Washington, DC. A economia da África Subsariana deve se recuperar em 2021 – uma melhoria
marcante em relação à extraordinária contração registada em 2020. Esta
retoma é muito bem-vinda e resulta, sobretudo, de um ambiente externo
propício, inclusive no comércio internacional e nos preços das
matérias-primas. Além disso, as colheitas favoráveis elevaram a produção
agrícola. Contudo, as perspetivas permanecem extremamente incertas, uma vez
que a recuperação depende dos avanços na luta contra a Covid-19 e é
vulnerável a perturbações na atividade económica e nos mercados financeiros
mundiais, afirma o Fundo Monetário Internacional na mais recente edição das
Perspetivas Económicas Regionais para a África Subsariana.
“Enquanto a África Subsariana atravessa uma pandemia prolongada, com novas
vagas de infeção, o regresso à normalidade não será, de modo algum, fácil”,
salientou Abebe Aemro Selassie, Diretor do Departamento de África do FMI.
“Na ausência de vacinas, os confinamentos e outras medidas de contenção têm
sido a única opção para conter o vírus.
“A recuperação da África Subsariana este ano será de 3,7%, a mais lenta do
mundo – o crescimento das economias avançadas deve ser superior a 5%,
enquanto outras economias de mercados emergentes e em desenvolvimento devem
crescer mais de 6%. Este desfasamento reflete a distribuição lenta de
vacinas na África Subsariana e as diferenças marcantes no espaço para a
formulação de políticas.
O PIB real per capita deverá permanecer próximo dos 5,5%, abaixo
das tendências pré‑crise, e a perda permanente do produto real deverá
variar entre -21% e -2%. Os países não ricos em recursos deverão crescer a
um ritmo muito mais acelerado do que os países ricos em recursos – um
padrão que precede a crise e que foi amplificado pelos desenvolvimentos
recentes, o que destaca diferenças fundamentais na resiliência. Os países
não ricos em recursos têm uma estrutura económica mais diversificada, o que
contribuiu para que se ajustassem e recuperassem mais depressa. A subida
dos preços das matérias-primas também beneficiou alguns países, mas estes
ganhos extraordinários são muitas vezes voláteis e não podem substituir
fontes mais permanentes de crescimento. Além disso, as diferenças no espaço
orçamental também ajudam a explicar as disparidades no atual ritmo de
recuperação entre os países.
O aumento das brechas entre os países tem sido acompanhado pela
crescente divergência dentro dos próprios países, uma vez que a
pandemia afetou de forma particularmente severa as pessoas mais vulneráveis
na região. Com cerca de 30 milhões de pessoas a caírem na pobreza extrema,
a crise não só acentuou a desigualdade entre grupos de rendimento, como
também entre regiões geográficas subnacionais, o que poderá agravar o risco
de tensões sociais e instabilidade política. Neste contexto, a subida da
inflação dos preços dos alimentos, conjugada com a quebra dos rendimentos,
está a pôr em risco as conquistas alcançadas nos domínios da pobreza, saúde
e segurança alimentar.
Além disso, as crescentes vulnerabilidades da dívida são uma fonte de
preocupação e muitos governos terão de empreender uma consolidação
orçamental. O nível global da dívida pública deverá diminuir ligeiramente
em 2021 para 56,6% do PIB, mas continua elevado face ao nível de 50,4% do
PIB anterior à pandemia. A metade dos países de baixos rendimentos da
África Subsariana está em situação de sobre-endividamento ou em elevado
risco de sobre-endividamento. E mais países poderão vir a enfrentar
pressões à medida que o serviço da dívida passa a representar uma parcela
cada vez maior dos recursos do Estado.”
Neste contexto, Abebe Aemro Selassie assinalou uma série de políticas
prioritárias. “O difícil ambiente de políticas que as autoridades
enfrentavam antes da crise passou a ser ainda mais desafiador após a crise.
Os decisores políticos deparam-se com três importantes desafios
orçamentais: 1) fazer face às necessidades prementes da região em matéria
de despesas de desenvolvimento, 2) conter a dívida pública e 3) mobilizar
receitas fiscais num contexto em que medidas adicionais são, por norma,
impopulares. Nunca foi fácil cumprir estes objetivos e é algo que implica
um difícil exercício de equilíbrio. Para a maioria dos países, as medidas
de políticas mais urgentes incluem a definição de prioridades de despesas,
a mobilização de receitas, o aumento da credibilidade e a melhoria do
ambiente de negócios.
A alocação recente de DSE reforçou as reservas da região, aliviando algum
do peso sobre as autoridades à medida que estas orientam a recuperação dos
seus países. E o redirecionamento dos DSE de países com posições externas
fortes para países com fundamentos mais frágeis poderia ajudar a reforçar a
resiliência da região.
Em relação à Covid-19, a cooperação internacional em matéria de vacinação é
fundamental para fazer face à ameaça de sucessivas vagas. Isto ajudará a
impedir que as trajetórias divergentes da África Subsariana e do resto do
mundo se tornem fissuras permanentes, comprometendo décadas de árduos
progressos socioeconómicos.
Em relação ao futuro, o potencial da região mantém-se intacto. Porém, a
ameaça das alterações climáticas – e o processo de transição energética à
escala mundial – sugerem que a África Subsariana talvez tenha de adotar um
modelo de crescimento mais inovador e mais verde. Isto representa desafios
mas também oportunidades e realça a necessidade de reformas transformadoras
arrojadas e financiamento externo contínuo. Não será fácil tomar essas
medidas, mas elas são pré-requisitos essenciais para que se concretize o há
muito prometido século africano.”