Os desafios económicos para a Europa após a pandemia

Foto: angeluisma/iStock by Getty Images

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20 de outubro de 2021

A implementação de uma política orçamental apropriada será mais difícil do que lidar com a inflação

A Europa enfrentou a pandemia de Covid-19 com audácia e imaginação e está a beneficiar de uma recuperação económica forte, mas irregular. Enfrenta agora dois grandes desafios: controlar a inflação e reduzir o apoio orçamental. A despeito da considerável incerteza acerca da inflação, os bancos centrais têm muita experiência a enfrentá-la e podem mobilizar os seus instrumentos com rapidez e flexibilidade. Em contrapartida, a supressão das medidas orientadas para as despesas de emergência que os governos introduziram para apoiar as suas economias constitui um esforço importante e complexo. Se os decisores políticos errarem, arriscam-se a que se volte a verificar o crescimento débil que se seguiu à crise financeira mundial de 2008.

As nossas projeções para 2022 indicam uma diminuição de cerca de 4 pontos percentuais do PIB nos défices orçamentais das principais economias avançadas, uma virada muito superior à que se seguiu à crise financeira mundial. Esta virada reflete sobretudo uma supressão do apoio relacionado com a pandemia, com apenas uma parte dos recursos reafetados ao incentivo à contratação e ao investimento. O seu impacto para o crescimento em 2022 só será contrariado de forma limitada pelo desembolso de fundos do Next Generation EU (instrumento europeu de recuperação) que visa apoiar os planos de recuperação e resiliência pós-Covid dos países da UE. Parte-se do pressuposto de que a procura privada se fortaleceu suficientemente para compensar a redução dos estímulos públicos, orientando a economia europeia para uma recuperação harmoniosa e não para um precipício orçamental.

Recuperação do emprego

No entanto, os riscos são muitos. Mais concretamente, a preocupação aqui não é os governos não fazerem nada no caso de surgirem novas vagas de vírus ou outros choques importantes. É antes que o crescimento nas economias avançadas se estabilize num valor insignificante de 1% ou menos no final de 2022, em vez das taxas de 2 a 3% das projeções atuais. Não é possível alterar rapidamente a política orçamental e os bancos centrais não estarão bem posicionados para ajudar, uma vez que as taxas diretoras já não podem diminuir mais. Todos os trimestres de atraso na consecução do pleno emprego aumentarão o desafio de as pessoas recuperarem os seus postos de trabalho. A questão é muito menos preocupante no caso das economias emergentes europeias, principalmente porque estas implementaram menos estímulos e beneficiam de taxas de crescimento potencial mais elevadas. Todavia, sofreriam da redução da procura das suas exportações por parte das suas contrapartes europeias avançadas.

Por outro lado, o aumento da inflação tem sido, em grande medida, impulsionado por forças que deverão desvanecer ao longo do tempo. À semelhança da recuperação da crise financeira mundial em 2010-11, os produtos energéticos têm sido o principal impulsionador, o que reflete, em grande medida, a forte recuperação da atividade económica, tendo os preços do petróleo regressado ao intervalo de variação prevalecente durante os anos anteriores à Covid.

Em alta

O aumento recente dos preços do gás natural também reflete fatores de curto prazo – incluindo a diminuição das existências após um inverno rigoroso e um verão quente em 2021, a escassez da produção de energias renováveis em alguns locais e uma menor oferta. O ajustamento em função das taxas de inflação homólogas dos preços dos produtos energéticos “para baixo e para cima” calculados ao longo de um horizonte de 24 meses está próximo do intervalo de variação anterior à Covid, conforme ilustrado no gráfico. É o que se verifica não obstante as perturbações na cadeia de fornecimento e os estrangulamentos que lhes estão associados estarem a exercer pressão sobre os preços dos bens duradouros, em especial tendo em conta a rápida recuperação da procura.

