Ajuda em queda livre. O que podem fazer os países africanos?
June 22, 2026
Os cortes são profundos, amplos e impulsionados por doadores – deixando as autoridades com pouca margem de manobra

June 22, 2026
Os cortes são profundos, amplos e impulsionados por doadores – deixando as autoridades com pouca margem de manobra
Durante décadas, a ajuda pública ao desenvolvimento tem desempenhado um papel fundamental no financiamento dos países da África Subsariana. Essa ajuda tem vindo a diminuir rapidamente e de forma generalizada.
Em 2025, a ajuda bilateral à região registou uma queda acentuada, com as primeiras estimativas a apontarem para reduções de cerca de 26% num único ano. A assistência multilateral também está sob pressão, com as principais instituições a preverem cortes orçamentais significativos. Poderão ocorrer mais cortes à medida que os doadores redefinem as suas prioridades num contexto geopolítico em constante mutação.
Conforme ilustrado no capítulo 2 da mais recente edição do relatório Perspetivas Económicas Regionais para a África Subsariana, elaborada pelo FMI, não se trata de uma flutuação normal. Esta situação está a afetar países com pouca margem de manobra e poucas fontes alternativas de financiamento.

A importância da ajuda
Em 2024, a África Subsariana foi a região do mundo que registou a maior dependência da ajuda. Em média, a ajuda representou 3% do PIB a nível regional, embora este valor oculte diferenças acentuadas. Nos países de baixo rendimento e nos Estados frágeis, a ajuda externa representou frequentemente 6% do PIB, chegando, em alguns casos, a valores muito superiores.
Mais de metade dessa ajuda foi utilizada para financiar serviços essenciais, como a saúde, a educação e a assistência humanitária. Além disso, como os parceiros de desenvolvimento e as organizações não governamentais (ONG) prestam frequentemente serviços diretamente às populações mais vulneráveis, os cortes na ajuda externa podem igualmente comprometer os sistemas de que essas populações dependem. A eficácia das respostas a crises – como os surtos de Ébola na República Democrática do Congo e no Uganda, as crescentes necessidades das pessoas deslocadas por conflitos e a seca que assola o Corno de África – depende em grande medida de infraestruturas sanitárias e humanitárias normalmente financiadas pela ajuda externa.

Uma realidade diferente
Os fluxos de ajuda sempre oscilaram, mas o episódio atual distingue-se pela dimensão dos recentes cortes e pelo facto de terem sido aplicados de forma quase simultânea em vários países. São motivados pelas decisões dos doadores e não por mudanças nas economias dos países beneficiários. Além disso, estes cortes ocorrem numa altura em que os mecanismos de proteção tradicionais estão mais enfraquecidos: as instituições multilaterais e as ONG, que muitas vezes amorteceram as crises passadas, enfrentam agora também restrições de financiamento. Embora os doadores não tradicionais, como a China e os Estados do Golfo, tenham reforçado a sua presença na região em termos de ajuda, os montantes envolvidos não são suficientes para compensar a redução da ajuda dos doadores tradicionais.
Os cortes são também difíceis de gerir porque surgem na sequência de seis anos de choques sucessivos – incluindo a pandemia de COVID-19, o agravamento das condições financeiras mundiais e as crises alimentar e energética — que já tinham reduzido significativamente a margem orçamental.

Compromissos difíceis
Os governos enfrentam agora escolhas difíceis. Muitos dispõem de uma margem de manobra orçamental limitada, registam níveis crescentes de dívida e têm reservas reduzidas.
Os inquéritos realizados pelo FMI, a 28 países africanos, destacam a adoção de quatro grandes medidas de política:
Cada medida tem as suas vantagens e desvantagens. A compensação da ajuda perdida pode salvaguardar os serviços públicos e proteger o crescimento, mas implica défices mais elevados e maiores desequilíbrios nas contas externas. Por outro lado, ao não compensar essa perda, as autoridades favorecem a estabilização dos orçamentos e a sustentabilidade da dívida, mas esta escolha é suscetível de causar danos duradouros ao capital humano e ao desenvolvimento.
Não há escolhas fáceis.
Como responder
O desafio consiste em gerir o ajustamento, preservando ao mesmo tempo os principais ganhos conquistados em matéria de desenvolvimento. Para tal, destacam-se três prioridades.
Em primeiro lugar, é necessário proteger e direcionar a ajuda para onde tenha maior impacto.
Quando os recursos são escassos, a forma como são distribuídos torna-se ainda mais importante. A ajuda deve ser direcionada para os países e setores onde produz maiores resultados, privilegiando os países de baixo rendimento e os Estados frágeis, bem como as necessidades humanitárias essenciais. Uma coordenação reforçada pode também ajudar a reduzir a fragmentação e evitar a duplicação de esforços.
Em segundo lugar, importa alargar o conjunto de instrumentos de financiamento.
O financiamento por meio de donativos continuará a ser essencial, sobretudo em contextos humanitários. No entanto, existem outros instrumentos que podem desempenhar um papel mais importante. O financiamento misto – que consiste na utilização de fundos públicos para mobilizar investimento privado – pode ajudar a atrair financiamento para os setores das infraestruturas, da energia e da agricultura. Porém, este tipo de financiamento não substitui a ajuda internacional, uma vez que é mais difícil de implementar em grande escala, mais complexo e pode agravar a dívida se não for bem concebido. Será fundamental gerir esses compromissos.
Em terceiro lugar, é imperativo reforçar as capacidades internas.
Com a crescente imprevisibilidade da ajuda externa, a resiliência irá depender cada vez mais das instituições nacionais. Isso exigirá uma maior mobilização de receitas, uma utilização mais eficiente da despesa pública e o reforço da formulação de políticas e da prestação de serviços. Em muitos casos, a ajuda externa tem assegurado não apenas o financiamento, mas também a própria execução; substituir essa capacidade exigirá tempo e um investimento sustentado.
Ponto de viragem
É pouco provável que a mudança iniciada em 2025 seja temporária. Insere-se numa reconfiguração mais ampla do financiamento do desenvolvimento, marcada por orçamentos mais restritos dos doadores e por prioridades em constante evolução.
As implicações variarão de país para país, em função do nível de exposição, das reservas iniciais e as das políticas adotadas. Ainda assim, a tendência é inequívoca: a dependência da ajuda externa tornar-se-á mais incerta enquanto a política interna assumirá um papel cada vez mais relevante.
A resposta imediata passa por gerir a redução da ajuda sem comprometer os importantes progressos alcançados nas últimas décadas em matéria de desenvolvimento humano. O desafio a longo prazo consiste em adaptar-se a um mundo em que a ajuda externa é menos abundante e menos previsível. A forma como os países enfrentam estes dois desafios determinará os resultados em termos de crescimento e desenvolvimento nos próximos anos.
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Chie Aoyagi, Maurizio Leonardi e Athene Laws são economistas do Departamento de África do FMI, onde Hamza Mighri é analista de estudos.