Comunicado de imprensa 17/464

Conselho de Administração do FMI conclui a consulta de 2017 com a República Democrática de Timor-Leste ao abrigo do Artigo IV

6 de dezembro de 2017

    No dia 6 de dezembro de 2017, o Conselho de Administração do Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu a consulta ao abrigo do Artigo IV [1] com a República Democrática de Timor-Leste, e considerou e aprovou a avaliação do corpo técnico por decurso de prazo, sem necessidade de realizar uma reunião. [2]

    Em 2016, estima-se um crescimento do PIB real não petrolífero da ordem dos 5,5%, o qual será apoiado pela quase duplicação das despesas de investimento público, embora em parte compensado por um aumento das importações. O PIB total real, contudo, registou uma redução de 7,9% em 2016, devido a uma quebra acentuada na produção de petróleo. Em 2016, em termos homólogos, o índice de preços no consumidor diminuiu 1,3%, devido, em grande parte, à baixa nos preços mundiais dos alimentos e do petróleo.

    Em 2016 o défice orçamental global aumentou para 30,8% do PIB, comparativamente aos 17% registados em 2015. As receitas provenientes do rendimento sustentável estimado (RSE) do Fundo Petrolífero (FP) foram ligeiramente inferiores, tendo atingido 19,7% do PIB. As receitas internas, por outro lado, tiveram um desempenho superior, graças aos aumentos pontuais verificados na cobrança de impostos aduaneiros e do imposto sobre o rendimento das pessoas coletivas, e a um maior cumprimento das obrigações fiscais, o qual foi facilitado por procedimentos racionalizados. As despesas de capital registadas duplicaram, o que reflete as dotações adicionais substanciais atribuídas no orçamento suplementar a projetos que avançaram antes da data prevista.

    A conta corrente externa, que em 2015 tinha registado um excedente de 7,7% do PIB, passou, em 2016, a um défice de 18,9% do PIB. Esta situação foi propulsada por um maior volume de importações relacionadas com o investimento público e por um declínio nas receitas advindas


    do petróleo/gás, na medida em que, com o quase esgotamento do campo petrolífero atual e com os preços mundiais do petróleo mais baixos, a produção petrolífera caiu. A taxa de câmbio efetiva real (TCER) desvalorizou em 2,8% em 2016, refletindo uma taxa de inflação negativa e a desvalorização nominal do dólar dos EUA em relação às moedas dos parceiros comerciais de Timor-Leste.

    Projeta-se que em 2017 o crescimento do PIB real não petrolífero modere para 3%, devido a uma despesa pública mais baixa e a um abrandamento da atividade, provocado pela formação retardada de um novo governo após as eleições parlamentares de julho. As pressões inflacionistas são baixas, embora tenham regressado a território positivo, tendo em conta o aumento dos preços alimentares e do combustível nos mercados mundiais.

    Os riscos de médio prazo dependem criticamente do sucesso das reformas fiscais e estruturais. O desafio-chave encarado por Timor-Leste prende-se com o alcance da diversificação económica. O esgotamento do seu campo petrolífero atual em cerca de 2022 torna mais urgente a necessidade de gerar crescimento económico e receitas fiscais. A antecipação significativa do investimento público apresenta um grande risco descendente à sustentabilidade fiscal, dada a previsão de grandes levantamentos do Fundo Petrolífero para fins de financiamento. Há ainda riscos associados com os projetos infraestruturais de grande envergadura, caso os mesmos não gerem retornos socioeconómicos suficientes para alcançar um nível de crescimento inclusivo capaz de se traduzir em maiores receitas fiscais e restabelecer a sustentabilidade orçamental. Perdura também o risco de subida da inflação, devido às pressões internas nos preços advindas do aumento da despesa pública.