Prevê-se que estes desfasamentos entre a oferta e a procura diminuam ao longo de 2022, à medida que os padrões de consumo se normalizarem, as existências forem repostas e os estrangulamentos comerciais, em especial a disponibilização de contentores marítimos, forem solucionados. Além disso, a inflação na área do euro tem sido também impulsionada por fatores pontuais, tais como o termo, na Alemanha, de uma redução do imposto sobre o valor acrescentado aprovada em janeiro de 2021.

Efeitos de segunda ordem

Nenhum dos fatores que impulsionam atualmente a inflação responderia a alterações na política monetária. Pelo contrário, a política monetária teria de assegurar que não desencadeia uma espiral inflacionista preços-salários. Felizmente, o risco de tais efeitos de segunda ordem é limitado em muitas economias avançadas europeias, onde a subutilização do mercado de trabalho continua a ser significativa. Estimamos, por exemplo, que as horas trabalhadas se continuem a situar em cerca de 3% abaixo dos níveis anteriores à Covid. Além disso, no tocante ao emprego anterior à crise, os bancos centrais tiveram de enfrentar a inflação que era demasiado baixa e não demasiado elevada. Nada disso nega o facto de que existe considerável incerteza quanto à duração dos choques nos preços e à dimensão exata da subutilização nas economias avançadas. De um modo geral, porém, as nossas previsões e as dos analistas, bem como as medidas baseadas no mercado relativas às expectativas de inflação, sugerem que o Banco Central Europeu, mais uma vez, terá dificuldade em alcançar o seu objetivo de médio prazo de inflação de cerca de 2%.

Em várias economias europeias emergentes, onde o produto e o emprego já estão próximos dos níveis anteriores à Covid, o terreno para efeitos de segunda ordem é mais fértil. Além disso, as expectativas de inflação estão numa trajetória ascendente, sendo provável que os salários reajam de forma mais forte à medida que a subutilização do mercado de trabalho continua a diminuir. Estas economias começaram, com razão, a aumentar as suas taxas de juro diretoras para níveis anteriores à pandemia. Mas mesmo nestes casos, enquanto mantêm um olhar atento sobre a evolução dos salários, os bancos centrais não precisam de acelerar este processo, dado o elemento temporário da inflação.

Manutenção do dinamismo

Em suma, os decisores políticos poderiam encontrar-se facilmente numa situação muito semelhante à das fases iniciais da recuperação da crise financeira mundial de há mais de uma década. Existem muitos motivos para reduzir os défices orçamentais muito elevados. No entanto, tal exigirá também um forte crescimento das receitas e, por conseguinte, uma atividade forte, que poderá ser utilmente apoiada por transferências adicionais destinadas às famílias necessitadas, por mais despesas com incentivos à contratação e por créditos fiscais ao investimento. Encontrar o ritmo apropriado da retirada do apoio orçamental será um exercício delicado. A orientação para uma retirada demasiado pequena do apoio orçamental, em vez de demasiado elevada, parece ser a melhor linha de atuação, em especial nas economias com um amplo espaço orçamental, de modo a salvaguardar o risco de diminuir excessivamente o dinamismo da recuperação.

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Alfred Kammer é o Diretor do Departamento da Europa do Fundo Monetário Internacional desde agosto de 2020. Nessa função, supervisiona o trabalho do FMI com a Europa.

Anteriormente, foi Chefe do Gabinete da Diretora-Geral, assessorando a Diretora em questões estratégicas e operacionais e supervisionando as operações da equipe da Direção-Geral. Foi também Subdiretor do Departamento de Estratégia, Políticas e Avaliação, supervisionando o trabalho sobre a estratégia e a política de supervisão do FMI; Subdiretor do Departamento do Oriente Médio e Ásia Central, supervisionando a evolução económica e as questões do setor financeiro da região; Diretor do Gabinete de Gestão da Assistência Técnica, assessorando a Direção-Geral nas operações de assistência técnica e supervisionando a captação de recursos e parcerias globais para capacitação; e Assessor do Subdiretor-Geral. Além disso, atuou como representante residente do FMI na Rússia. Desde que ingressou no FMI, trabalhou com países da África, Ásia, Europa e Oriente Médio, e numa ampla gama de questões estratégicas e de política económica.