9 de Abril de 2026
Bom dia.
Uma economia mundial resiliente está sendo posta à prova de novo, desta vez pela guerra no Oriente Médio. Esse conflito já causou consideráveis dificuldades em todo o globo. Minha solidariedade a todas as pessoas afetadas por essa guerra, por todas as guerras.
Quando recebermos ministros e governadores de bancos centrais em nossas Reuniões de Primavera, na semana que vem, direcionaremos nossa atenção para como enfrentar esse impacto mais recente e amenizar o impacto sobre as economias e as pessoas.
Para tanto, é necessário compreender a natureza do choque, os canais por meio dos quais ele afeta a economia, a dimensão do impacto e as políticas que podem mitigá-lo.
Mas então, o que nos atingiu? Foi um choque de oferta que é grande, global e assimétrico:
Como sempre, um choque de oferta negativo eleva os preços. A título de referência, o Brent saltou de US$ 72 por barril na véspera do início das hostilidades para um pico de US$ 120. Felizmente, os preços do petróleo caíram, mas ainda continuam bem mais altos do que antes da guerra — e muitos países estão pagando um ágio elevado para ter acesso a estoques limitados.
Paremos um instante para pensar nos países insulares do Pacífico, no fim de uma longa cadeia de suprimento, se indagando se o combustível ainda chegará até eles na esteira de uma ruptura tão grave.
As interrupções no abastecimento tiveram — e continuarão a ter por algum tempo — efeitos em cascata, como:


A segunda pergunta é: como esse choque pode se desenrolar? Por meio de três canais principais:


Já passamos por isso antes — nos anos 1970 e no início desta década. Sabemos que uma parte significativa do choque se dissipará em algum momento, nos deixando em um novo equilíbrio. A oferta se recupera e a demanda se ajusta. Novas capacidades entram em operação. A eficiência energética aumenta.
Como prova, vejam como, gradativamente, o mundo vem fazendo um uso menos intensivo de energia desde a década de 1980 (Figura 8a), o que amortece o choque. A participação da energia renovável cresceu, mas o petróleo continua a ser nosso combustível principal (Figura 8b).

À medida que o mundo responde, é importante que mantenhamos nossa busca coletiva pela eficiência e diversificação energéticas. Diferentes países seguem diferentes caminhos rumo à segurança energética, mas todos devem se empenhar nessa busca.
Passo então à terceira pergunta: qual é a dimensão do impacto no crescimento?
A resposta depende muito de se o cessar-fogo vai se manter e levar à paz duradoura e da magnitude dos danos deixados pela guerra.
Em vista das incertezas, nosso relatório World Economic Outlook, a ser divulgado na próxima semana, conterá um conjunto de cenários que vão desde uma normalização relativamente rápida, passando por um cenário intermediário, até outro em que os preços do petróleo e do gás se mantenham muito mais altos por muito mais tempo e os efeitos de segunda ordem passem a ser sentidos.
Todos esses cenários partem de uma situação em que fortes investimentos em inteligência artificial e tecnologia, condições financeiras favoráveis e outros fatores estavam dando um ímpeto considerável à economia mundial.
De fato, se não fosse por esse choque, estaríamos revisando para cima o crescimento global.
Mas agora, mesmo nosso cenário mais otimista envolve uma revisão do crescimento para baixo. Mas por quê? Por causa dos consideráveis danos às infraestruturas, rupturas no abastecimento, perda de confiança e outros efeitos que deixam sequelas.
Vejam o complexo de Ras Laffan, no Catar (Figura 3), um exemplo imensamente importante de um investimento estratégico feito da maneira certa: produtor de 93% do GNL do Golfo, com cerca de 80% desse gás destinado à Ásia–Pacífico, uma região que agora enfrenta um grave desabastecimento de combustíveis. Ras Laffan está essencialmente fechado desde 2 de março, sofreu ataques diretos em 19 de março e poderá levar de três a cinco anos para voltar a produzir em plena capacidade.