    Avaliação do Conselho de Administração

    Ao concluir a consulta ao abrigo do Artigo IV com Timor-Leste para o ano de 2017, o Conselho de Administração aprovou a seguinte avaliação do corpo técnico:

    Timor-Leste encara a necessidade urgente de diversificação económica, com vista à criação de oportunidades de emprego para a sua jovem população ativa. Uma forte dependência das receitas do petróleo, e as necessidades do país em matéria de grandes infraestruturas e de desenvolvimento social, colocam um desafio notável a um estado frágil e com uma capacidade institucional fraca. Embora as perspetivas de crescimento a curto prazo sejam favoráveis e as pressões inflacionistas baixas, as perspetivas de médio prazo dependem criticamente do sucesso das reformas fiscais e estruturais. Uma antecipação significativa do investimento público apresenta um grande risco descendente à sustentabilidade fiscal, dada a previsão de levantamentos de grande dimensão do Fundo Petrolífero para fins de financiamento do défice. Os projetos infraestruturais de grande envergadura precisam de gerar retornos socioeconómicos suficientes para alcançar um nível de crescimento inclusivo capaz de se traduzir em maiores receitas fiscais que ajudem a restabelecer a sustentabilidade orçamental.

    Requerem-se reformas fiscais audazes para assegurar a sustentabilidade orçamental. A política fiscal deve ser orientada pelo objetivo de manter uma posição fiscal compatível com a sustentabilidade da dívida e com a preservação dos ativos do Fundo Petrolífero. A manutenção dos ativos do FP como fonte sustentável de receitas deve continuar a servir como âncora fiscal, a qual será conseguida através da observância do RSE. A antecipação das despesas de capital com o intuito de colmatar a grande lacuna infraestrutural de Timor-Leste deve ser moderada e priorizada, em conformidade com os recursos escassos e os limites de capacidade do país. Deve também alinhar-se com as reformas do sistema de gestão do investimento público. O investimento público deve ser priorizado, dando-se preferência aos projetos de alto retorno, os quais devem ser determinados através da avaliação rigorosa do investimento e dos riscos e de análises do custo-benefício. As despesas recorrentes devem também ser racionalizadas, enquanto que as despesas destinadas à saúde e à educação têm de ser protegidas e a eficiência da despesa pública melhorada.

    A mobilização de receitas internas e o uso eficaz de empréstimos em condições concessionais são imprescindíveis para a salvaguarda da sustentabilidade orçamental. A introdução de um imposto sobre o valor acrescentado até ao ano de 2020 e o início, para dentro em breve, da modernização da capacidade da administração tributária são essenciais para a mobilização de suficientes receitas internas não petrolíferas. Devem ser definidos critérios claros para identificar os projetos infraestruturais a serem financiados por empréstimos em condições concessionais – especialmente nos casos que beneficiariam da transferência de conhecimentos em matéria de avaliação e implementação de projetos.

    A expansão da inclusão financeira apoiaria o crescimento inclusivo, mas exige uma vigilância continuada para salvaguardar a estabilidade financeira. A aplicação contínua da recém-adotada estratégia nacional quinquenal para a inclusão financeira (2017-2022) contribuiria para um maior aprofundamento financeiro e o crescimento inclusivo. Deve ser criado um regime de garantia de crédito, devidamente concebido e operado, destinado às pequenas e médias empresas (PME), a ser acompanhado de ações de reforço das capacidades, as quais apoiariam as PME na formulação dos seus planos empresariais e na gestão financeira. Simultaneamente, a preservação da estabilidade financeira requer um fortalecimento adicional da capacidade e do quadro regulamentar e de supervisão do Banco Central de Timor-Leste, bem como o reforço do seu quadro de combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo.

    São necessárias reformas estruturais macro-críticas para apoiar a diversificação económica e a criação de emprego. Estas reformas devem visar melhorar as infraestruturas básicas, o acesso financeiro, a competitividade do mercado de trabalho e a facilidade de fazer negócios. A avaliação do corpo técnico indica uma posição externa substancialmente mais fraca do que a sugerida pelos fundamentos económicos de médio prazo e pelas políticas desejáveis numa economia totalmente dolarizada, o que também ressalta a importância de melhorar a competitividade externa mantendo a competitividade dos salários, aumentando a produtividade e colmatando as lacunas de mão-de-obra qualificada, com mais ênfase na formação profissional.

