viáveis na forma de capital, desenvolvendo, em simultâneo, quadros de reestruturação extrajudicial para agilizar as possíveis falências. Deve-se também dedicar recursos ao ensino para ajudar as crianças a recuperar o tempo de instrução perdido durante a pandemia.

Uma vez superada a crise sanitária, as políticas públicas podem se concentrar em construir economias mais resilientes, mais inclusivas e mais verdes, para impulsionar a recuperação e também elevar o produto potencial. As prioridades devem incluir investimentos em infraestruturas verdes para ajudar a mitigar os efeitos das mudanças climáticas, o investimento em infraestruturas digitais para estimular a capacidade produtiva e o fortalecimento da assistência social para conter o aumento da desigualdade.

As economias com espaço fiscal limitado terão mais dificuldades em financiar essas iniciativas. Nesses casos, será essencial melhorar a capacidade tributária, aumentar a progressividade dos impostos (sobre a renda, a propriedade e as heranças), instituir a precificação do carbono e eliminar o desperdício de gastos. Todos os países devem ancorar suas políticas em quadros de médio prazo credíveis e aderir aos mais altos padrões de transparência da dívida para ajudar a conter os custos de endividamento e, por fim, reduzir a dívida e reconstituir as margens de reserva para o futuro.

No plano internacional, os países precisam, antes de mais nada, trabalhar juntos para garantir a vacinação universal. Alguns países já terão assegurado a imunização generalizada em meados deste ano, enquanto a maioria, sobretudo os países pobres, provavelmente terá que esperar até o final de 2022. Acelerar a vacinação exigirá medidas para agilizar a produção e distribuição de vacinas, evitar a aplicação de controles de exportação, financiar integralmente a iniciativa COVAX da qual muitos países de baixa renda dependem para obter acesso aos imunizantes e assegurar uma transferência equitativa das doses excedentárias entre os países.

As autoridades devem também continuar a assegurar o acesso adequado à liquidez internacional. Os principais bancos centrais devem fornecer orientação clara sobre suas ações futuras, com ampla antecedência, para evitar eventos inesperados como o temper tantrum de 2013. Os países de baixa renda serão beneficiados com o prolongamento da pausa no pagamento da dívida no âmbito da Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida e a operacionalização do Quadro Comum do G-20 para a reestruturação ordenada da dívida. Uma nova alocação de direitos especiais de saque do FMI assegurará a proteção de liquidez necessária em tempos altamente incertos.

Mesmo com todas as atenções voltadas para a pandemia, é essencial avançar na resolução das tensões comerciais e tecnológicas. Os países devem também cooperar na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, na modernização da tributação internacional das empresas e nas medidas para limitar a transferência de lucros e a evasão e elisão fiscais entre fronteiras.

Ao longo do ano que passou, testemunhamos inovações significativas na política econômica e a intensificação maciça do apoio no plano nacional, especialmente entre as economias avançadas que dispunham de recursos para bancar essas iniciativas. Um esforço não menos ambicioso é agora necessário na esfera multilateral para garantir a recuperação e construir um futuro melhor. Sem esforços adicionais para dar a todos uma oportunidade justa, a disparidade nos padrões de vida entre os países poderia aumentar consideravelmente, revertendo os progressos feitos nas últimas décadas para reduzir a pobreza mundial.

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Gita Gopinath é Conselheira Econômica e Diretora do Departamento de Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI). É professora da cátedra John Zwaanstra de Estudos Internacionais e Economia do Departamento de Economia da Universidade de Harvard, de onde está licenciada.

Seus estudos concentram-se nas áreas de finanças internacionais e macroeconomia, com artigos publicados nos principais periódicos de prestígio. É autora de numerosos artigos sobre taxas de câmbio, comércio e investimento, crises financeiras internacionais, política monetária, dívida e crises de mercados emergentes.

Atualmente, é coeditora do Handbook of International Economics e foi coeditora da American Economic Review e editora-chefe da Review of Economic Studies. Serviu também como codiretora do programa de Finanças Internacionais e Macroeconomia do National Bureau of Economic Research (NBER), foi pesquisadora visitante do Banco da Reserva Federal de Boston e membro do painel de assessoria econômica do Banco da Reserva Federal de Nova York. De 2016 a 2018, foi Assessora Econômica do Ministro-Chefe de Kerala, na Índia. Serviu também como membro do Grupo Assessor de Pessoas Eminentes sobre assuntos do G-20 para o Ministro das Finanças da Índia.

Gopinath foi eleita membro da Academia Americana de Artes e Ciências e da Sociedade de Econometria, e recebeu o prêmio “Distinguished Alumnus Award” da Universidade de Washington. Em 2019, figurou na relação de maiores pensadores globais compilada pela revista Foreign Policy; em 2014, foi incluída pelo FMI na lista dos 25 economistas mais promissores com menos de 45 anos e, em 2011, foi apontada Jovem Líder Mundial pelo Fórum Econômico Mundial. Foi agraciada pelo governo da Índia com o Pravasi Bharatiya Samman, a mais alta honraria outorgada a cidadãos indianos no exterior. Antes de se integrar ao corpo docente da Universidade de Harvard em 2005, foi professora adjunta de Economia da Booth School of Business da Universidade de Chicago.

Gita Gopinath nasceu na Índia. É cidadã norte-americana e cidadã ultramarina da Índia. Doutorou-se em Economia pela Universidade de Princeton em 2001, tendo concluído o ensino universitário básico no Lady Shri Ram College e obtido mestrados pela Faculdade de Economia de Délhi e pela Universidade de Washington.

Departamento de Comunicação do FMI
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