Washington, DC: A Diretoria Executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu a consulta [1] com o Brasil nos termos do Artigo IV.
Nos últimos dois anos, a economia brasileira demonstrou notável resiliência, com a inflação recuando para o intervalo de tolerância da meta. O crescimento do PIB real em 2,9%, em 2023, foi consideravelmente superior ao projetado no início do ano, graças aos níveis recordes da colheita agrícola e da produção de hidrocarbonetos e à resiliência do setor de serviços. O consumo foi vigoroso, em meio a um mercado de trabalho forte e a um estímulo fiscal significativo. A atividade econômica no início do ano permaneceu robusta.
Projeta-se uma desaceleração do crescimento para 2,1% em 2024, refletindo uma política monetária ainda restritiva, a redução do déficit fiscal, a calamidade das enchentes no Rio Grande do Sul e a normalização da produção agrícola. A previsão é que o crescimento se fortaleça no médio prazo, chegando a 2,5%, uma revisão de 0,5 ponto percentual para cima desde a consulta do Artigo IV de 2023, impulsionado pelos ganhos de eficiência decorrentes da reforma dos impostos indiretos e do aumento da produção de hidrocarbonetos. O investimento em oportunidades de crescimento verde pode elevar ainda mais o potencial econômico. A inflação deve voltar para a meta de 3% no primeiro semestre de 2026.
Os riscos para as perspectivas de crescimento melhoraram desde a consulta de 2023, mas continuam a pender um pouco para baixo, enquanto a incerteza permanece. No fronte externo, os riscos de deterioração da conjuntura decorrem de possíveis falhas na calibragem da política monetária nas principais economias, volatilidade dos preços das commodities e instabilidade financeira mundial. No fronte interno, as rupturas nas cadeias de fornecimento decorrentes da calamidade das enchentes deste ano podem ser mais graves do que o previsto. A incerteza sobre as medidas fiscais pode reduzir a credibilidade das políticas, resultando em um aumento dos custos de financiamento e em um risco maior de desancoragem das expectativas de inflação. Já a probabilidade de os resultados superarem as projeções passa pelo consumo das famílias mais forte do que o esperado, pela implementação mais rápida do que o previsto de reformas que aumentam a produtividade e pelo investimento em oportunidades de crescimento verde. Um sistema financeiro sólido, reservas cambiais adequadas, a baixa dependência de endividamento em moeda estrangeira, as grandes disponibilidades de caixa do governo e a taxa de câmbio flexível continuam a respaldar a resiliência do Brasil.
Avaliação da Diretoria Executiva[2]
Os Diretores Executivos destacaram a notável resiliência da economia brasileira durante o processo de desinflação, assim como a previsão de convergência para um crescimento potencial mais forte no médio prazo. Também elogiaram as autoridades pelo progresso na promoção de sua ambiciosa agenda de crescimento sustentável e inclusivo. Olhando para o futuro, encorajaram as autoridades a perseverar no esforço de levar a inflação à meta, assegurar a sustentabilidade fiscal e continuar perseguindo reformas estruturais para lidar com os desafios persistentes.
Os Diretores louvaram o compromisso das autoridades de continuar melhorando a situação fiscal com base em medidas dos lados da receita e da despesa. Expressaram satisfação com a reforma tributária, que deve impulsionar a produtividade, gerar empregos formais e melhorar a equidade tributária. Muitos Diretores incentivaram as autoridades a buscar um esforço fiscal sustentado e mais ambicioso que posicionasse a dívida pública em uma trajetória firmemente descendente e abrisse espaço para investimentos prioritários. A ampliação da base tributária, a racionalização de gastos tributários ineficientes, o combate à rigidez orçamentária e o aumento da eficiência dos programas sociais apoiariam esse esforço. Um quadro fiscal reforçado, com uma forte âncora fiscal de médio prazo, fortaleceria a credibilidade e a sustentabilidade.