Mesmo no cenário mais otimista, não será fácil nem simples voltar ao status quo ante.
Outro fato relevante: observem como o tráfego pelo estreito de Bab-el-Mandeb, no Mar Vermelho, nunca se recuperou totalmente das interrupções devastadoras — ele permanece preso em cerca da metade do nível de 2023 (Figura 4a).

A realidade é que não sabemos de verdade o que o futuro nos reserva em termos da navegação pelo estreito de Ormuz (Figura 4b) ou, a propósito, da retomada do tráfego aéreo regional (Figura 4c).
O que sabemos é que o crescimento vai desacelerar, mesmo que a nova paz seja duradoura.
E sabemos também que há variações significativas pelo mundo afora. Os países aptos a exportar petróleo e gás sem perturbações são os menos afetados. Em contrapartida, os países diretamente prejudicados pela guerra — entre eles os países exportadores de petróleo e gás que sofreram com o bloqueio — e os países que dependem da importação de petróleo e gás ainda arcam com a maior parte do impacto.
A gravidade do impacto dependerá, em grande parte, da margem de manobra da política econômica de que os países dispõem, incluindo reservas de petróleo e gás, dadas as cinco semanas de interrupção que estamos vendo na navegação de petroleiros do Golfo.
Gostaria de apresentar alguns gráficos importantes para ilustrar três pontos de diferenciação:


E, no entanto, como o petróleo é uma commodity global, até mesmo os países exportadores de petróleo que estão distantes da região afetada e desfrutam de ganhos nos termos de troca sentiram os efeitos da alta dos preços do petróleo.
Passemos então à última pergunta: o que os países devem fazer?
Um alerta: como estamos diante de um choque de oferta negativo clássico, ajustar a demanda é inevitável.
As autoridades podem ajudar de várias formas e, decerto, precisam ter cuidado para não piorar as coisas. Assim, faço um apelo a todos os países para que recusem ações isoladas — controles sobre a exportação, controles de preços, etc. — que possam agravar ainda mais a conjuntura global: não joguem mais gasolina no fogo.
Além disso, como em choques anteriores, a agilidade e a prontidão são fundamentais. O desafio será detectar se e quando a evolução das condições nos levará de um estado do mundo para outro.
Vamos dar uma olhada rápida no que tem se passado efetivamente.
Na política monetária, os mercados estão prevendo que os principais bancos centrais tornem mais restritiva a orientação de sua política. Aqui, vemos quatro importantes trajetórias das taxas de juros implícitas nos mercados, cada uma delas indicando um desvio para cima (Figura 9).

Na política energética, vemos muitos países adotando medidas emergenciais de conservação de energia — de grandes campanhas, passando por restrições ao uso de veículos particulares, ao trabalho remoto. Essas e outras medidas estão bem documentadas no acompanhamento que a Agência Internacional de Energia (AIE) faz das políticas energéticas, resumido aqui (Figura 10a).

Esse intercâmbio de informações, gostaria de salientar, mostra por que unimos forças com a AIE e o Banco Mundial para formar um grupo de coordenação no qual o FMI se ocupará dos aspectos macroeconômicos.
E por fim, voltando à política fiscal, vemos que a maioria dos países manteve acertadamente a posição, evitando cortes de impostos sem um alvo específico, subsídios à energia não direcionados e medidas baseadas nos preços, embora um ou outro tenha optado por oferecer um apoio mais amplo. Mais uma vez, vemos o resumo da AIE (Figura 10b).
Queremos apontar que medidas que suprimem a sinalização dos preços também suprimem a resposta necessária do lado da demanda, o que resulta na elevação dos preços globais da energia. E trabalharemos com os países para ajudá-los a direcionar seu apoio fiscal e elaborar cláusulas de expiração automática eficazes para essas medidas temporárias.
Ao fazermos isso, também enfatizaremos que é importante que as políticas fiscal e monetária não atuem em sentidos opostos.
O mundo já está vendo as curvas de rendimento de referência subirem, elevando o custo da dívida (Figura 11). Neste momento, acrescentar estímulos financiados pelo déficit a esse cenário aumentaria a carga sobre a política monetária e amplificaria esses movimentos. Seria como dirigir com um pé no acelerador e outro no freio: nada bom.

