As economias da África Subsariana entraram em 2026 com uma forte dinâmica positiva. A região tinha registado o seu crescimento mais rápido desde há 10 anos – 4,5% em 2025 –, impulsionado pela redução dos desequilíbrios macroeconómicos, pelo aumento dos níveis de investimento e por uma conjuntura externa globalmente favorável. Países como o Benim, a Côte d'Ivoire, a Etiópia e o Ruanda lideraram esta tendência, registando um crescimento superior a 6%. A taxa de inflação mediana caiu para aproximadamente 3,5% e os níveis da dívida pública começaram a baixar. Estes ganhos foram conquistados a custo, fruto de reformas politicamente difíceis, mas importantes, como o realinhamento das taxas de câmbio, uma melhor afetação das despesas e políticas monetárias mais restritivas.
Os progressos efetuados a nível orçamental foram particularmente marcantes. O saldo primário da administração pública na região tem melhorado de forma constante, situando-se atualmente em níveis próximos do equilíbrio. Por outro lado, os défices primários, tanto nas economias avançadas como noutros mercados emergentes, mantiveram-se em níveis notoriamente mais elevados em 2025 do que antes da pandemia. A África Subsariana conseguiu esta consolidação, mantendo, em simultâneo, um crescimento razoavelmente sólido e reduzindo a inflação, graças a reformas ousadas e apesar dos fatores adversos provocados pela elevada incerteza a nível mundial, e da substancial redução do financiamento em condições concessionais.

No momento em que a região começava a preservar estes ganhos, a guerra no Médio Oriente provocou um novo choque significativo que ameaça abrandar, ou mesmo desfazer, os progressos alcançados. A guerra causou um aumento dos preços mundiais do petróleo, do gás e dos fertilizantes, perturbou rotas comerciais e tornou as condições financeiras mais restritivas. Esta evolução está a prejudicar as perspetivas regionais.
Este ano, prevê-se que o crescimento abrande para 4,3%, cerca de 0,3 pontos percentuais abaixo das previsões efetuadas antes da guerra, e projeta-se que a inflação aumente. Em comparação com a situação mundial, esta evolução pode parecer benigna, mas, numa região em que o crescimento rápido é indispensável para gerar milhões de novos empregos para uma população em rápida expansão, qualquer abrandamento do crescimento é problemático. Os países importadores de petróleo, muitos dos quais são Estados frágeis ou de baixos rendimentos, deparam-se com uma deterioração da balança comercial e com um aumento do custo de vida. Os países exportadores de petróleo poderão beneficiar dos preços do petróleo mais elevados, mas continuam expostos à volatilidade e à tentação de efetuar despesas pró-cíclicas.

Além disso, os riscos estão a agravar-se. Um conflito prolongado poderá inflacionar ainda mais os preços das matérias-primas, desencadear um episódio de aversão ao risco nos mercados mundiais e obrigar à adoção de medidas abruptas de consolidação orçamental em países com elevadas necessidades de refinanciamento. Segundo um cenário muito pessimista, conforme descrito nas Perspetivas Económicas Mundiais mais recentes do FMI (World Economic Outlook), o produto regional poderá situar-se este ano 0,6% abaixo das previsões anteriores à guerra, com os países importadores de petróleo a serem os mais afetados. Além disso, a inflação poderá aumentar mais 2,4 pontos percentuais.
Os custos humanos são igualmente elevados. A insegurança alimentar é uma ameaça real: a região continua muito vulnerável a choques nos preços dos produtos alimentares e a guerra já causou um aumento dos preços dos fertilizantes e do transporte marítimo. Um aumento de 20% dos preços internacionais dos produtos alimentares poderá colocar mais de 20 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar e deixar 2 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade em situação de malnutrição grave. Os choques climáticos agravam ainda mais a pressão – as recentes cheias em Moçambique e Madagáscar evidenciam a profunda vulnerabilidade da região a perturbações climáticas.
A redução sem precedentes da ajuda externa elimina uma margem de absorção de choques essencial. Ao contrário das contrações sentidas no passado, 2025 caracterizou-se por uma quebra estrutural drástica dos fluxos de ajuda, tendo os cortes afetado mais severamente os Estados mais frágeis e ameaçado desmantelar serviços essenciais – especialmente os cuidados de saúde – em países que não dispõem de fontes de financiamento alternativas.
As vulnerabilidades da dívida também estão a aumentar. Mais de um terço dos países está em risco elevado de sobre-endividamento ou já está sobre-endividado. Em 21 países, os défices orçamentais excedem os níveis necessários para estabilizar a dívida. A subida dos encargos com juros e a redução do financiamento em condições concessionais estão a agravar os encargos com o serviço da dívida e a reduzir a margem outrora disponível para despesas prioritárias em prol do desenvolvimento. Em alguns casos, o crescente recurso à contração de empréstimos internos aprofundou os vínculos entre a dívida pública e os balanços dos bancos, elevando o risco de instabilidade financeira.

