Washington DC: O Conselho de
Administração do Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu a consulta a
Angola, ao abrigo do Artigo
IV[1].
A recuperação económica vivida por Angola em 2021–2022 foi quase
interrompida em 2023 por um choque duplo ocorrido no primeiro semestre do
ano, com um enfraquecimento do setor petrolífero e o fim da moratória da
dívida. Estima-se um crescimento de 0,5% para 2023, com uma contração
estimada do setor petrolífero de 6,1% e um crescimento dos setores não
petrolíferos menos acentuado, de 2,9%. A inflação global aumentou
significativamente em 2023, para 20% em termos homólogos no final de
dezembro, impulsionada pela depreciação do kwanza e por cortes nos
subsídios aos combustíveis efetuados em meados de 2023.
Em reação ao choque, as autoridades adotaram uma orientação orçamental mais
restritiva no segundo semestre de 2023, reduzindo as despesas de capital e
os bens e serviços relacionados e implementando a primeira fase da sua
reforma dos subsídios aos combustíveis, em junho de 2023. Estas medidas de
política resultaram num saldo orçamental primário global de -0,1% do PIB e
num saldo orçamental primário não petrolífero de -6,3% do PIB. Entretanto,
segundo as projeções, o rácio dívida pública/PIB aumentou 19 pontos
percentuais, para cerca de 84% do PIB, em 2023, impulsionado sobretudo por
uma taxa de câmbio significativamente mais fraca. A depreciação do
kwanza, em junho de 2023, ajudou a economia a adaptar-se à redução das
exportações de petróleo e a preservar as reservas internacionais, que se
mantiveram ao nível correspondente a cerca de 7 meses da taxa de cobertura
das importações pelas exportações. A taxa de câmbio manteve-se globalmente
estável desde então.
Prevê-se que o crescimento económico recupere a curto prazo, apoiado pela
produção reforçada de petróleo e pela recuperação do setor não petrolífero.
Espera-se que a inflação permaneça temporariamente elevada em 2024,
baixando gradualmente em seguida, à medida que diminuam os efeitos da
eliminação dos subsídios e as repercussões da depreciação da taxa de câmbio
nominal. Entretanto, o saldo orçamental primário deverá melhorar e
permanecer positivo, graças à continuação prevista da reforma dos subsídios
aos combustíveis, ao início da redução dos custos do serviço da dívida em
2024 e à recuperação esperada do crescimento. Os riscos de deterioração da
conjuntura para as perspetivas a curto prazo incluem um declínio maior do
que o esperado nos preços do petróleo a nível mundial e/ou na produção
nacional de petróleo, assim como uma implementação tardia da reforma dos
subsídios aos combustíveis. As probabilidades de materialização de
projeções otimistas provêm, sobretudo, de preços do petróleo superiores ao
esperado.
Avaliação do Conselho de Administração[2]
Os Administradores do FMI concordaram com a essência da avaliação do corpo
técnico. Reconheceram que a recuperação económica de Angola foi quase
interrompida em 2023, com o enfraquecimento do setor petrolífero e o fim da
moratória da dívida. Ao mesmo tempo, os riscos para as perspetivas continuam
elevados, e incluem uma elevada dependência em relação ao setor petrolífero,
vulnerabilidades relativas à dívida e ao setor bancário, bem como um acesso
incerto aos mercados. Neste contexto, os Administradores do FMI salientaram
a necessidade de prosseguir a consolidação orçamental e as reformas
estruturais, com o apoio da assistência técnica do FMI e de outros
parceiros para o desenvolvimento, a fim de manter a estabilidade
macroeconómica e de promover um crescimento diversificado, resiliente e
inclusivo.
Os Administradores do FMI concordaram que a continuação da consolidação
orçamental e das reformas neste domínio são essenciais para reforçar a
sustentabilidade orçamental e da dívida pública. Acolheram favoravelmente a
continuação da redução dos subsídios aos combustíveis prevista no orçamento
de 2024 e salientaram a importância de uma boa implementação, acompanhada
por uma comunicação atempada e eficaz e por medidas de mitigação bem
direcionadas. Instaram também as autoridades a acelerar a implementação de
reformas orçamentais estruturais, a fim de reforçar a credibilidade do
orçamento e dos planos de contingência, bem como de reforçar a mobilização
de receitas, a definição das despesas prioritárias e a gestão da dívida.
