Unir esforços

Foto: LoveTheWind/iStock by Getty Images

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10 de agosto de 2021

As disparidades no acesso às vacinas e na capacidade de implementar políticas de apoio estão criando uma divergência crescente entre as economias avançadas e muitas economias de mercados emergentes e em desenvolvimento. Diante de déficits elevados e níveis históricos de endividamento, os países com acesso limitado ao financiamento enfrentam escolhas difíceis entre proporcionar o apoio necessário e preservar a estabilidade financeira.

Se não forem adotadas medidas decisivas para abordar essa desigualdade crescente, a Covid-19 continuará a ceifar vidas e destruir empregos, com danos permanentes ao investimento, à produtividade e ao crescimento dos países mais frágeis. A pandemia trará novos transtornos para os mais vulneráveis e os países verão um aumento da pobreza extrema e da desnutrição, aniquilando a esperança de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Reduzir as disparidades causadas pela pandemia exigirá, portanto, uma ação coletiva para promover o acesso a vacinas, garantir o financiamento essencial e acelerar a transição para um mundo mais verde, digital e inclusivo.

Garantir o financiamento

Em razão da pandemia, a dívida e os déficits aumentaram de forma acentuada em relação a níveis já historicamente elevados. Os déficits fiscais globais médios, como parcela do PIB, chegaram a 9,9% nas economias avançadas, 7,% nas economias de mercados emergentes e 5,2% nos países em desenvolvimento de baixa renda. Projeta-se que a dívida pública global fique próxima de 99% do PIB até o fim de 2021.

Nesse contexto, o apoio emergencial do FMI fez uma diferença crítica para salvar vidas e meios de subsistência. Em resposta à crise, o FMI concedeu 117 bilhões de dólares em financiamento e alívio da dívida a 85 países. Esse montante inclui a assistência financeira a 53 países de baixa renda e o alívio do serviço da dívida com base em doações para 29 dos países membros mais pobres e mais vulneráveis. Estimamos que, em 2020, graças ao apoio prestado pelo FMI, as economias de mercados emergentes puderam elevar os gastos públicos em 0,5% do PIB, e os países em desenvolvimento, em quase 1% do PIB. O FMI concentrou seu apoio onde ele era mais necessário.

Impacto do apoio do FMI

Graças às condições financeiras globais favoráveis, os países com baixo risco de crédito puderam reagir à pandemia com uma expansão considerável e duradoura dos gastos públicos. Contudo, nos países com acesso mais limitado ao financiamento externo, as projeções atuais indicam que os gastos públicos ficarão abaixo do previsto antes da pandemia.

Gastos por categoria de crédito

Um momento decisivo

Eliminar as disparidades no acesso a vacinas e vencer a pandemia exige uma ação multilateral urgente. O corpo técnico do FMI formulou recentemente uma proposta de 50 bilhões de dólares nesse sentido, endossada pela Organização Mundial da Saúde, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio. A proposta fixa um objetivo de vacinar pelo menos 40% da população de cada país até o fim de 2021 e pelo menos 60% até meados de 2022, com a garantia de recursos adequados para diagnósticos e tratamentos. Apesar dos avanços obtidos em diversas frentes, ainda é  necessário um impulso mais decisivo. O grupo de trabalho sobre vacinas contra a Covid-19 lançou também um painel de dados para identificar claramente e eliminar o quanto antes as lacunas no acesso às ferramentas de combate à Covid-19.

Os países terão também que estudar formas de mobilizar recursos internos e melhorar a qualidade dos gastos. A Covid-19 exacerbou a tensão entre as grandes necessidades de desenvolvimento e os recursos públicos escassos. Para gerar as receitas tão necessárias, os governos terão que reforçar seus sistemas tributários. Trata-se de uma tarefa especialmente árdua num momento em que a concorrência tributária, problemas na alocação da base de tributação e técnicas agressivas de planejamento tributário têm pressionado a tributação da renda.

Mas é possível aumentar a arrecadação, e isso terá que ser feito de forma a promover o crescimento e aumentar a inclusividade. Os governos devem estudar maneiras de melhorar a eficiência, simplificar os códigos tributários, reduzir a evasão fiscal e aumentar a progressividade. Igualmente essencial será o reforço da capacidade dos estados de cobrar impostos e o melhor aproveitamento do papel do setor privado. Enquanto perdurar a pandemia, a política fiscal terá de manter uma postura ágil em resposta às circunstâncias em constante evolução.

As ações coletivas podem ajudar a reduzir as disparidades. O fundo Next Generation da União Europeia – 50% dos seus recursos constituem doações – tem sido uma fonte importante de financiamento para os países membros da UE com espaço fiscal limitado. O acesso a esse fundo e os baixos custos de endividamento são fatores decisivos para explicar porque as projeções para as economias avançadas e de mercados emergentes da União Europeia não apresentam divergências.

