É preciso agir em conjunto para garantir a recuperação

Foto:  REMO CASILLI/REUTERS/Newscom

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27 de outubro de 2021

Quando os líderes do G-20 se reunirem em Roma neste fim de semana, podem se inspirar no design arrojado do local da reunião, conhecido como La Nuvola.

Assim como o arquiteto criou um novo e impressionante espaço, os líderes mundiais precisam tomar medidas ousadas já para pôr fim à pandemia e criar espaço para uma economia mais sustentável e inclusiva.

A boa notícia é que o alicerce para a recuperação continua forte, graças ao efeito combinado das vacinas e das extraordinárias medidas de política tomadas de forma sincronizada sob a liderança do G-20. No entanto, nosso avanço é dificultado, sobretudo, pelas novas variantes do vírus e seu impacto econômico, assim como pelas rupturas na cadeia de suprimentos.

Recentemente, o FMI reduziu para 5,9% sua previsão do crescimento mundial para este ano. As perspectivas são altamente incertas, e predominam os riscos de deterioração da conjuntura. A inflação e os níveis de endividamento estão subindo em muitas economias. A divergência das fortunas econômicas está se tornando mais persistente, pois muitos países em desenvolvimento precisam desesperadamente de vacinas e de recursos para apoiar suas recuperações.

Então o que deve ser feito?

O nosso novo relatório para o G-20 exige medidas decisivas dentro de cada economia. Por exemplo, a política monetária deve mirar além dos aumentos transitórios da inflação, mas as autoridades devem estar preparadas para agir rapidamente se os riscos de alta das expectativas de inflação se tornarem palpáveis. Neste caso, a comunicação clara dos planos de política é mais importante do que nunca para evitar que repercussões adversas atravessem fronteiras.

A calibragem cuidadosa das políticas monetária e fiscal, combinada com quadros de médio prazo sólidos, pode gerar mais espaço para gastos com saúde e grupos vulneráveis. Essa calibragem pode proporcionar benefícios rápidos até 2022.

Depois disso, a maior parte dos ganhos adicionais vem de reformas estruturais que fortaleçam o crescimento — como políticas para o mercado de trabalho que apoiem a busca por emprego e a recapacitação, além da reforma da regulamentação do mercado de produtos para reduzir as barreiras à entrada e, assim, criar oportunidades para novas empresas. Esse pacote de políticas de curto a médio prazo poderia dar ao PIB real agregado do G-20 um impulso de cerca de US$ 4,9 trilhões até 2026.

Os benefícios das medidades de política

É claro que, dada a gravidade dos desafios, as medidas de política interna não são suficientes. Também precisamos não apenas de compromissos, mas sim de medidas conjuntas imediatas lideradas pelo G-20 em três prioridades:

Primeiro, pôr fim à pandemia, eliminando os déficits de financiamento e compartilhando as doses de vacinas.

A pandemia continua a ser o maior risco para a saúde da economia, e o seu impacto é agravado pela desigualdade no acesso às vacinas e pelas grandes disparidades no poder de fogo fiscal. É por isso que precisamos alcançar as metas propostas pelo FMI, juntamente com o Banco Mundial, a OMC e a OMS: vacinar pelo menos 40% das pessoas em todos os países até o fim de 2021, e 70% até meados de 2022.

 

Mas ainda estamos atrasados: cerca de 75 nações, a maioria na África, estão muito longe de atingir a meta proposta para 2021.

 

Previsão do fornecimento efetivo de vacinas no fim de 2021

Para recuperar o atraso desses países, o G-20 deve fornecer cerca de US$ 20 bilhões a mais em subsídios para testes, tratamento, suprimentos médicos e vacinas. Esses recursos adicionais fechariam uma brecha vital em termos de financiamento.

 

Também precisamos de medidas imediatas para impulsionar o fornecimento de vacinas nos países em desenvolvimento. Embora os países do G-20 tenham prometido mais de 1,3 bilhão de doses à COVAX, menos de 170 milhões foram entregues. Assim, é crucial que os países cumpram suas promessas imediatamente.

 

Não menos importante é a troca de cronogramas de entrega das doses já contratadas, permitindo que o comprador com necessidades mais urgentes seja o primeiro da fila. Os países com elevada cobertura vacinal devem trocar os cronogramas de entrega com o COVAX e o AVAT para acelerar as entregas aos países vulneráveis.

Devemos tomar essas e outras medidas para salvar vidas e fortalecer a recuperação. Se a Covid-19 tiver um impacto prolongado, pode reduzir o PIB mundial em US$ 5,3 trilhões acumulados nos próximos cinco anos, em relação à projeção atual. Precisamos fazer melhor do que isso!

Segundo, ajudar os países em desenvolvimento a enfrentar as necessidades financeiras.

Mesmo com a recuperação mundial em curso, muitos países ainda estão sofrendo muito. Basta lembrar que a pandemia provocou um pico de pobreza e de fome, elevando para mais de 800 milhões o número de pessoas que estavam subnutridas em 2020.