Os Administradores do FMI concordaram quanto à necessidade de manter uma
orientação restritiva da política monetária, para conter a taxa de câmbio e
as pressões inflacionárias. Embora tenham saudado o facto de a maioria das
recomendações formuladas na avaliação das medidas de salvaguarda ter sido
implementada, destacaram a necessidade de continuar a reforçar o quadro de
implementação da política monetária por forma a melhorar a sua transmissão,
nomeadamente melhorando a gestão da liquidez, as comunicações do banco
central e a coordenação com o Ministério das Finanças. Os Administradores
do FMI apoiaram também a continuação dos esforços destinados a mudar para
um regime de metas de inflação, a melhorar o funcionamento do mercado
cambial, a desenvolver uma política de intervenção cambial assente em
regras, ao abrigo do Quadro Integrado de Políticas do FMI, e a assegurar a
flexibilidade das taxas de câmbio, enquanto importante reserva contra
choques.
Os Administradores do FMI instaram as autoridades a prosseguir os esforços
para reforçar a estabilidade financeira, aproveitando os fortes progressos
registados anteriormente. Assinalaram a importância de implementar
efetivamente a nova regulamentação de supervisão e a colocar em
funcionamento o quadro de resolução bancária. Há também que prosseguir os
esforços destinados a aumentar a intermediação financeira e o crédito ao
setor privado.
Os Administradores do FMI salientaram a necessidade de implementar
eficazmente o Plano de Desenvolvimento Nacional, a fim de assegurar um
crescimento mais diversificado e resiliente. As prioridades devem incidir
sobre a promoção do capital humano, nomeadamente através da redução das
disparidades entre homens e mulheres, com o apoio de despesas sociais e de
investimento público eficientes; sobre a melhoria do ambiente empresarial e
do acesso a serviços financeiros; sobre o reforço da adaptação às
alterações climáticas e da resiliência face às mesmas; e sobre a continuação
dos esforços de combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do
terrorismo, de melhoria da governação e de combate à corrupção. Os
Administradores do FMI assinalaram que os esforços relativos a todos estes
aspetos são macroeconomicamente críticos para Angola.
Espera-se que a próxima consulta a Angola, ao abrigo do Artigo IV, tenha
lugar no ciclo normal de 12 meses.
Angola: Principais Indicadores Económicos, 2022–2024
|
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|
2022
|
|
2023
|
2024
|
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|
Prel.
|
|
Proj.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
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|
|
|
|
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|
|
|
Economia real (variação percentual, salvo
indicação em contrário)
|
|
Produto interno bruto real
|
|
|
3,0
|
|
0,5
|
2,6
|
|
Setor petrolífero
|
|
|
0,5
|
|
-6,1
|
1,2
|
|
Setor não petrolífero
|
|
|
4,2
|
|
2,9
|
3,0
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Produto interno bruto (PIB) nominal
|
|
|
20,1
|
|
13,9
|
27,7
|
|
Setor petrolífero
|
|
|
5,8
|
|
5,8
|
33,8
|
|
Setor não petrolífero
|
|
|
26,4
|
|
16,9
|
25,7
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Deflator do PIB
|
|
|
16,5
|
|
13,4
|
24,5
|
|
Deflator do PIB não petrolífero
|
|
|
21,4
|
|
13,6
|
22,0
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Preços no consumidor (média anual)
|
|
|
21,4
|
|
13,6
|
22,0
|
|
Preços no consumidor (final do período)
|
|
|
13,8
|
|
20,0
|
18,0
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Produto interno bruto (em mil milhões de kwanzas)
|
|
|
56.769
|
|
64.678
|
82.591
|
|
Produto interno bruto petrolífero (em mil milhões de
kwanzas)
|
|
|
15.322
|
|
16.206
|
21.680
|
|
Produto interno bruto não petrolífero (em mil milhões de
kwanzas)
|
|
41.447
|
|
48.472
|
60.911
|
|
Produto interno bruto (em mil milhões de USD)
|
|
|