    Devem ser envidados mais esforços para melhorar a capacidade estatística, na medida em que as limitações dos dados estatísticos continuam a dificultar a supervisão macroeconomica. É preciso melhorar a atualidade e periodicidade dos dados das contas nacionais, que são essenciais para a formulação de políticas.

    Incentivam-se as autoridades a continuar a explorar o potencial da assistência técnica e do reforço das capacidades. Um apoio bem coordenado por parte do FMI e de outros parceiros do desenvolvimento contribuiria para reforçar as capacidades institucionais e humanas.


    Tabela 1. Timor-Leste: Indicadores Económicos Selecionados, 2014-2022

    2014

    2015

    2016

    2017

    2018

    2019

    2020

    2021

    2022

    Est.

    Proj.

    (Variação percentual anual)

    Sector real

    PIB total real

    -26,0

    20,9

    -7,9

    -8,0

    -0,7

    -4,7

    -3,7

    -2,6

    -2,6

    PIB não petrolífero real

    4,3

    4,0

    5,5

    3,0

    5,0

    5,7

    5,5

    5,5

    5,2

    IPC (média anual)

    0,7

    0,6

    -1,3

    1,0

    2,7

    3,6

    3,8

    3,9

    4,0

    IPC (fim de período)

    0,3

    -0,6

    0,0

    2,0

    3,5

    3,7

    3,8

    4,0

    4,0

    (Em percentagem do PIB, salvo indicação em contrário)

    Operações do Governo Central

    Receitas

    26,5

    33,2

    33,7

    29,9

    30,0

    28,9

    27,5

    26,1

    24,9

    Receitas internas

    4,2

    5,5

    7,8

    6,8

    7,6

    7,9

    8,0

    8,0

    8,4

    Rendimento Sustentável Estimado (RSE)

    15,6

    20,6

    19,7

    17,4

    16,8

    15,5

    13,9

    12,4

    10,8

    Donativos

    6,7

    7,2

    6,1

    5,7

    5,6

    5,6

    5,6

    5,6

    5,6

    Despesa

    39,8

    50,2

    64,5

    49,9

    70,6

    73,8

    63,9

    57,8

    50,9

    Recorrente

    22,6

    33,2

    36,3

    33,4

    35,7

    35,8

    36,0

    36,2

    35,2

    Aquisição líquida de ativos não financeiros

    10,5

    9,9

    22,1

    10,9

    29,3

    32,4

    22,3

    16,0

    10,1

    Projetos de doadores

    6,7

    7,2

    6,1

    5,7

    5,6

    5,6

    5,6

    5,6

    5,6

    Capacidade/Necessidade líquida de financiamento

    -13,3

    -17,0

    -30,8

    -20,1

    -40,7

    -44,8

    -36,3

    -31,7

    -26,0

    (Variação percentual anual, salvo indicação em contrário)

    Moeda e crédito

    Depósitos

    19,6

    76,7

    11,9

    36,1

    41,5

    29,8

    35,8

    35,7

    33,8

    Crédito ao sector privado

    5,5

    10,5

    -1,8

    4,8

    10,2

    9,7

    9,7

    9,9

    11,4

    Taxas de juro ativas (percentagem, fim de período)

    12,9

    13,5

    14,2

    (Em milhões de USD, salvo indicação em contrário)

    Balança de pagamentos

    Saldo em conta corrente 1/

    1.093

    239

    -523

    -95

    -523

    -574

    -585

    -585

    -630

    (Em percentagem do PIB)