A comunidade internacional terá que desempenhar um papel chave na obtenção de financiamento para os países mais vulneráveis. A recém-aprovada alocação geral de DES equivalente a 650 bilhões de dólares proporcionará aos países membros do FMI uma reserva adicional de liquidez para que possam enfrentar difíceis dilemas de políticas. A canalização dos DES dos países ricos para países em desenvolvimento irá ampliar esse apoio. O FMI está analisando junto a seus países membros a criação de um novo mecanismo – o Fundo Fiduciário para a Resiliência e a Sustentabilidade – para ajudar as economias emergentes e em desenvolvimento a enfrentar os desafios da mudança climática e construir economias resilientes. Mas essa assistência, por si só, não será suficiente; serão também necessárias outras fontes de auxílio dos doadores.

Um sinal positivo foi o acordo histórico de tributação internacional das empresas, endossado por mais de 130 países. O acordo prevê uma alíquota mínima de 15% sobre o lucro das empresas, que deve contribuir para o fim da “corrida para o fundo do poço” na tributação das empresas multinacionais. É essencial definir os pormenores para que o acordo ajude a mobilizar recursos para investimentos básicos em saúde, educação, infraestruturas e gastos sociais nos países em desenvolvimento.

Esse acordo promissor abre uma janela de oportunidade. A urgência dos desafios globais – a Covid-19, as mudanças climáticas e o desenvolvimento inclusivo – exige uma ação mundial. Este é um momento decisivo na história. Que 2021 fique marcado pela união de nossos esforços.

Sete medidas essenciais

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Vítor Gaspar, cidadão português, é Diretor do Departamento de Finanças Públicas do FMI. Antes de ingressar no FMI, ocupou vários cargos superiores na área de políticas do Banco de Portugal, inclusive, mais recentemente, o de Conselheiro Especial. Foi Ministro de Estado e das Finanças de Portugal de 2011 a 2013. Chefiou o Gabinete de Conselheiros de Política Econômica da Comissão Europeia de 2007 a 2010 e atuou como Diretor-Geral de Estudos Econômicos no Banco Central Europeu de 1998 a 2004. Doutorou-se e agregou-se em Economia pela Universidade Nova de Lisboa, tendo também estudado na Universidade Católica Portuguesa.

Gita Gopinath é Conselheira Econômica e Diretora do Departamento de Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI). É professora da cátedra John Zwaanstra de Estudos Internacionais e Economia do Departamento de Economia da Universidade de Harvard, de onde está licenciada.

Seus estudos concentram-se nas áreas de finanças internacionais e macroeconomia, com artigos publicados nos principais periódicos de prestígio. É autora de numerosos artigos sobre taxas de câmbio, comércio e investimento, crises financeiras internacionais, política monetária, dívida e crises de mercados emergentes.

Atualmente, é coeditora do Handbook of International Economics e foi coeditora da American Economic Review e editora-chefe da Review of Economic Studies. Serviu também como codiretora do programa de Finanças Internacionais e Macroeconomia do National Bureau of Economic Research (NBER), foi pesquisadora visitante do Banco da Reserva Federal de Boston e membro do painel de assessoria econômica do Banco da Reserva Federal de Nova York. De 2016 a 2018, foi Assessora Econômica do Ministro-Chefe de Kerala, na Índia. Serviu também como membro do Grupo Assessor de Pessoas Eminentes sobre assuntos do G-20 para o Ministro das Finanças da Índia.

Gopinath foi eleita membro da Academia Americana de Artes e Ciências e da Sociedade de Econometria, e recebeu o prêmio “Distinguished Alumnus Award” da Universidade de Washington. Em 2019, figurou na relação de maiores pensadores globais compilada pela revista Foreign Policy; em 2014, foi incluída pelo FMI na lista dos 25 economistas mais promissores com menos de 45 anos e, em 2011, foi apontada Jovem Líder Mundial pelo Fórum Econômico Mundial. Foi agraciada pelo governo da Índia com o Pravasi Bharatiya Samman, a mais alta honraria outorgada a cidadãos indianos no exterior. Antes de se integrar ao corpo docente da Universidade de Harvard em 2005, foi professora adjunta de Economia da Booth School of Business da Universidade de Chicago.

Gita Gopinath nasceu na Índia. É cidadã norte-americana e cidadã ultramarina da Índia. Doutorou-se em Economia pela Universidade de Princeton em 2001, tendo concluído o ensino universitário básico no Lady Shri Ram College e obtido mestrados pela Faculdade de Economia de Délhi e pela Universidade de Washington.