122,8
|
|
94,4
|
92,4
|
|
Produto interno bruto per capita (em USD)
|
|
|
3.439
|
|
2.566
|
2.438
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Administração central(em percentagem do
PIB)
|
|
|
|
|
|
|
|
Total de receitas
|
|
|
23,2
|
|
20,0
|
20,8
|
|
D/q: Petrolíferas
|
|
|
13,6
|
|
12,1
|
12,8
|
|
D/q:Impostos não petrolíferos
|
|
|
7,9
|
|
6,7
|
6,7
|
|
Total de despesas
|
|
|
22.5
|
|
20,1
|
18,2
|
|
Despesas correntes
|
|
|
16,4
|
|
16,4
|
15,2
|
|
Despesas de capital
|
|
|
6,1
|
|
3,8
|
3,0
|
|
Saldo orçamental global
|
|
|
0,7
|
|
-0,1
|
2,6
|
|
Saldo orçamental primário não petrolífero
|
|
|
-8,5
|
|
-6,3
|
-4,5
|
|
Saldo orçamental primário não petrolífero (em percentagem
do PIB não petrolífero)
|
|
-11,6
|
|
-8,4
|
-6,1
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Moeda e crédito (fim de período, variação
percentual)
|
|
|
Agregado monetário (M2)
|
|
|
-1,4
|
|
23,8
|
19,1
|
|
% do PIB
|
|
|
20,0
|
|
21,7
|
20,3
|
|
Velocidade (PIB/M2)
|
|
|
5,0
|
|
4,6
|
4,9
|
|
Velocidade (PIB não petrolífero/M2)
|
|
|
3,6
|
|
3,4
|
3,6
|
|
Crédito ao setor privado (variação percentual anual)
|
|
-4,8
|
|
12,8
|
12,7
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Balança de pagamentos
|
|
|
|
|
|
|
|
Balança comercial (em percentagem do PIB)
|
|
|
26,7
|
|
23,4
|
25,1
|
|
Exportações de bens, FOB (em percentagem do PIB)
|
|
|
40,7
|
|
38,2
|
39,6
|
|
D/q: Exportações de petróleo e gás (em
percentagem do PIB)
|
|
|
38,7
|
|
35,4
|
36,5
|
|
Importações de bens, FOB (em percentagem do PIB)
|
|
|
14,1
|
|
14,8
|
14,6
|
|
Termos de troca (variação percentual)
|
|
|
35,2
|
|
-21,5
|
-2,1
|
|
Saldo da conta corrente (em percentagem do PIB)
|
|
|
9,6
|
|
3,1
|
4,9
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Reservas internacionais brutas (fim do período, em
milhões de USD)
|
|
14.661
|
|
14.733
|
15.141
|
|
Reservas internacionais brutas (meses de importações do
próximo ano)
|
|
7,3
|
|
7,6
|
7,6
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Taxa de câmbio
|
|
|
|
|
|
|
|
Taxa de câmbio oficial (média, em kwanzas por USD)
|
|
462
|
|
…
|
…
|
|
Taxa de câmbio oficial (no fim do período, em kwanzas por
USD)
|
|
504
|
|
…
|
…
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Dívida pública (em percentagem do PIB)
|
|
|
|
|
|
|
|
Dívida (bruta) do setor público1
|
|
|
64,8
|
|
84,5
|
69,5
|
|
D/q: Dívida da administração central
|
|
|
60,5
|
|
78,1
|
65,6
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Petrolífero
|
|
|
|
|
|
|
|
Produção de petróleo e de gás
(milhões de barris por dia)
|
|
1,250
|
|
1,205
|
1,241
|
|
Exportações de petróleo e gás (em mil milhões de USD)
|
|
|
47,5
|
|
33,4
|
33,7
|
|
Preço do petróleo de Angola (média, em USD por barril)
|
|
|
100,3
|
|
81,0
|
78,7
|
|
Preço do petróleo Brent (média, em USD por barril)
|
|
|
99,0
|
|
82,7
|
80,1
|
|
Fontes: Autoridades angolanas e estimativas e projeções
do corpo técnico do FMI.
|
|
1Inclui a dívida da administração central, a
dívida externa da petrolífera estatal Sonangol e da
companhia aérea estatal TAAG, e a dívida garantida.
|
[1]
Ao abrigo do Artigo IV do seu Convénio Constitutivo, o FMI mantém
discussões bilaterais com os seus países membros, normalmente com
uma periodicidade anual. Uma equipa de especialistas da instituição
visita o país, recolhe informações de natureza económica e
financeira e discute com os responsáveis a evolução e as políticas
económicas do país. De regresso à sede do FMI, os especialistas
elaboram um relatório, que constitui a base para as discussões do
Conselho de Administração.
[2]
Concluídas as discussões, a Diretora-Geral, na qualidade de
Presidente do Conselho, resume os pontos de vista dos
Administradores do FMI e este resumo é transmitido às autoridades
do país. Uma explicação dos termos eventualmente empregados no
resumo pode ser consultada no endereço:
http://www.imf.org/external/np/sec/misc/qualifiers.htm