    27,0

    7,7

    -18,9

    -3,4

    -18,2

    -19,4

    -18,9

    -17,9

    -17,8

    Balança comercial

    -603

    -635

    -539

    -548

    -797

    -834

    -815

    -823

    -835

    Exportações 2/

    16

    18

    20

    12

    23

    27

    32

    37

    45

    Importações

    618

    653

    559

    559

    820

    861

    847

    861

    879

    Serviços (montante líquido)

    -594

    -580

    -527

    -516

    -543

    -547

    -504

    -484

    -567

    Receitas petrolíferas

    2,117

    1,281

    540

    965

    696

    672

    583

    554

    585

    Saldo global

    -376

    220

    -157

    -3

    -4

    -5

    -7

    -6

    -9

    Ativos externo públicos (fim de período) 3/

    16.850

    16.655

    16.125

    16.062

    15.318

    14.422

    13.667

    12.922

    12.292

    (Em meses de importações)

    157

    153

    167

    166

    126

    114

    111

    104

    91

    Taxas de câmbio

    TCEN (2010=100, média do período)

    106,8

    120,2

    120,0

    TCER (2010=100, média do período)

    134,9

    150,1

    145,9

    Rubricas por memória (em milhões de USD):

    PIB a preços correntes:

    4.042

    3.102

    2.762

    2.764

    2.877

    2.960

    3.090

    3.273

    3.541

    PIB não petrolífero

    1.451

    1.607

    1.672

    1.843

    2.085

    2.371

    2.695

    3.069

    3.541

    PIB petrolífero

    2.591

    1.496

    1.090

    921

    792

    590

    395

    204

    0

    PIB per capita

    3.492

    2.619

    2.278

    2.228

    2.267

    2.280

    2.325

    2.409

    2.549

    (Variação percentual anual)

    -30,1

    -25,0

    -13,0

    -2,2

    1,7

    0,6

    2,0

    3,6

    5,8

    Preços do petróleo bruto (USD por barril, WEO) 4/

    96

    51

    43

    49

    49

    50

    52

    53

    55

    Saldo do Fundo Petrolífero (em milhões de USD) 5/

    16.539

    16.217

    15.844

    15.784

    15.043

    14.153

    13.405

    12.666

    12.045

    (Em percentagem do PIB)

    409

    523

    574

    571

    523

    478

    434

    387

    340

    Dívida pública (em milhões de USD)

    22

    46

    77

    87

    304

    527

    749

    902

    1,002

    (Em percentagem do PIB)

    0,5

    1,5

    2,8

    3,1

    10,6

    17,8

    24,3

    27,6

    28,3

    Crescimento populacional (variação percentual anual)

    2,5

    2,4

    2,3

    2,3

    2,3

    2,3

    2,3

    2,2

    2,2

    Fontes: Autoridades de Timor-Leste e estimativas e projeções do corpo técnico do FMI.

    1/ Exclui o comércio de bens e serviços das entidades situadas na Área de Desenvolvimento Petrolífero Conjunto, as quais são consideradas não residentes.

    2/ Exclui as exportações petrolíferas, cujas receitas são registadas na conta de rendimento.

    3/ Inclui o saldo do Fundo Petrolífero e as reservas oficiais do Banco Central.

    4/ Média simples dos preços do petróleo bruto Brent (Reino Unido), Dubai e WTI, baseada nos pressupostos do WEO de julho de 2017 .

    5/ Saldo de encerramento.



    [1] Ao abrigo do Artigo IV do Convênio Constitutivo do FMI, o Fundo realiza discussões bilaterais com os países membros, normalmente todos os anos. O corpo técnico visita o país, recolhe informações económicas e financeiras, e discute com as autoridades as políticas e os desenvolvimentos económicos do país. Regressado à sede do FMI, o corpo técnico elabora um relatório, o qual forma a base para a discussão do Conselho de Administração.

    [2] O Conselho de Administração toma decisões por decurso de prazo quando os membros do Conselho concordam que uma proposta pode ser considerada sem que se convoquem discussões formais.

    Departamento de Comunicação do FMI
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