Os Diretores destacaram positivamente os esforços decisivos das autoridades em reduzir a inflação. Aplaudiram o ritmo cuidadoso de acomodação da política monetária, compatível com o regime de metas de inflação, e enfatizaram que manter a flexibilidade do ritmo e da duração do ciclo de acomodação continuará sendo importante. Observaram que as políticas do Banco Central do Brasil (BCB) e o compromisso com a meta de inflação de 3% podem contribuir para uma diminuição ainda maior das expectativas de inflação. Nesse sentido, a manutenção da credibilidade dos arcabouços de política fiscal e monetária será importante. Os Diretores assinalaram que o regime de câmbio flexível e as reservas cambiais adequadas continuam a ser importantes amortecedores de choques. Notaram positivamente a implementação, em curso, do plano de zerar gradualmente o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente em algumas operações de câmbio, o que eliminaria a prática de câmbios múltiplos.
Os Diretores concordaram que o sistema financeiro permanece resiliente, com riscos sistêmicos contidos e bancos altamente líquidos e adequadamente capitalizados. Aplaudiram as medidas para fortalecer a supervisão das instituições financeiras não bancárias, enfrentar o peso da dívida das famílias e diminuir os custos do crédito. Ressaltaram que uma gestão cuidadosa de um papel mais amplo dos bancos públicos é necessária para mitigar os possíveis riscos à situação fiscal, à transmissão da política monetária e à eficiência do mercado. Acolheram positivamente a agenda de inovação financeira das autoridades, que vem promovendo a inclusão financeira, a eficiência e a concorrência. Concordaram que dar flexibilidade ao BCB para cobrir as despesas operacionais apoiaria a continuidade do progresso na agenda de inovações tecnológicas.
Os Diretores acolheram o avanço na implementação do Plano de Transformação Ecológica do Brasil. Elogiaram as autoridades pelo compromisso de acabar com o desmatamento ilegal e receberam bem a nova estrutura para o mercado de carbono, bem como o progresso em conceber instrumentos para atrair financiamento verde de longo prazo, destacando, de maneira mais geral, o papel pioneiro do Brasil nessa área. É esperado que essas iniciativas facilitem a transição a uma economia de baixo carbono, encorajem investimento em projetos sustentáveis e aumentem o crescimento econômico. Os Diretores também ressaltaram que a manutenção dos esforços para promover a integração comercial, fortalecer as estruturas de combate à corrupção, à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo e facilitar a melhoria da qualificação profissional produziriam ganhos significativos no crescimento potencial. Os Diretores elogiaram o papel de liderança do Brasil durante a Presidência do G20.
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Table 1. Brazil: Selected Economic Indicators 2022-29
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I. Social and Demographic Indicators
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|
Area (thousands of sq. km.)
|
8,510
|
|
Health
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Agricultural land (percent of land area)
|
30.2
|
|
Physicians per 1000 people (2023)
|
2.6
|
|
|
|
|
|
Hospital beds per 1000 people (2023) 1/
|
2.4
|
|
|
Population (2023)
|
|
|
Access to safe water (2022)
|
88.0
|
|
Total (millions)
|
216.3
|
|
|
|
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|
|
|
|
Annual rate of growth (percent)
|
0.7
|
|
Education (2023)
|
|
|
|
|
|
Density (per sq. km.)
|
25.4
|
|
Adult illiteracy rate
|
|
5.4
|
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|
Unemployment rate (Q1, 2024)
|
7.9
|
|
Net enrollment rates, percent in:
|
|
|
|
|
|
|
Primary education
|
99.4
|
|
|
Population characteristics (2022)
|
|
|
Secondary education
|
92.2
|
|
|
Life expectancy at birth (years)
|
75.5
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Infant mortality (per thousand live births)
|
12.6
|
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Poverty rate (in percent, 2022) 2/
|
31.6
|
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|
Income distribution (2022)
|
|
|
GDP, local currency (2023)
|
R$10,856 billion
|
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|
Palma ratio 3/
|
3.6
|
|
GDP, dollars (2023)
|
US$2,174 billion
|
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|
Gini coefficient (post taxes and transfers)
|
51.8
|
|
GDP per capita (2023)
|
US$10,050
|
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|
Main export products: airplanes, metallurgical products, soybeans, automobiles, electronic products, iron ore, coffee, and oil.