Nesta conjuntura tensa, os responsáveis pela formulação de políticas têm de gerir várias pressões diferentes. No curto prazo, devem ancorar as expectativas de inflação, proteger os mais vulneráveis dos efeitos da subida dos preços e evitar políticas orçamentais pró-cíclicas. Os países exportadores de petróleo devem considerar que os lucros inesperados são efémeros e usá-los para reconstituir margens e reforçar as redes de segurança social. Os países importadores de petróleo que tenham margem orçamental podem proporcionar um apoio bem direcionado e limitado no tempo; os que não têm margem devem dar prioridade ao aumento da eficiência da despesa e das receitas internas.
Apesar de os responsáveis pela formulação de políticas estarem concentrados na resposta ao choque imediato, a agenda de reformas a médio prazo não pode esperar. Agora, é ainda mais importante acelerar as reformas estruturais, a fim de promover o crescimento e a resiliência. Melhorar o ambiente empresarial, reforçar a governação e reformar as empresas públicas, especialmente nos setores da energia, dos transportes e das telecomunicações, pode ajudar a atrair investimento e a aumentar a produtividade. Aprofundar a integração regional através da Zona de Comércio Livre Continental Africana pode melhorar a resiliência das cadeias de abastecimento e alargar os mercados para os produtores locais.
A transformação digital é promissora, mas também chama a atenção para as lacunas da região em termos de infraestruturas. A inteligência artificial já está a ajudar os agricultores a aumentarem as suas colheitas, os médicos a melhorarem diagnósticos e os estudantes a dominarem conceitos mais rapidamente, mas, para aumentar a escala destas inovações, será necessário investir em eletricidade, no acesso à Internet, nas competências digitais e na governação dos dados. Hoje, apenas 53% da população da região tem acesso à eletricidade e somente 38% à Internet.
Papel da comunidade internacional
A comunidade internacional tem um papel a desempenhar, especialmente num momento em que as dificuldades económicas que vários países enfrentam foram provocadas, em grande parte, por choques que estão fora do seu controlo. Um financiamento previsível, assistência técnica e apoio ao desenvolvimento de capacidades podem ajudar os países a atravessar as tempestades atuais e a manter a dinâmica em prol das reformas. Importa dar prioridade à ajuda aos países frágeis e de baixo rendimento, em que as fontes de financiamento alternativas são escassas. O FMI já está profundamente empenhado, desenvolvendo programas em 22 dos 45 países da região, e está pronto para intensificar o apoio para os membros que se deparem com fortes pressões sobre a balança de pagamentos decorrentes da guerra.
O otimismo com que o ano de 2026 teve início tinha razão de ser: foi conquistado ao cabo de anos de reformas difíceis, mas necessárias. As repercussões da guerra no Médio Oriente estão agora a pôr esses progressos à prova, mas não é inevitável que os eliminem. Os responsáveis pela formulação de políticas africanos já deram provas de conseguir alcançar resultados sob pressão. As escolhas que fizerem agora – mantendo as medidas sobre a inflação, protegendo os mais vulneráveis dos piores efeitos do choque e resistindo à tentação de desfazer as reformas que lhes permitiram chegar até aqui – determinarão se estes avanços conseguidos a custo serão ou não preservados. O papel da comunidade internacional é apoiar esse esforço, mas a ousadia e determinação que o momento exige terá de partir de dentro da região.
— O conteúdo deste blogue é baseado na edição de abril de 2026 do relatório Perspetivas Económicas Regionais para a África Subsariana, intitulado “Pressão sobre ganhos económicos conquistados a custo”, elaborado por Cleary Haines, Michele Fornino, Saad Quayyum, Can Sever, Nikola Spatafora e Felix Vardy.