Nessa situação precária, não se deve pedir às nações vulneráveis que escolham entre pagar aos credores e oferecer assistência médica e socorro para enfrentar a pandemia.

De facto, alguns dos países mais pobres do mundo foram beneficiados pela suspensão temporária dos pagamentos da dívida soberana aos credores oficiais, por iniciativa do G‑20. Agora precisamos acelerar a implementação do Quadro Comum do G‑20 para a resolução da dívida. O essencial é dar mais clareza à aplicação do quadro e oferecer incentivos aos devedores para buscar o tratamento no âmbito do Quadro assim que houver sinais claros de que o superendividamento esteja se agravando. O envolvimento precoce com todos os credores, incluídos os do setor privado, e a aceleração dos prazos para a resolução da dívida farão a diferença em termos da função e atratividade do Quadro Comum.

Oferecer ajuda para lidar com a dívida é importante, mas não é suficiente. Dadas as suas enormes necessidades de financiamento, muitas nações em desenvolvimento necessitarão de mais apoio para mobilizar receitas, bem como de mais doações, financiamento concessional e apoio à liquidez. Nessa área, o FMI intensificou seus esforços de forma sem precedentes, por exemplo, ao conceder novos financiamentos a 87 países e fazer uma alocação histórica de Direitos Especiais de Saque (DES) correspondente a US$ 650 bilhões.

Os países já se beneficiaram da detenção dos novos DES como parte das suas reservas oficiais. Além disso, alguns estão usando parte dos seus DES para necessidades prioritárias, como a importação de vacinas, o aumento da capacidade de produção de vacinas e o apoio às famílias mais vulneráveis.

Estamos agora pedindo aos países com posições externas fortes que forneçam voluntariamente parte da sua alocação de DES para o nosso Fundo Fiduciário para a Redução da Pobreza e o Crescimento, ampliando nossa capacidade de conceder empréstimos a juro zero a países de baixa renda.

Terceiro, comprometer-se com um pacote abrangente para zerar as emissões líquidas de carbono até meados do século.

Uma nova análise do corpo técnico do FMI projeta que aumentar a eficiência energética e fazer a transição para energias renováveis poderiam ser um gerador líquido de empregos porque as tecnologias renováveis tendem a exigir mais mão de obra do que os combustíveis fósseis. Na verdade, um plano de investimento abrangente com uma combinação de políticas de fornecimento verdes poderia elevar o PIB mundial em cerca de 2% nesta década e gerar 30 milhões de novos empregos.

Em outras palavras, ao intensificarmos os esforços para atingir emissões líquidas zero, podemos aumentar a prosperidade — mas apenas se agirmos juntos e ajudarmos a garantir uma transição que beneficie a todos. Os mais vulneráveis nas sociedades e entre os países necessitarão de mais ajuda para promover a transformação estrutural para uma economia de baixo carbono.

Uma coisa é certa: atribuir um preço robusto ao carbono está no centro de qualquer pacote de políticas abrangente. Aqui, a liderança do G-20 será crucial, sobretudo quando se trata de mobilizar apoio para um piso internacional para o preço do carbono. Um movimento sincronizado também pode ajudar a superar as dificuldades políticas.

Numa proposta apresentada pelo FMI, o piso do preço no caso dos grandes emissores de carbono levaria em conta o nível de desenvolvimento do país. Além disso, permitiria regulamentações equivalentes em vez de um mecanismo de preços explícito – como o comércio de emissões. Isso poderia impulsionar os cortes de gases do efeito estufa num momento crucial para o mundo.

Na COP26, em Glasgow, os líderes do G-20 terão uma oportunidade única de mover o ponteiro do carbono na direção certa e apoiar as economias em desenvolvimento. É nesses países que a população e a demanda por energia crescem mais rapidamente. Contudo, eles têm o menor poder de fogo fiscal para aumentar os investimentos na adaptação às alterações climáticas e na redução de emissões — e não raro carecem da tecnologia necessária.

Isso exige, no mínimo, que os países mais ricos cumpram sua promessa de longa data de fornecer US$ 100 bilhões por ano para investimentos verdes nos países em desenvolvimento.

Da nossa parte, estamos estendendo uma chamada para canalizar DES para estabelecer o novo Fundo de Resiliência e Sustentabilidade que nossos países membros endossaram fortemente nas nossas Reuniões Anuais. Esse mecanismo atenderá às necessidades dos países de baixa renda e dos países vulneráveis de média renda na transição para uma economia mais verde, entre outras coisas.

Concluir e fortalecer ainda mais o acordo histórico sobre um imposto mínimo mundial sobre as empresas também ajudará a mobilizar receitas para investimentos transformadores.

Essas e outras prioridades estarão no topo das preocupações dos líderes mundiais ao se reunirem em La Nuvola.

Essa estrutura futurista e versátil foi construída graças a uma combinação de visão, cooperação e trabalho árduo — exatamente o que precisamos do G-20 neste momento crucial. Para assegurar a recuperação e construir um futuro melhor para todos, devemos tomar medidas fortes e conjuntas já.

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Kristalina Georgieva (bio no link)