|
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|
II. Economic Indicators
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|
Proj.
|
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2022
|
2023
|
2024
|
2025
|
2026
|
2027
|
2028
|
2029
|
|
|
National accounts and prices
|
|
|
(Annual percentage change)
|
|
|
GDP at current prices
|
|
|
11.8
|
7.7
|
7.2
|
6.0
|
5.9
|
6.0
|
6.1
|
6.1
|
|
|
GDP at constant prices
|
|
|
3.0
|
2.9
|
2.1
|
2.4
|
2.4
|
2.4
|
2.5
|
2.5
|
|
|
Consumption
|
|
|
3.7
|
2.8
|
2.0
|
2.2
|
2.1
|
2.1
|
2.3
|
2.3
|
|
|
Investment (GFCF)
|
|
|
1.1
|
-3.0
|
0.8
|
0.9
|
1.3
|
1.4
|
1.6
|
1.7
|
|
|
Consumer prices (IPCA, average)
|
|
|
9.3
|
4.6
|
4.0
|
3.2
|
3.1
|
3.0
|
3.0
|
3.0
|
|
|
Consumer prices (IPCA, end of period)
|
|
5.8
|
4.6
|
3.7
|
3.2
|
3.0
|
3.0
|
3.0
|
3.0
|
|
|
GDP deflator
|
|
|
8.5
|
4.7
|
5.0
|
3.6
|
3.5
|
3.5
|
3.5
|
3.5
|
|
|
Gross domestic investment
|
|
|
(Percent of GDP)
|
|
|
Private sector
|
|
|
14.3
|
12.4
|
12.2
|
11.9
|
11.7
|
11.6
|
11.5
|
11.4
|
|
|
Public sector
|
|
|
3.7
|
3.7
|
3.7
|
3.8
|
3.8
|
3.8
|
3.8
|
3.8
|
|
|
Gross national saving
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Private sector
|
|
|
19.2
|
21.9
|
20.5
|
20.3
|
19.3
|
18.8
|
18.3
|
17.8
|
|
|
Public sector
|
|
|
-3.6
|
-7.2
|
-6.4
|
-6.3
|
-5.5
|
-5.1
|
-4.6
|
-4.2
|
|
|
Public sector finances
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Central government primary balance (national representation, incl. BCB) 4/
|
|
0.5
|
-2.4
|
-0.6
|
-0.7
|
-0.4
|
0.1
|
0.6
|
1.0
|
|
|
General government NLB primary balance
|
|
1.3
|
-2.0
|
-0.7
|
-0.8
|
-0.4
|
0.1
|
0.6
|
1.0
|
|
|
General government NLB structural primary balance (in percent of potential GDP)
|
|
-0.7
|
-2.2
|
-1.5
|
-1.0
|
-0.5
|
0.1
|
0.6
|
1.0
|
|
|
General government NLB
|
|
|
-4.0
|
-7.6
|
-6.8
|
-6.8
|
-5.9
|
-5.5
|
-5.1
|
-4.7
|
|
|
Net public sector debt
|
|
|
56.1
|
60.9
|
61.4
|
65.9
|
68.3
|
70.0
|
71.1
|
71.8
|
|
|
General government gross debt, Authorities’ definition
|
|
71.7
|
74.4
|
77.1
|
80.5
|
82.1
|
83.4
|
84.0
|
84.3
|
|
|
General government gross debt
|
|
|
83.9
|
84.7
|
87.5
|
91.2
|
93.1
|
94.5
|
95.1
|
95.4
|
|
|
Of which: Foreign currency linked
|
|
|
4.0
|
3.6
|
3.6
|
3.7
|
3.7
|
3.8
|
3.8
|
3.8
|
|
|
Money and credit
|
|
|
(Annual percentage change)
|
|
|
Base money 5/
|
|
|
16.6
|
20.4
|
7.2
|
6.0
|
5.9
|
6.0
|
6.1
|
6.1
|
|
|
Broad money 6/
|
|
|
10.6
|
15.5
|
7.3
|
5.9
|
6.0
|
6.0
|
6.1
|
6.1
|
|
|
Bank loans to the private sector
|
|
|
14.6
|
6.9
|
8.0
|
8.0
|
8.0
|
8.0
|
8.0
|
8.0
|
|
|
Balance of payments
|
|
|
(Billions of U.S. dollars, unless otherwise specified)