Como destacaremos na nova edição de nosso Monitor Fiscal, o mundo tem um problema de espaço fiscal. De modo geral, a dívida pública está bem mais alta do que há 20 anos, mesmo na maioria dos países do G20 (Figura 12), reflexo de que, em muitos casos, se deixou de fazer uma consolidação fiscal nos períodos em que as condições permitiam.

Em consequência, os pagamentos de juros estão subindo como parcela da receita em todos os níveis de renda (Figura 13). A implicação é clara: é mister que os países usem com responsabilidade seus limitados recursos fiscais e a maioria precisa agir com firmeza para restabelecer o espaço fiscal após esse choque. Que a importância disso fique muito, muito clara.

Passo agora às políticas para o setor financeiro. Como insistiremos em nosso Relatório sobre a Estabilidade Financeira Mundial, é essencial que os órgãos de regulação e supervisão financeira estejam alertas e sejam capazes de responder com agilidade a uma situação fluida.
As condições financeiras têm sido altamente acomodatícias há algum tempo graças ao otimismo a respeito da tecnologia e a novos intermediários financeiros, muitos deles instituições não bancárias. Embora isso tenha elevado o crescimento, também cria riscos de reversão. Se os investidores passassem a temer que a insegurança energética poderia frear o crescimento da inteligência artificial, por exemplo, em vista de a IA ter uma necessidade voraz de energia, então poderíamos nos ver diante de um certo problema.
É preciso que as políticas micro e macroprudenciais funcionem para reduzir esses riscos para a estabilidade financeira e possibilitem um sistema resiliente.
Com isso, quero destacar a mais importante lição de todas: boas políticas fazem a diferença. Os países não conseguem controlar certas forças, mas eles têm autoridade sobre as próprias políticas e instituições.
Um alerta: a força e a agilidade de seus fundamentos é a melhor defesa diante de choques — e muitos deles virão.
À medida que enfrentam os efeitos prolongados do choque atual, não se esqueçam de liderar as grandes transformações globais em tecnologia, demografia, geopolítica, comércio e clima e, assim, construir um futuro melhor. As políticas estruturais e regulatórias que escolherem sustentarão a produtividade e o crescimento no longo prazo — e o crescimento potencial é importantíssimo para a estabilidade.
No FMI, nossa raison d’être consiste em apoiar os países membros na formulação de políticas sólidas e na construção de instituições fortes. E, à semelhança dos bombeiros, estamos aqui quando uma crise se abater.
Mais uma vez, vamos voltar nossos olhos para os países importadores de petróleo mais vulneráveis no mundo, aqueles com classificação de risco de grau especulativo (Figura 14a), e vamos destacar em azul todos os países com programas apoiados pelo FMI (Figura 14b). Podemos ampliar esses programas se necessário e, estejam certos, mais programas estão por vir.

Em vista da repercussão da guerra no Oriente Médio, prevemos que a demanda por apoio do FMI ao balanço de pagamentos no curto prazo suba para se situar entre US$ 20 bilhões e US$ 50 bilhões, com o limite inferior prevalecendo caso o cessar-fogo se mantenha.
Aqui, cumpre destacar dois pontos. Primeiro, essa faixa seria bem mais alta se não fosse pela formulação de políticas sólidas por parte de muitas economias de mercados emergentes, entre elas algumas das maiores, ao longo de décadas. E, segundo, dispomos de recursos suficientes para fazer face a esse choque.
Então, sim, nossos 191 países membros podem contar conosco para apoiá-los com financiamento se necessário for. E podem contar conosco para reuni-los e encontrar um caminho à frente através da cerração da incerteza. É disso que trataremos na semana que vem.
Obrigada, e fica a nossa esperança de que a paz perdure no Oriente Médio e em todas as partes, pois a guerra nos tira tudo por que trabalhamos.