Washington, DC:
A atividade económica da África Subsariana deverá abrandar
significativamente em 2022 e permanecer relativamente modesta em 2023. Uma
recessão nas economias avançadas e nos mercados emergentes, a maior
restritividade das condições financeiras e a volatilidade dos preços das
matérias-primas minaram os ganhos do ano passado. Numa análise prospetiva,
as perspetivas continuam a ser altamente incertas. Consequentemente, os países da região vivem no
limiar, afirmou o Fundo Monetário Internacional (FMI) na mais recente
edição das Perspetivas Económicas Regionais para a África Subsariana.
“No final do ano passado, a África Subsariana parecia encontrar-se numa trajetória sólida de
recuperação depois de uma longa pandemia. Infelizmente, estes progressos
foram bruscamente interrompidos pela turbulência nos mercados mundiais, que
exerceu novas pressões sobre os responsáveis políticos da região”,
salientou Abebe Aemro Selassie, diretor do Departamento de África do FMI.
Prevê-se que a região cresça 3,6% em 2022, face 4,7% em 2021, devido à
moderação do investimento e ao agravamento global da sua balança comercial.
Os países pobres em recursos naturais, que beneficiam de uma estrutura
económica mais diversificada, continuarão a estar entre as economias mais
dinâmicas e resilientes da região, com um crescimento de 4,6% em 2022, por
comparação com 3,3% nos países exportadores de petróleo e 3,1% nos outros
países ricos em recursos naturais.
Seguindo as tendências mundiais, a inflação aumentou de forma mais rápida e
persistente do que o anteriormente previsto, refletindo o aumento dos
preços dos produtos alimentares e energéticos essenciais, que representam
cerca de 50% do cabaz de consumo da região. Embora o recente aumento da
inflação seja menos acentuado relativamente às
médias históricas da África Subsariana, a compressão do custo de vida levou
milhões de pessoas a uma situação de insegurança alimentar aguda, o que
poderá afetar o crescimento económico e comprometer a estabilidade social e
política.
A turbulência mais recente é apenas a última de uma série de choques ao
longo dos últimos anos, que influenciaram a margem de manobra das políticas
adotadas na região. A dívida pública atingiu cerca de 60% do PIB, deixando a região com níveis de dívida
registados pela última vez no início da década de 2000. A este respeito, a
composição da dívida passou para fontes privadas de custos mais elevados,
aumentando os custos do serviço da dívida e os riscos de refinanciamento.
De facto, 19 dos 35 países de baixo rendimento da região estão agora em
situação de sobre-endividamento ou em elevado risco de
sobre-endividamento.
Neste contexto, Abebe Aemro Selassie destacou quatro prioridades para os
responsáveis políticos na região:
“Em primeiro lugar, no contexto do aumento da insegurança alimentar, a
máxima prioridade deve ser a proteção dos mais vulneráveis. Os escassos
recursos devem ser canalizados para aqueles que deles mais necessitam. As
medidas de emergência pouco específicas devem ser gradualmente eliminadas.
“Em segundo lugar, para fazer face ao aumento da inflação e à
restritividade das taxas de juro mundiais, os decisores políticos devem
aumentar as taxas de juro diretoras com prudência, acompanhando atentamente
as expectativas de inflação e as reservas cambiais.
“Em terceiro lugar, os decisores políticos da região têm de continuar a
consolidar as suas finanças públicas para preservar a sustentabilidade
orçamental, em especial no contexto do aumento das taxas de juro. Cenários
orçamentais de médio prazo credíveis, incluindo uma gestão eficaz da
dívida, podem ajudar a reduzir os custos de endividamento. Nos países com
vulnerabilidades da dívida graves pode ser necessária uma reestruturação ou
uma renegociação da dívida, o que sugere a necessidade de melhorar a
implementação do quadro comum do G20.
“Por último, devem lançar as bases para um crescimento de elevada qualidade
num contexto de aceleração das alterações climáticas. O investimento em
infraestruturas verdes e resilientes e a exploração dos consideráveis
recursos de energias renováveis da região exigirão um financiamento privado
inovador e reformas no setor da energia.
“O apoio orçamental – incluindo o financiamento oficial do desenvolvimento
e a assistência humanitária – tem vindo a diminuir ao longo das duas
últimas décadas, enquanto as necessidades de desenvolvimento imediatas e de
mais longo prazo da região estão a aumentar, em especial em domínios como a
segurança alimentar e as alterações climáticas. Um maior apoio, incluindo
mais financiamento em condições concessionais, será fundamental para que a
África Subsariana possa prosseguir uma trajetória de crescimento
hipocarbónica e resiliente às alterações climáticas.
“Pela nossa parte, temos vindo a apoiar a África Subsariana com quase 50
mil milhões de dólares desde o início da pandemia; os recentes programas
apoiados pelo FMI (por exemplo, no Benim, Cabo Verde, Moçambique, Tanzânia,
Zâmbia) incluíram políticas para fazer face ao impacto da crise alimentar;
e o Conselho de Administração do FMI acaba de aprovar um novo apoio
destinado a combater o choque alimentar nos nossos países membros que
sofrem de insegurança alimentar aguda, de um choque acentuado nas
importações de produtos alimentares ou de um choque na exportação de
cereais.
“O FMI está também a ajudar a catalisar novos fluxos de entrada de capital,
reforçando a capacidade local e alargando os mecanismos de cedência de
liquidez através do nosso novo Fundo de Sustentabilidade e Resiliência, a
fim de proporcionar financiamento a preços acessíveis para enfrentar os
desafios estruturais de mais longo prazo.
“Com o apoio prestado, a África Subsariana estará em posição de cumprir a
promessa do século africano, contribuindo para um futuro mais verde e mais
próspero para o continente e para o mundo”, afirmou o diretor do
Departamento de África.