|
|
|
Trade balance
|
|
|
44.2
|
80.6
|
78.2
|
80.4
|
83.4
|
90.0
|
95.4
|
100.9
|
|
|
Exports
|
|
|
340.3
|
344.4
|
345.6
|
350.4
|
357.1
|
369.3
|
380.1
|
391.7
|
|
|
Imports
|
|
|
296.2
|
263.8
|
267.4
|
270.0
|
273.8
|
279.3
|
284.7
|
290.8
|
|
|
Current account
|
|
|
-48.3
|
-30.8
|
-40.0
|
-40.8
|
-42.9
|
-44.7
|
-45.5
|
-47.4
|
|
|
Capital account and financial account
|
|
|
47.0
|
29.7
|
40.0
|
40.8
|
42.9
|
44.7
|
45.5
|
47.4
|
|
|
Foreign direct investment (net inflows)
|
|
41.3
|
36.0
|
37.2
|
38.7
|
40.3
|
41.8
|
43.4
|
45.1
|
|
|
Terms of trade (percentage change)
|
|
|
-7.1
|
2.4
|
-3.4
|
-2.0
|
-2.0
|
-1.0
|
-0.7
|
-0.8
|
|
|
Merchandise exports (in US$, annual percentage change)
|
|
19.8
|
1.2
|
0.3
|
1.4
|
1.9
|
3.4
|
2.9
|
3.0
|
|
|
Merchandise imports (in US$, annual percentage change)
|
|
19.6
|
-10.9
|
1.4
|
0.9
|
1.4
|
2.0
|
1.9
|
2.1
|
|
|
Total external debt (in percent of GDP)
|
|
34.9
|
33.7
|
32.6
|
32.3
|
31.0
|
29.7
|
28.6
|
27.5
|
|
|
Memorandum items:
|
|
|
(Percent, unless otherwise specified)
|
|
|
Output Gap
|
|
|
0.1
|
0.6
|
0.4
|
0.3
|
0.2
|
0.1
|
0.0
|
0.0
|
|
|
Current account (in percent of GDP)
|
|
|
-2.5
|
-1.4
|
-1.8
|
-1.7
|
-1.7
|
-1.7
|
-1.6
|
-1.6
|
|
|
Unemployment rate 7/
|
|
|
9.3
|
8.0
|
7.6
|
7.4
|
7.4
|
7.4
|
7.5
|
7.5
|
|
|
Gross official reserves (in US$ billions)
|
|
|
325
|
355
|
355
|
355
|
355
|
355
|
355
|
355
|
|
|
REER (annual average in percent; appreciation +)
|
|
12.1
|
4.6
|
...
|
...
|
...
|
...
|
...
|
...
|
|
|
Sources: Central Bank of Brazil, Ministry of Finance, IBGE, IPEA, and Fund staff estimates.
|
|
|
1/ Includes inpatient beds and complementary beds.
|
|
|
2/ Computed by IBGE using World Bank's threshold for upper-middle income countries (U$5.5/day).
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3/ Share of income of the top 10% divided by share of income of the bottom 40%.
|
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4/ Includes federal government, Central Bank, and the social security system (INSS). The 2023 primary balance excludes pandemic-related funds from PIS/PASEP, as per BCB definition.
|
|
|
5/ Currency issued, required deposits held at the Central Bank plus other Central Bank liabilities to other depository corporations.
|
|
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6/ Currency outside depository corporations, transferable deposits, other deposits and securities other than shares.
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7/ Unemployment rate for 2022 and 2023 shows the average of March, June, September, and December.
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